quinta-feira , 19 julho 2018
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Aula 06 – As dimensões da educação para potência

por Luiz Fuganti

Essa é a última aula da experiência do pensamento e vimos até a questão da reflexão. Já vimos bem o que é experimentação, que é um modo de viver que apreende o viver no seu auto fabricar-se e nesse sentido a gente liberou um sentido de experimentação que não é a ideia ordinária que se tem de experiência como troca, como enriquecimento, como consumo. Ligamos a ideia de experimentação com a ideia de fabricação de eternidade na existência. A experiência é a natureza se fazendo, não é apenas algo pronto em nós que experimenta algo pronto fora.

Desse ponto de vista ligamos a experiência às cinco dimensões que chamamos de Educação Para a Potência:

  1. Experiência do pensamento;
  2. Experiência do corpo;
  3. Experiência da escolha;
  4. Experiência da memória ou da continuidade;
  5. Experiência do aprendizado.

A experimentação, nessas cinco dimensões, é usada no sentido de auto produção, de produção de real. Experimentar significa produzir. Do ponto de vista do pensamento vimos que pensar é algo ligado à criação. Produção e criação se identificam aqui. Produção e criação de real. Não é criação fantasmática, metafórica, representativa. O pensamento é, essencialmente, uma potencia de criar realidade segundo a sua singularidade. Pensar não é mover-se, são coisas distintas. A natureza do movimento tem a ver com o corpo e a natureza do pensamento tem a ver com o modo do tempo. A experiência do pensamento se dá no tempo. É o tempo se auto produzindo, se auto fabricando. Ligamos também essa ideia de produção e criação no pensamento – na medida em que há uma experiência do pensamento enquanto produção de eternidade, de realidade, de tempo – a uma conquista do imediato. O imediato como a capacidade de afirmar a diferença, uma qualidade afirmativa. A produção e a criação demandam uma conquista do imediato, que a gente chama de afirmação. Um modo afirmativo de pensar. O modo que afirma a diferença. A afirmação implica uma zona comum, um ser comum. É preciso ter o horizonte afirmativo acima de tudo, que é o próprio ser da afirmação. O ser e a afirmação são uma coisa só e é um ser comum a partir do qual as coisas singularizam. O que não é pensar? Vimos que pensar não é contemplar, pois contemplar implica um reconhecimento, uma recognição. Não é um conhecimento primeiro. Essa recognição pressupõe uma realidade pronta e acabada. Portanto nesse modo socrático e platônico de pensar não há criação de realidade em pensamento. O pensamento só serve para retornar a sua origem ideal, ao mundo supra celeste, às realidades ideais, que não existem na natureza pois são realidades transcendentes, são puras ideias. O pensamento precisa acessar essas ideias, como modelos da organização ou da ordem do mundo, ou da natureza. São modelos ligados ao Bem, a universalidade. Seriam a causa da ordem e da realidade em tudo que existe, se a realidade ou a natureza obedecer ou se submeter e passar por esse modelos. Passaria através do exercício do pensamento que acessaria essas realidades prontas que introjetariam no corpo, na alma, na vida, para que ela se organizasse segundo essas regras universais, esses modelos universais e eternos, já prontos e acabados. Se a gente diz que pensar é criar, então isso não é pensar. Isso tem a ver com o sábio, que na verdade é um crente. E fazemos uma crítica à ideia de sábio, que é como o sacerdote. Claro que podemos usar sábio em outro sentido, mas aqui definimos a sabedoria e o sábio como algo pronto que pela prática – do sábio – seria acessado. Esse sábio precisa ser um asceta, precisa renunciar o corpo, exercitar a liberação das próprias paixões para que deixe o pensamento ativo o suficiente para conquistar essas realidades superiores incorporais. O corpo seria uma espécie de estorvo, a fonte do erro. Pensar, mesmo que fosse conhecer – e não reconhecer – seria conhecer já algo pronto e isso tem a ver mais com a ideia de sábio do que a de filósofo ou de pensador, pois sábio é aquele que nasceu, se desenvolveu, se proliferou sob os regimes despóticos mágico-religiosos, que tinham a função de interpretar a vontade de um déspota, de um rei, de um poder, com sua dimensão política, jurídica, religiosa, no interior de um palácio. As sociedades palacianas que tinham seus escribas, contadores, sacerdotes. O sábio é um herdeiro dessas sociedades palacianas. Na medida em que não tem mais o déspota, é como se ele adquirisse uma autonomia de interpretação dos mitos ou das estruturas da natureza. Mas esses mitos e estruturas da natureza já tinham tido uma origem no próprio modo de organizar o poder, um tipo especifico de mito. São os mitos de soberania. Não são mitos de guerra, nem os mitos da terra, de fertilidade ou de abundância. São esses mitos de soberania, próprios da organização do estado que vão ser a matéria da extração de um modelo pronto desses sábios. Platão é um deles. A filosofia define a essência das coisas. Platão e Sócrates se dizem filósofos, pois eles definem, servem de um discurso lógico, do logos, que cria definição racional e atinge a essência das coisas. Mas Platão sabe que essa definição racional opera uma espécie de demanda por parte dos homens que vivem em sociedade, na medida em que eles disputam essa qualidade da essência, definida pelo discurso filosófico. Platão chega a definir, por exemplo, o que o político. Na medida em que ele define o que é o político ele vai dizer o que é a verdade desse político, a que será atribuída a um político. Mas cada um que tem interesse em ser político vai dizer que ele é o verdadeiro político, segundo a definição que é aceita, que é instituída e que autenticaria essa atividade de político. Na sua obra O Político ele chega nessa síntese de que o político é como o pastor dos homens. Pastor é aquele que cuida de cada animal do rebanho, do alimento, da segurança, da bebida, da saúde, ou seja, protege o animal dos seus inimigos. Político, então é aquele que cuida individualmente de cada um. Platão diz que o verdadeiro político é o pastor de homens, aquele que cuida dos homens. Daí aparece o açougueiro que produz carne e fornece carne aos homens e vai dizer que ele alimenta os homens, cuida dos homens e, nesse sentido, ele é o pastor dos homens; o alfaiate que faz a roupa dos homens diz, eu visto os homens, eu cuido dos homens eu sou o pastor dos homens; o médico que cura os homens diz que ele é o pastor dos homens. Platão então vai dizer que há uma série de pretendentes a essa verdade, mas, ironicamente, ele diz que nenhum desses pretendentes tem a legitimidade, pois não acessa a essência. A essência estaria dada por um modelo, que não está na natureza. Aí Platão abandona o discurso lógico e racional – se ele é um filosofo deveria ficar só com o pensamento, com expressão na linguagem, sem referencia de nenhum mito – e começa a narrar um mito. Que filosofia é essa? Uma maneira romanceada, uma brincadeira de Platão, como se ele abandonasse essa tarefa de fazer essa divisão, essa seleção que ele quer fazer. Ele começa então a narrar o mito de um deus, Kronos, que em tempos remotos governava a natureza e os homens e por um crime hediondo que aconteceu numa relação entre dois irmãos – um matou o filho do outro e serviu esse filho em banquete – Kronos, horrorizado, abandonou o governo do mundo. Desde então o mundo, a natureza, passou a andar num tempo diferente, não mais aquele tempo circular que ia do mesmo ao mesmo, que era o tempo do paraíso. O homem não precisava trabalhar nem se vestir, nem fazer suas casas. A natureza funcionava como um relógio perfeito. Esse mito já é corrente no inconsciente, na literatura e na língua grega, na memória dos gregos. Os gregos vieram dos micenas, e o povo micenico era um mundo despótico mágico-religioso, que tinha economia palaciana. Tinha um déspota que se chamava Anax, que comandava toda essa ordem social que, inclusive, unificava a Grécia toda – antes de haver divisão oriente ocidente. No interior de seus palácios Anax tinha os seus escribas, seus intérpretes, sábios e sacerdotes que se relacionavam com o mundo mágico e religioso, segundo uma ordem mítica, de fundação daquela dinastia, daquela soberania. São mitos circulares, de soberania. Tem mito de fundação e mito de regulação. Mito de fundação é o mito que funda aquela ordem e geralmente ele se expressa pela luta desse Anax – que é um deus incorporado – com titãs, demônios, forças do caos. O cosmos é instaurado nessa ordem mítica que venceu as forças do caos – então há um começo do cosmos – que é encarnado nesse déspota divino, cuja vontade é interpretada pelos sacerdotes. O sacerdote acessa a estrutura do mito para repetir a fundação do mundo. E a cada grande ciclo que se fecha, o mundo recomeça, há uma repetição. Existe uma obra, O Mito do Eterno Retorno, do Mircea Eliade, que é muito interessante para esclarecer isso. Esse modo de funcionar o mito, esse tipo de mito, de soberania é comum. George Demezille passou a vida inteira, ele viveu uns 90 anos só fazendo isso, analisando os mitos indo-europeus e em todos ele encontra três tipos de funções ou de uso do mito: mitos de fertilidade e abundância, que são mitos da terra; mitos de guerra, que são mitos dos nômades, um uso da linguagem, das práticas do modo de vida nômade e mitos de soberania que é o uso do mito para fundar o estado. É esse mundo que funda o estado que o inconsciente platônico apreende e tem nostalgia. Platão tem nostalgia do Anax. Na Republica, inclusive, ele vai dizer que é preciso de um rei filósofo para governar a sociedade. Para Platão esse rei é totalmente fundado no Bem, uma pura forma da verdade. Os mitos de guerra são mitos nômades, das sociedades selvagens. Os de fertilidade, que são mitos de abundância, de crescimento, esses rituais de chuva, isso tudo faz parte dessa fertilidade, dessa sexualidade, dessa provisão da própria terra, podemos dizer mitos da mãe terra. Existe um outro uso do mito que são os mitos de combate, que são um uso que se faz da linguagem como narrativas de combate. Tem também as epopéias, como a Ilíada que é uma narrativa heróica, além dos mitos. Aquiles é filho de uma deusa, é um semi deus. Existe uma narrativa mítica atravessando as sociedades guerreiras. E aí existe o uso da narrativa mítica para fundar um estado. No estado o mito tem sempre um duplo aspecto: a fundação – um mito que funda o cosmos sobre o caos. O cosmos tem uma data de nascimento, um começo e a partir daí se estabelece uma dinastia. Sempre há um risco do cosmos se afundar no caos e é por isso que o Anax e seus sacerdotes exercem a função de manter a ordem que se estabelece sobre a natureza. Isso tudo devido ao déspota, ele é o grande credor dessa ordem cósmica, dessa fundação cósmica. Além desse mito de fundação que emerge de um combate, de uma luta, um mito violento de fundação existe o mito pacífico de regulação. O uso da função mítica das narrativas para regular depois, uma vez que a sociedade está fundada, regular o seu funcionamento em tempos de paz. A marcação das estações, das funções, vários rituais que vão pontuando essa rede que distribui e recorta o espaço, que secciona o tempo e faz com que a sociedade, as plantas, os animais, a própria natureza fique organizada. O estado precisa desse plano formal para integrar o seu poder. É uma espécie de estratificação que se opera no campo da linguagem com um uso mítico. Uma vez que o Anax micenico desapareceu – há 600, 700 anos, 1200 AC – a Grécia passa por um período de incubação do séc. 11, 12 até o séc. 8, 7, até a emergência da cidade estado. Isso tudo vai atravessando inconsciente, isso é observado nas narrativas de Homero, de Hesíodo, dos poetas que atravessam a Grécia, das seitas religiosas, enfim, há um certo inconsciente da linguagem atravessando essa sociedade. Platão, assim como Sócrates, inspirou-se nessas seitas, nesses grupos esotéricos, que têm uma prática xamânica, mas já com certo desvio, na medida em que eles têm uma ideia que a alma se separa do corpo. Há toda uma cisão que acontece na Grécia, que não vou entrar nisso agora, se não vamos sair muito do foco da aula. O que é importante marcar é que a estrutura de um deus político, no caso Kronos, emana a ideia de que há uma estrutura circular imutável, que jamais muda, que produz e organiza o movimento perfeito. Faz com o devir seja sobre codificado por esse ser perfeito. Platão diz que o verdadeiro político só pode ser atribuído ao Kronos, que é um deus que já está fora do mundo. Ninguém aqui na terra é o verdadeiro político, ninguém aqui na terra tem a essência plena e primeira desse ser, essa qualidade de político. Só Kronos era autêntico nesse sentido. Kronos, na verdade, era uma estrutura do mundo micênico, já era o Anax micênico. Tem a ver com o modo como esse mito era ligado ao Anax, a essa prática de soberania. Ele dava unidade a uma ordem fechada e supostamente perfeita. Na medida em que esse ser abandona, então sobra para os homens o devir, que é aquilo que faz com que o movimento mude, com que o ser devenha outra coisa e Platão vê nisso uma decadência. Sempre que há uma abertura para o devir você não é capaz de se manter no ser. O devir te tira do ser. Platão associa a realidade àquilo que não muda, que é eterno, que está fora do tempo e do espaço. Ele diz que o perfeito é o que não muda, essa estrutura que se destaca do mito e que emite uma qualidade. Qualidade essa que, se eu a observar, pode ser atribuída a mim. Mas eu preciso conquistá-la. Usar o pensamento para apreender a estrutura, o que seria a essência desse verdadeiro político e aí sim eu tenho a qualidade, em segundo lugar, no melhor dos casos, senão em terceiro, ou quarto, ou quinto, ou até aquele que tem apenas uma semelhança mínima com essa estrutura, que mesmo assim ainda está incluso no mundo platônico. Mesmo a cópia que não tem mais semelhança ao modelo. Mas há uma hierarquia, os que se aproximam mais e os que aproximam menos e dessa forma terá mais ou menos valor, mais ou menos qualidade, será mais ou menos legítimo para exercer a função de político. Até o ponto em que aquela imagem é uma diferença que apenas simula a semelhança ao modelo, mas na verdade não é. Não tem a semelhança real ao modelo, ela subverte-o. Essa imagem Platão chama de sofista, que opera no campo do simulacro. Os sofistas são especialistas em sabedoria e ele operaria uma simulação da semelhança do que seria a verdade, ao que seria o modelo. É aquele que apenas parece ser, mas carece de ser. Aí ele põe os sofistas, os tiranos, os artistas, os poetas. Ele expulsa os artistas da sua República, pois são simuladores. Platão diz que toda a diferença que não se liga a uma identidade primeira do modelo, que não obtém a semelhança ao modelo, não é uma imagem ícone e sim uma imagem simulacro, que é demoníaca, pois simula o bem e a verdade, mas no fim ela é o principio de toda corrupção. Aquilo que depois vai fazer Nietzsche dizer que a natureza é a mais alta potencia do falso e que a maior de todas as mentiras é um desses simulacros saltar fora e dizer que ele é a verdade universal, como faz Sócrates e Platão. Nietzsche diz que isso é a história do mais longo erro da humanidade. E o erro não é ignorância, não é cegueira, mas covardia. Esse erro implicaria uma renúncia a isso que a natureza é, pois a natureza é toda simulacro, ela funciona nesse campo, não existe um ponto universal da verdade, existe sempre uma ótica do necessário, um absoluto de cada ponto de vista, mas jamais um que se destacaria e que seria o uno, que abarcaria a multiplicidade, que sobrevoaria sobre essa multiplicidade e que se diferenciaria minimamente em modelos que fariam uma espécie de múltiplo ideal, que submeteria a multiplicidade toda. Esse múltiplo ideal unificaria, seria todo o esquema de regulação, de iconização do mundo, de divisão do mundo em Bem e Mal, em bons e maus intencionados, em imagens ícones e imagens simulacros. Entre aqueles que não observam modelos – os que afirmam diretamente a diferença – e os que observam o modelo e, portanto, se reconduzem a um caminho de ascendência, de recuperação, de universalização no bem. Esse plano que é o plano do imutável, do eterno, do puro ideal que não existe na natureza, seria o próprio objeto do pensamento. O pensamento pensaria essa coisa já pronta. No melhor dos casos ele reconquistaria essa realidade que já está dada, que é eterna e por ela ele ganharia a condição, seria autentificado, legitimado para que pudesse imprimir algum tipo de ordem na vida em sociedade. Pensar então seria reconhecer esse modelo, e não criar. Isso é o que nós dizemos que não é pensar. É um modo de imaginar que, na verdade, serve ao poder. Esse modelo, em última instância, precisa ser determinado e Platão criou isso! Ainda que ele diga que essas ideias são incriadas, que elas existem na eternidade, ele precisou inventá-las. Desse ponto de vista Platão pode ser chamado de filósofo, pois ele criou um conceito, só que uma bizarra criação. Criação no negativo. Mas ele é sábio também, na medida em que ele acredita em ideia pronta. Todo sábio é crente. A sabedoria não é pensamento. Pensamento é criação. Pensar é criar realidade. Platão cria uma forma do negativo: se tem um ideal, um modelo, o real é inferior a esse ideal, algo que, no melhor dos casos, se remete a esse ideal e pode ser resgatado por esse ideal. Esse que é o negativo da natureza, criação negativa, uma condição para julgar a natureza e a vida. Essa condição é uma pura forma vazia. O que tem dentro de um ideal? Um desejo. Platão achava que era neutro. Neutro uma ova! Todo mundo, seja um deus, um filósofo, quem for que se apodera da essência da ideia vai dar um conteúdo a ela. E o conteúdo é uma potencia, um poder, um desejo, é sempre interesseiro, tem alguma direção. É outro ponto de vista. Não é o universal que abarcaria todos os pontos de vista. É isso que Nietzsche diz que é a mais mentirosa das mentiras. Outro modo de Nietzsche dizer isso e que faz parte de várias versões que ele dá sobre a morte de deus: “Os deuses morreram, mas morreram de tanto rir ao ouvir um deus se achar o único.” Isso é ridículo, não existe um ponto absoluto que se sobrepõe aos outros. O que importa aqui a gente apreender é que pensar não é chegar numa realidade acabada, pronta e imutável, isso é ficção. Até mesmo Kant acreditava nisso, acreditava no valor em si – isso agora, séc. 19, cento e poucos anos atrás – a razão em si, a moral em si, a religião em si. E nós que acreditamos em valores humanos, os valores universais do homem. A democracia seria um valor universal. Isso é uma crença, não existe nenhum valor em si. Valor é uma zona de interesse, uma região onde a vida se torna mais importante. Um valor é uma importância, uma avaliação, algo que observado faz com que a vida se diferencie. Mas um valor em si precisa antes ser criado. Na verdade é a vida que cria valor. O valor é sempre o modo da vida acontecer, então está sempre em variação. Os valores são criados. É preciso acessar a potencia em nós de criar valores. Pensar também é criar valores. Podemos ver depois no final da aula o que Nietzsche diz e entende por pensamento ou por verdade. Pensar é interpretar e avaliar. Interpretar sempre no sentido de um acontecimento por uma força, não por um eu, um sujeito que interpreta. Não é interpretosa, psicanalítica. Interpretação da força. A força que interpreta porque a força gera sentido, é uma direção do real. Além dessa direção ou geração de sentido, existe também o que pode esse sentido, que é o seu valor. O que ele vale. Não é verdadeiro ou falso, ele é o que ele é, nessa direção ele pode algo, pode afetar e ser afetado, também está em devir. A ideia, o pensamento, está em devir. Ela pode algo. Essa potencia dela é o próprio valor dela. É por isso que não é preciso julgar. O juiz é aquela instância, que acessamos, ou que está em nós, ou em deus e a gente atribui ou tira valor a alguma coisa, aprecia ou deprecia, estima ou desestima. A coisa não precisa de nós pra estimar ou desestimar. Essa estima ou desestima que tem com a coisa é sempre em relação à gente. Se nos faz bem ou mal a gente estima ou desestima, mas a coisa tem valor próprio. Não é valor em si, é valor próprio, ou seja, ela pode o que ela pode. É só por ficção que eu deprecio alguma coisa ou supervalorizo outra. A super estima e a sub estima são modos de julgamento. Mas se pensar é criar e não julgar então pensar é produzir valor e sentido, na medida em que o pensamento inventa um sentido e avalia também, pois esse sentido leva a vida para certa direção. Platão não é verdadeiro nem falso. É só dizer, o que vale isso para a vida? E quem? Que tipo de vida? Quem em mim quer o ideal platônico? Só o covarde quer, pois não é capaz mais de acontecer no imediato que lhe atravessa e precisa de um referencial lá fora. Esse que precisa do ideal acha que o ideal lhe vale muito, lhe é necessário, não consegue acontecer sem ele, não consegue suportar a vida. Por isso Nietzsche diz que a mentira é necessária. Para quem? Para o modo de vida fraco, separado do que pode. Naquela mentira existe uma verdade, a necessidade do fraco. Não se trata de dizer, olha você está enganado ou desaconselhar. Nietzsche diz que uma vez uma força em movimento, impossível detê-la, acelere-a. Quer dormir? Durma. Quer ser preguiçoso? Seja. Idealista? Seja. Quer depreciar o corpo? Deprecie tanto até se matar, até acabar com ele. Quer o outro mundo? Vai logo prá ele. Em vez de dizer não vá, diga vá fundo, vá logo de uma vez, pois aí você apreende o valor que tem aquilo para a vida. O que vale isso pra a vida? Não se trata de verdade ou mentira, se trata do que acontece com a minha vida na relação que eu estabeleço com esse sentido, com esse valor que eu criei ou que criaram para mim. É disso que se trata. É que nem a estória do Pascal, a aposta dele na existência de deus. Ele não está pensando realmente se deus existe ou não. É que se deus existir e ele apostar que ele não existe ele vai perder a salvação. Ele está pensando é nele mesmo, na salvação dele e não se deus existe ou não. Em vez de ele fazer a prova da existência ou não, ele faz uma aposta. Porque na verdade o que interessa é isso. Por isso Nietzsche não se preocupa com a existência ou não de deus. Para Nietzsche deus é um acontecimento dos homens. Os homens que inventam deus precisam de deus enquanto uma mentira para sustentar sua existência. Eles precisam dessa mediação. Eles não toleram a afirmação imediata da diferença, estão separados do que podem, e seria mortal para eles se investissem num modo imediato de ser, não suportariam. É por isso que insisto que devemos fazer a lição de casa. Não adianta só entender intelectualmente a coisa, tem que sustentar isso no corpo, na nossa vida. E para isso é preciso ligar a nossa vida ao que ela pode, ao imediato do movimento, do tempo, da diferença, da continuidade de produção de memória. Ligar e sustentar esse imediato. Aí sim eu posso suportar uma ideia. Quando se fala, uma sociedade sem deus, sem lei, sem estado, sem propriedade, é possível? A maioria das pessoas diz que é impossível isso. É impossível porque as pessoas vivem separadas do que podem e desse ponto de vista é impossível mesmo. Mas se você atinge essa outra dimensão onde você se liga imediatamente ao que pode, você percebe que é um desperdício, uma concessão estúpida transformar o comum no universal, que é o que se faz sempre. Aquele que precisa da lei é aquele que substitui o comum pelo universal. O comum é uma necessidade da relação. Se você acessa esse necessário, você acessa o sentido ativo da vida e acessa o horizonte afirmativo que constitui valor. Isso seria pensar. Uma postura criativa. Mas os homens precisam sempre de algo pronto, já que estão separados dessa capacidade de pensar, de inventar sentidos. Eles se relacionam, no melhor dos casos, ao sentido possível, ao que é dado no campo do possível, que já é determinado por um diagrama de forças de uma época que reduz o real a capacidade dessa época apreender-se a si mesmo, uma vez que ela está reduzida ao estado de corpo dela mesma ou se reduz a natureza toda, a eternidade toda a essa visão limitada de época. Acabei fazendo um desvio aqui que, na verdade, está bem dentro do nosso assunto, só que a ideia não era ficar falando de mito de soberania, mas dá para aproveitar e perceber que um filósofo não está no abstrato. Ele está relacionado com o real, com a vida dele, com a sociedade, com o modo de vida. E Platão tinha um problema sério, inclusive ele queria vingar a morte de Sócrates. Uma sociedade que era tão decadente que condenou o melhor dos seus homens à morte. Platão tinha essa questão passional. Aí você percebe como ele constrói esses artifícios que, depois de um certo tempo, vão ser tomados por estruturas eternas da natureza e do pensamento. Platão virou, de fato, uma referência essencial para todo o ocidente. Nós continuamos platônicos na medida em que exercemos esse tipo de prática. A sociedade inteira é platônica. Se ela é cristã, kantiana, hegeliana, cartesiana, judaica, islâmica, antes de tudo é platônica. Se Spinoza criou o mais puro plano de imanência, Platão criou o mais puro plano de transcendência. Platão fundou a transcendência que, no fundo, é um modo de vida e não só um sistema de pensamento. Eu tenho a vida que eu mereço, segundo as coisas que eu me relaciono, que tem retorno imediato sobre mim. Platão é admirável. Já de Sócrates não se pode dizer o mesmo. Sócrates era um plebeu, como diz Nietzsche. Plebeu e nobre do ponto de vista nietzschiniano. Sócrates extraiu da própria gramática os objetos gerais, sua criação é bizarra e a motivação dele é bem baixa, covarde. Platão tem uma vontade incrível, de um paranóico, um psicótico, não é um neurótico qualquer, embora não se possa falar assim da sociedade grega que tem outra formação social, onde não existia uma neurose. Eram ainda muito saudáveis para ter neuroses. Nem Sócrates dá prá dizer que é neurótico. É um depressivo, isso dá para dizer. Voltei a sinalizar o que é pensar – do ponto de vista de Nietzsche – que é criar sentidos e criar valor, mas vamos voltar ao que não é pensar. Já vimos bem o que não é pensar em relação à contemplação, só estava resumindo. Pensar não é refletir. Se pensar é criar, refletir não é criar. Refletir precisa de uma coisa pronta e precisa de um espelho. O modo reflexivo de pensamento, que se torna dominante no ocidente, acontece no séc. 17, com Descartes que diz que pensar é fazer com que o objeto se adeque ao sujeito, seja refletido no sujeito – tanto um objeto material, do mundo, como um objeto ideal. O que importa é que haja uma adequação. A verdade seria a adequação do objeto ao sujeito. O sujeito já enquanto forma de pensamento, o sujeito enquanto forma pura. O objeto seria um conteúdo dessa forma. Eu obrigo o objeto a caber nessa forma ou ser legitimado por essa forma que estaria no sujeito ou seria produzida pelo sujeito. Pensar seria refletir o objeto no sujeito ou submeter o objeto ao sujeito. Assujeitar o objeto, uma maneira inclusive de assujeitar o corpo. Uma consciência pode comandar as paixões, por exemplo, do ponto de vista de uma subjetividade que é constitutiva dela e que faz com que as paixões se reflitam nela e sejam dominadas por elas. E aí aquelas bizarrices que acontecem na obra de Descartes e de outros metafísicos crentes que vão instaurar um ponto de ligação da consciência, que seria o puro espírito, e o corpo, que seria a matéria, o movimento, através de uma glândula pineal. A pineal seria a glândula que transmitiria as ordens de um puro espírito ao corpo, que é puro movimento. É só ler Descartes para ter um bom motivo para rir. A realidade do objeto é só aquela que cabe na forma. O conteúdo que vale a pena do objeto é só aquele que cabe na forma. Aristóteles tinha começado a desenvolver esse pensamento: que pensar é separar, abtrair as diferenças acidentais e ficar só com aquela diferença universal do indivíduo. Por ex: o homem é um animal racional e mortal. Racional seria uma diferença em relação ao animal, que é irracional. Mortal seria uma diferença em relação aos deuses, que são imortais. Essa é a definição de homem. Esse homem, aquele homem, os homens que já existiram, os que vão existir, são acidentes desse homem universal, essa pura ideia de homem. Os homens físicos até tem uma relação com o homem universal. Se os homens físicos são substâncias físicas, o homem universal é uma substância metafísica, ou substância lógica, que é uma pura forma. O homem físico é uma forma com um conteúdo, é uma matéria formatada, assim como uma casa de madeira, tem a matéria da casa que é madeira e a forma da casa que dá uma substância a casa. O homem físico tem uma substância física, feita de matéria e forma. O pensamento só pega a forma, esquece a matéria. A forma, que gera um conteúdo adequado sobre aquela forma, é que é o objeto do pensamento e elimina todo o resto. O ideal estava pronto e fora do mundo, agora é o próprio pensamento operatório no mundo fazendo isso. Há uma produção aqui, ainda que se acredite que o objeto esteja pronto, sendo refletido nesse sujeito. O que não é dito é que esse modo subjetivo de ser já implica um campo de forças, uma limitação de visão, de percepção ou de pensamento que esmaga o real, que reduz o real. É esse modo em mim que já está operando. É o cógito em Descartes. O tal do penso, logo existo. Aquela instância que ele funda, do eu solipicista, isolado, que se sobrepõe ao mundo e só se relaciona com a parte que se adequa a esse sujeito do mundo. É o reducionismo do mundo. Aristóteles já iniciou isso que Sócrates e Platão ainda buscavam no outro mundo, um jeito de aplicar isso aqui na terra – ele traz as ideias platônicas para a psique humana – mas Descartes cria um modo de operar essa introjeção do modelo já na própria prática, no próprio exercício do pensamento, uma aplicação direta. Aquela qualidade platônica que está fora do mundo, que pertencia em primeiro lugar ao modelo e que eu por uma certa ascese era capaz de apreender, imitar por semelhança e por isso qualificado nas minhas ideias e ações, agora já está operando dentro de mim. Essa qualidade já está extraindo coisas do mundo, isso é, aquilo que interessa do ponto de vista dessa qualidade. Mas essa qualidade é constituída por um campo de forças. Isso não é dito. Assim com em Platão já era e que Nietzsche vê bem. O ideal é a verdade, mas quem quer esse ideal? E o que ele quer ao querer esse ideal? Essa é a grande questão nietzschiniana. Não é mais o que é a essência de uma coisa, mas quem quer essa essência e o que quer esse quem ao querer essa essência. A mesma coisa em Descartes. O que quer aquele que reduz o pensamento à reflexão, ao espelho? Ele quer submeter o mundo ao seu estado de mente, de corpo, de impotência. Ele só suporta o mundo reduzido dessa maneira, legitimado, utilizado, verificado, dessa maneira. Refletir não é invenção nenhuma e aqui podemos usar uma coisa mais elementar. Se veja diante de um espelho. Se você tiver de fato dentro do espelho é uma viagem, existe produção aí. Mas vamos supor esse ser mais obtuso, que tem uma consciência, olha e vê um reflexo. O reflexo é o reflexo de algo já feito, pronto. Aqui, de novo, refletir não é criar, então isso não é pensar, pois pensar é criar. A reflexão é uma maneira de conformar e submeter a nossa capacidade de pensar a um modo adequado de refletir o objeto no sujeito. O próprio sujeito seria um espelho do mundo e no espelho só aparece o que se adequa a essa forma do espelho. É um reducionismo radical. Hoje, o que é dominante é a comunicação, embora a reflexão e a contemplação seguem aí, atravessando junto. Há um revezamento, no início era a contemplação, depois foi a reflexão, agora é a comunicação, mas essas outras formas estão aí juntas interagindo. É como diz Spinoza, para você ter a ideia da ideia – que seria uma reflexão, uma consciência – é preciso se ter a ideia. Como vai ter a ideia da ideia se não tem antes a ideia? O pensamento reflexivo já parte da ideia da ideia, mas ele não apreendeu o que é a ideia, não está no pensamento, está na consciência do pensamento, na consciência da ideia, que é a ideia da ideia. É aí que opera a reflexão, sempre de modo retardado. Ela só reflete algo que já foi produzido. Pensar então, não é refletir. É o que diz Delleuze, não precisa de nenhum pensador para refletir a sua prática. O artista não precisa chamar um filósofo para refletir. O pensador cria e não está preocupado em avaliar a verdade do trabalho de alguém, ele se conecta e produz devir ali. Algo vai se passar, não tem que ficar preocupado se vai esmagar o trabalho do outro ou se reduzir ao comentário do que o outro fez. Se ele é pensador está criando junto, no encontro. Não tem essa falsa modéstia, esse falso cuidado de ah, eu não vou me meter no campo de vocês. Isso é um purismo imbecil. Ninguém precisa de ninguém para refletir a sua prática. A reflexão já se dá. Você faz alguma coisa você, automaticamente, já tem o reflexo daquilo, é só começar a prestar a atenção. Tudo que se faz tem reflexo. Isso é uma potencia da natureza. A natureza repete, inclusive no reflexo. Se tem uma ideia, vai ter a ideia da ideia e a ideia da ideia da ideia, e assim por diante. Isso é potencia da natureza. Mas esse não é o modo essencial do pensamento. Isso não é pensar. Isso é imaginar. Enquanto imagem é uma potencia, não há a menor duvida. Agora vamos para o ultimo aspecto. Pensar não é comunicar uma informação que geraria conhecimento. Eu não conheço através da comunicação de informação. A palavra comunicação é um conceito. A gente usa a palavra no sentido ordinário. O que já está dado do ponto de vista do senso comum é que as coisas se comunicam entre sujeitos. Pressupõe-se sujeitos, uma relação intersubjetiva, há uma intersubjetividade. Não é mais relação sujeito-objeto, como em Descartes. Não é mais o objeto se refletindo no objeto nem como em Platão, o espírito – que seria um sujeito, mas para Platão não é sujeito, o espírito já começa no ideal – não é um objeto ideal que vira sujeito em mim e volta para o objeto ideal. Não é mais um objeto que se reflete no sujeito, mas agora é uma relação entre sujeitos, uma inter subjetividade que opera a transmissão, a comunicação de uma informação. Uma informação é uma forma que carrega um conteúdo, mas essa forma se legitima no comunicar, no comum. Então haveria um comum da forma. Ora, isso é uma falsificação do comum! Porque o comum não é uma forma. Se eu digo que o comum é uma forma, estou reduzindo o comum ao universal. Kant está exatamente nessa fronteira, ele diz que há um comum que é universal. É universal em si, que é apreendido pela pura forma do pensamento, é o dever ser de qualquer coisa. Ele quer atingir a forma que serve para qualquer coisa e essa forma é na verdade o dever de qualquer coisa. Ao atingir esse dever ser, ele atinge a forma sob a qual o conteúdo é legitimado. Aquilo que a informação informa é legitimado. Esse comunicar implica esse comum da forma, não o comum do ser, que é o que estamos aqui chamando para pensar, o comum do ser. Mas o comum da forma pressupõe um senso comum, que há uma subjetividade em mim que é igual sua subjetividade, que há um comum da subjetividade, que há um senso comum. E ao mesmo tempo o bom senso, o sentido verdadeiro desse sujeito e dessa intersubjetividade é a pura forma do dever ser que estaria nesse universal. Estou aqui falando da maneira mais abstrata possível, na essência da coisa, não estou dando exemplos. Mas é fácil de verificar isso quando a gente atinge uma verdade tal que a gente diz essa é a minha verdade, que é também a sua, apesar de você não querer, não entender. Isso é autoridade. È aí que ela está fundada. Ela se autoriza por uma pura forma de verdade, que não importa o que a sustenta. Se ela é tida e apreendida como pura forma de verdade ela tem que ser aplicada. É como o exemplo da orquídea e da abelha. O devir orquídea da abelha, o devir abelha da orquídea. Como se nesse encontro entre os reinos vegetal da orquídea e animal da abelha houvesse uma comunicação entre elas e haveria uma forma comum entre a orquídea e a abelha. Isso é um absurdo porque a imagem que a orquídea faz da abelha não tem nada a ver com a imagem que a abelha faz da orquídea. E a imagem que a orquídea faz da abelha e se opera na abelha e vice versa, na verdade, faz com algo na orquídea aconteça de modo completamente diferente do que algo na abelha que acontece também por sua vez de modo completamente diferente. E, no entanto há uma zona comum de encontro. Segundo esse pensamento de que pensar é comunicar uma informação haveria uma mesma forma da orquídea e da abelha e o que se passaria na abelha se passaria na orquídea. Isso é um reducionismo estúpido. Há um relacional comum sim, mas é o relacional que é comum e não a forma que é a mesma num e noutro. A autoridade do poder está fundada em que há uma forma correta de ser que é a mesma em mim e em você. Esse é o regime da autoridade, dos direitos humanos, dos valores universais, da justiça moderna. Está todo fundado na comunicação da informação. É uma camisa de forças no desejo ou pro desejo. È aquilo que Deleuze diz do soldar a lei ao desejo. Na modernidade há uma soldagem da lei ao desejo. O desejo só é legitimo na medida em que está soldado na lei. É o imperativo categórico de Kant. Todas essas formas do que não é pensar não deixa de ser uma camisa de forças na vida, uma captura. Esse exercício do pensamento que leva o homem a um estado superior, podemos dizer que leva a um estado superior de impotência. É captura do pensamento, é a forma negativa do pensar. É aquilo que Nietzsche diz: “o homem não sabe o que é pensar pela afirmação, ele precisa da negação para conhecer” – a perda e a negação do imediato. E o imediato é a afirmação que faz a diferença diferenciar. Precisa sempre de um mediador, um atravessador, o que a gente chama de plano transcendente de organização. É difícil, sim, porque não fazemos a lição de casa. Não fazemos a lição de casa, pois ainda fazemos um uso piedoso da dor e do prazer. Se passa no campo das paixões: medo, esperança, amor, ódio alegria, tristeza, são paixões. O que faz com que a gente fique reduzido à paixão? Que a gente não apreenda aquilo que transmuta a paixão em ação? É a paixão que nos deixa sempre entre o eu e o outro. A paixão nos coloca nessa zona e na medida em que está entre o eu e o outro, a gente identifica a dor como vindo do outro, você vai odiar o outro, se sofre prazer vindo do outro, vai amar o outro. Se sente dor vindo de você, vai então se odiar, sofre prazer vindo de você, vai se amar. Fica sempre ódio ou amor do outro ou de si. E aquela coisa, vamos evitar a dor e seguir o prazer e, na verdade, perde-se o entre. Não apreendemos o entre. Não há plenitude senão pelo entre. É o entre que nos torna plenos. Na medida em que a gente habita esse entre do pensamento ou esse hiato do corpo, o acontecimento, como plenitude ou como ato que atualiza plenamente a potencia e pode, é claro, acontecer de várias maneiras. E é nessas várias maneiras que entra a questão ética. A ética quer ligar a vida ao que ela pode. A moral, ao contrário, liga a vida ao que ela deve. A ética sabe que a vida não tem dívida. Ou se tem dívida ela é sempre finita e material, sempre um processamento pra ela se superar, um adestramento de forças reativas, isso seria a dívida da vida, mas é rapidamente paga na medida em que a própria vida se supera. A ética liga a vida ao que ela pode. E a vida pode atuar no entre, modificando nossas maneiras de ser. Spinoza diz que nós sempre somos preenchidos, que ao nosso desejo não falta nada. Toda potência é necessariamente em ato. Não existe potencia em potencia apenas. O ato é o preenchimento, a atualização da potência. Se eu substituo potência por desejo, todo desejo é preenchido por um objeto, mas o objeto não é o outro, é o entre, o acontecimento, o ato, esse é o segredo do nomadismo e da liberação da nossa piedade. Libera-se de um uso piedoso da dor. Nessa zona que começa a acontecer a conquista, não apenas a vivência, e o gosto pelo imediato, pela diferenciação. Mas como o acontecimento, antes de tudo, é virtual – e, portanto não existe – ele tem que ser apreendido na sua realidade não existente. Aquele que está separado do que pode reduz o real a existência. Mas o vituL tem uma realidade. Ao dizer que ele não existe não quer dizer que não seja real. A realidade é infinitamente mais ampla. Existe uma dimensão virtual do real que não só é necessária como absolutamente necessária, é impossível que ela não exista. È preciso apreender essa dimensão que está bem diante do meu nariz, na minha pele física e metafísica do tempo, é exatamente aqui que ela está, nessa imanência, no relacional das nossas relações, é aí que se capta esse virtual, aí que tem plenitude e matéria de criação. É aí que posso operar um modo de viver, que não me determina de fora. Isso seria uma autonomia real, com a conquista desse imediato. Uma autonomia oposta aquela de Kant. Para Kant a autonomia é moral. É aquele sujeito que torna legislador, pois aprendeu a pura forma do dever ser e ele mesmo que legisla e faz as leis, não precisa que ninguém diga a ele, nem deus, ele não precisa ser carregado por deus, agora ele mesmo se carrega. É o homem moral, a moralina pura, e ele acha que é livre, superior, autônomo – pois ele se auto regula – Mas na verdade ser autônomo não se auto regular a partir de uma pura forma que é universal para todos, e que você apreendeu ela na essência e não precisa que ninguém te diga o que é essa forma. Você já conquistou essa autorização e essa autoridade, você se torna autoridade legisladora e autônoma, se torna um juiz do próprio real. A autonomia, ao contrário, tem a ver com uma abertura máxima e fazer dela combustível da vida, mesmo que essa abertura momentaneamente te enfraqueça, te adoeça, que se faça maus encontros. É a capacidade, em qualquer encontro que se faça, por pior que seja ele, de transmutá-lo em aliado, em saúde, em força. Se ele te enfraquecer, você pode se tornar mais forte, se é uma paixão, transmuta em ação, se é doença, transmuta em saúde, se é inimigo, transmuta em aliado. Aí tem autonomia. Se o homem conquistar essa dimensão estará na autonomia real e não a autonomia kantiana, moral. É o que diz Nietzsche: autônomo e moral se opõem. É autônomo e supra moral. A finalidade é sempre um efeito, uma conseqüência. O homem livre, ativo, afirmativo, que goza, não age em vista de um bom fim, não tem boa intenção, nem má intenção. O que age com vista de um fim diz que o homem que age sem intenção age por má intenção porque ele age intensivamente e assim agindo o efeito da sua ação é plural. Depende de quem recebe ou de quem usa. Mas ele afirma uma ação inteiramente positiva, mas não tem finalidade, ela se efetua por necessidade da própria diferença que quer se diferenciar na relação que se faz. Essa potencia e esse desejo não é de um eu, de uma consciência, eles já começam na periferia de mim mesmo. Esse é outro segredo, não tem um sujeito, uma interioridade. O dentro está imediatamente ligado com o fora, o fora é esse horizonte, essa beira, essa fronteira de mim mesmo. É aqui que está a singularidade, o horizonte singular que afirma ou diferencia a minha diferença. Esse horizonte é movente, se desloca o tempo todo, assim como minha potencia é sempre excêntrica, não tem um centro de potencia. A força tem uma direção, mas não é finalista. A direção da força ativa é uma composição. É uma força de composição. Mas o compor já é a potencia da força. Força e potência. Força é o atual, a potencia é o virtual. O compor é o acontecimento que está antes da força compor. A composição da força já é movida pelo compor. Compor é o aumento de potencia. O aumento de potencia é o motor de qualquer coisa, mas ele já está antes do próprio acontecimento efetuado. Ele é o acontecer do acontecimento. A finalidade é o aumento de potencia, que é mais dobras e continuidades de si mesmo nas expressões e intensidades. Mais potencia de variação, mais aberturas. Quanto mais sou capaz de me modificar, mais sou capaz de modificar. Quanto mais sou modificado mais posso modificar. Modificar e ser modificado sem perder a natureza, sem perder essa dobra, ao contrário, levar essa dobra ao máximo do que ela pode. Aí sim a desdobra que é a passagem final. É apenas uma passagem. Assim como tem essa passagem inicial tem essa final. Nascimento e morte. Morrer sim, mas não antes de fazer infinitas dobras. É assim que a natureza funciona, ela se dobra, se intensifica, são máscaras de Dionísio. A natureza brincando com ela mesma. Nós somos essas dobras e desdobras. Como uma dobra é capaz de se constituir no mesmo estatuto que a própria natureza naturante? A própria realidade que se auto sustenta. Como você toma parte e não apenas é parte da natureza? Como você se torna e toma parte dessa natureza? Ou seja, você é capaz de produzir eternidade a partir dessa dobra que você já é. Esse é o barato da vida. Isso é perfeição pura, ainda que conseguimos isso eventualmente nas nossas vidas, o negócio é fazer cada vez mais isso fazer parte do nosso modo de vida. Não falta nada na natureza Nós fazemos uma ideia de pensamento, de que pensamento é razão, e por isso dizemos que a árvore não tem pensamento, é irracional, mas a árvore pensa também. Se a árvore verdeja, verdejar é um pensamento da árvore. O que é o pensamento em última instância? É acontecimento. Só que o acontecimento do incorporal, da própria passagem. O acontecimento do tempo. Acontecimento, pensamento e tempo são uma coisa só, e espírito também. Posso dizer que tudo é espiritual, desse ponto de vista. Existiria um tipo de espírita que suportaria esse tipo de ideia? Ou seja, acabaria todo espiritismo. O espírito, o tempo, o acontecimento são uma coisa só. Por isso posso dizer que uma ameba pensa, o sol pensa, a árvore pensa, o átomo pensa. Há algo que pensa, assim como há algo que se move em cada potencia. E é esse pensamento que temos reacessar, pois isso também acontece em nós, apesar do homem se dizer o único que pensa na natureza, ele talvez seja o que menos pensa. Pois pensar não é essa imaginação estudiosa de ligar signo com signo, imagem com imagem. Deixar a natureza agir em você e cultivar a vida em você, e ser ativo também, agir a natureza em você, sem querer impor uma forma a esse modo de acontecer. Existe uma consciência que fica mediando e que foi cuidadosamente fabricada em nós. A consciência é uma produção social. Freud ao falar do inconsciente ele parte de uma consciência socialmente produzida e vai introjetar ela no inconsciente. Vai reduzir esse inconsciente a essa consciência produzida socialmente. Uma máquina de produção de consciência, ou seja, de má consciência, uma máquina de culpabilização. Esse eu que quer se por como soberano, pois ele mesmo já é resultado dos encontros que eu faço, ele é o que me acontece enquanto efeito e na medida em que eu não apreendo o que gera esses efeitos, a causa, então os efeitos são tomados como causa e reduz tudo mais que há em mim a esse efeito e chama isso de eu ou de consciência. Isso é produzido por um diagrama social, por um agenciamento maquínico de desejo, de um sujeito de enunciação social. Descartes foi o protagonista – assim como Freud ao inventar a psicanálise, se não fosse ele seria outro – que integrou um diagrama difuso de poder numa forma de saber. Isso pressupõe uma condição de vida, uma condição impotente, ou já submetida socialmente, historicamente, economicamente. Isso que estou resumindo como máquina social e produção de consciência. Essa produção de consciência é introjetada. A consciência é a forma introjetada em nós, sem a qual não há reconhecimento, não há aceitação, não há julgamento, nem organização social, ou seja, eu não existo sem essa forma. Esse poder cria um rosto e uma forma para o rosto que podem ser resumido em eu ou consciência e é o preposto do poder em mim. Na medida em que digo eu estou traindo a mim mesmo. Desse ponto de vista eu sou um traidor do meu próprio desejo. O eu é um nome comum, é uma forma comum que esmaga o nome próprio ou a singularidade que me constitui. O eu nega a singularidade em mim. O eu me submete. E porque eu desejo a minha própria repressão? Porque de alguma maneira, na impotência que eu me encontro eu tenho vantagens ao me submeter, eu tenho reconhecimento, tenho poder ao submeter minhas forças que podem incomodar no reconhecimento. Se eu deixar as minhas forças vazarem eu vou ser rejeitado, punido socialmente, vou sofrer muito. E eu, como tenho muita pena de mim mesmo, como sou muito coitadinho, não posso suportar as dores e aproveitar esse sofrimento, vou dizer “menos, menos, segura aqui, segura lá”, vai travando e põe esse eu trapaceiro para negociar, quando, na verdade, existe uma instância em nós que é totalmente criativa se ela apreende esse horizonte imediato que nos atravessa que é esse horizonte singular. Aí sim eu começo a acessar o imediato do pensamento que não precisa mais ser autorizado, não precisa da autoridade do universal, de um sujeito de enunciado para se legitimar como sujeito de enunciação. Não pede mais licença. O próprio acontecimento que atravessa e afirma a diferença é o que faz a diferença diferenciar. É o que tem direito, não por estar adequado a uma forma legitima, mas porque ele pode, só por isso, porque na afirmação aumenta a potencia. Quem autoriza Estamira falar daquela maneira? Ela fala porque ela pode, ela fala o que está se passando nela, não está nem aí. Não é autorizada por universidade, por ciência, por nada. É a natureza se fazendo, ela acessa uma imanência. Isso todos nós podemos fazer. Se quiser chamar isso de democracia, viva essa democracia! Mas o que se chama de democracia é a coisa mais estúpida, esse desejo de ser igual, essa ideia de que todos podem acessar a pura forma universal do dever ser. Iss tem que ser denunciado, ser desconstruido, atacado, montar uma máquina de guerra para combater isso, mas principalmente em nós, senão não combatemos efetivamente. Tem que fazer a lição de casa. Não adianta simplesmente sair falando contra. Se você faz a lição de casa, o seu modo de ser já faz o combate sem focar no não ao outro. Não precisa focar dialeticamente. Você já age e pensa de uma maneira que isso já é destruído por conseqüência. Existe uma legitimação do banal. Banaliza-se tudo. Uma confusão é fabricada e tem-se interesse nela. Há um investimento de desejo na confusão. Há o interesse do poder abarcar as expressões que surgem. Lula apoiando o movimento GLS. Existe aí uma astúcia. Tem que incluir para ampliar mercado, o poder de troca. Nesse liberalismo é incentivada a noção de que tudo é passível a um axioma de troca. Tudo é objeto de troca, tudo é instrumento de reprodução de capital. Esse motor que não é dito, que está por traz do incentivo desses movimentos, dessa banalização e geração de confusão. Há um motor que fabrica isso. Nietzsche já tinha visto bem esse deserto desabitado, seco e oco que está aumentando. A confusão é algo negativo. Uma coisa é o caos, outra é a confusão. Mesmo o caos tem uma positividade. A confusão é uma prática de poder. No confundir você cria a condição para capturar. Se a vida já está achatada, desqualificada, capturada e na medida em que ela é incentivada nesse achatamento, nessa desertificação, oca, não povoada, nadificada, ela vai explorar o extremo disso, como o último resíduo miserável que ainda tem um tipo de valor. Até nas criancinhas, monta uma escola e diz que vai ser comandada pelas crianças, elas vão fazer assembléias, limitar as instituições sociais, debate democrático para decidir as tarefas que devem ser feitas e claro sempre terá um supervisor, observando para que o conteúdo necessário estabelecido pelo MEC seja passado. Mas qual o desejo da criança? É inocente? O desejo da criança já é fabricado. O desejo começa numa inscrição de superfície. Já é uma apropriação do acontecimento. Tem algo que deseja em você. Essa criança não assiste TV? Não se relaciona com os babacas dos pais? O problema das crianças geralmente são os adultos. Relacionam-se direto com isso, com as escolas, com o shopping, com essa comida que mais envenena que alimenta, os estigmas, com os estímulos de consumo, essa avalanche de imagens e signos que é derramado sobre elas. Ora, a criança já está desejando a partir desses signos e imagens que são despejadas sobre ela. Que desejo inocente é esse? Não se trata de dizer que o desejo é culpado, mas já há uma captura do acontecimento nesse desejar. Você ilumina uma certa zona e a criança só vê aquela zona iluminada. E a zona sombreada? Ela tem medo, é perigosa. Na verdade é a zona mais interessante, é aquele virtual onde eu me torno autônomo. Mas eu não posso me tornar autônomo, eu preciso me tornar uma autoridade, na medida em que eu sou impotente, a minha liberação seria uma autorização e não uma potencia real de autonomia. Essa banalização, essa liberalização é uma produção da própria produção, da própria circulação ou do registro, do próprio consumo. Produz-se uma produção, um registro, um consumo, antes da produção, do registro e do consumo. Marx dizia que a as três dimensões desse campo seria a dimensão da produção, da circulação e do consumo. Mas na verdade é uma produção da produção, uma produção da circulação e uma produção do consumo antes de tudo. E aí você produz a própria subjetividade e a inter subjetividade, assim como produz a própria individualidade e a inter individualidade. O indivíduo é fabricado assim como a alma. O sujeito e o indivíduo. A pessoa e a coisa física, ambas são produzidas através de agenciamentos maquínicos que estratificam. O sujeito é produzido através de dois regimes de signos: da significação, da subjetivação e o corpo é produzido através do regime do organismo, ou regime de luz. (comentário de aluno da má compreensão dessas filosofias, de que tudo pode, da falsa liberdade, de que tudo pode) È como se você se desresponsabilizasse com suas forças reativas, como se não tivesse nada para fazer. É preciso se construir, se preparar para ser livre. Você não é livre de maneira simples, apenas por declaração de intenção. Não é “descobri que tudo é livre e que tudo pode, desejo é festa, é transgressão”. É preciso trabalhar para produzir a si mesmo, criar uma prática de si, se construir, se preparar para encontrar. Só é capaz de encontrar afirmativamente se preparando. É o que diz Nietzsche, uma vida fraca é impossível ela seguir uma verdade da natureza, ela não suporta aquela verdade, ela precisa de uma mentira. Pode dizer mil vezes o que é a verdade e a pessoa entende, mas na hora de fazer ela não consegue porque não pode mesmo. É assim que eu desculpabilizo o meu inimigo. Se ele é uma vida fraca e eu digo que ele é culpado por isso vou ser como Hitler, sair matando todos que eu achar que não é livre. Seria uma solução mais prática e imediata. Porque ficar discutindo? Mas a coisa não é pessoal. O ataque, a destruição é no entre, na maneira de ser e não nas forças que estão ali capturadas. Não posso jogar fora a criança com a água do banho, jogo só a água, fico com a criança. Eu não jogo as forças do homem, mas o estrato do homem é preciso destruir, com cuidado, para que não te esmague o muro da representação. Se eu não me preparo o muro vai me esmagar. Se eu não crio nenhuma continuidade em relação a mim mesmo, nenhuma consistência, como posso acontecer de modo imediato? Esse imediato é uma ficção, é um instantâneo. Coloco o instantâneo no lugar do imediato e crio uma linha suicidária, de abolição, uma linha de fuga negativa. Uma linha inconsistente, um salto no escuro. Como diz Nietzsche, saltar igual macaco, saltar etapas, criar atalhos, sem ter a velocidade para isso. Para criar atalho é preciso ter velocidade. Se não tem velocidade tem que trapacear. Quem está lá na frente, só no signo, fica na verborragia. É por isso que as Universidades adoram Delleuse, Nietzsche, Spinoza, tudo vira moda. É uma maneira de expandir o mercado. Um psicólogo que entende Delleuse-Guatari, tem mais vantagem sobre outro, expandiu o seu mercado. Lógico que do ponto de vista daquele que é honesto sim, aquilo é uma potencia a mais que ele tem, ele está fazendo a lição de casa, é bom para a vida, para ele, que bom, por efeito ganha seu dinheiro. Agora, fazer em virtude do mercado, para ganhar mais e ter mais poder, só o impotente que faz isso, faz esse sacrifício, esse desperdício de vida. Quem quer o poder está sacrificando a natureza, está esmagando a vida. E a vida cobra. Não que vai ter uma danação no fundo dos infernos, é apenas um desperdício, o que Nietzsche chama de supérfluo, são os parasitas, que não fazem a diferença. Eles já tem o que merecem, mas a vida fica chata. É melhor dar uma chacoalhada, ser um vento do sul, como diz Nietzsche, já que ele está no norte, é um vento tropical que faz com as folhas e os frutos podres caiam logo, de uma vez e fique só o que é necessário. Aquilo que merece existir que exista e o que não que se destrua logo pra só lidarmos com o necessário, com o que é indestrutível na vida, com o que vale a pena, sem fazer uma falsa ideia do que é destrutível, do que deve ser destruído. É claro se você está no pensamento não faz essa falsa ideia. O que deve ser destruído é sempre o adereço, a casca, aquilo que quer se por no lugar do essencial. A casca é apenas um excitante, um modo de passar. Eu queria agora só fazer uma ligação com a grande crítica que Nietzsche opera quando desconstrói o niilismo e chamar para um pensamento afirmativo e situar esses momentos do pensamento que se imagina na contemplação, na reflexão ou na comunicação como sendo os três momentos do niilismo em Nietzsche – a partir do que ele chama de ideal ascético, de ressentimento e de má consciência. Nessa medida, o que opera no ideal ascético, como niilismo negativo, no ressentimento e na má consciência como niilismo reativo e onde isso se desemboca que é no niilismo passivo e como se opera a transmutação para um pensamento afirmativo. Onde o horizonte seria a afirmação imediata e não essa negação do real, a sua auto sustentabilidade. O que é o ideal platônico, em ultima instância? É algo que é superior a natureza, diz Platão. Que é superior a vida porque permanece eternamente idêntico a si mesmo, é imutável e permanente. É uma pura forma de ser. Na medida em que o desejo se liga e busca essa pura forma de ser implica uma contrapartida. A de que ele mesmo se apreende como inferior, ele não está nessa forma superior. Existiria na natureza uma espécie de carência dessa realidade ideal. Então esse movimento é o do niilismo negativo. Niil não remete ao não ser, mas a uma desqualificação do ser, uma diminuição do ser, uma redução do real, uma nadificação e não uma negação da existência. Uma negação há, uma negação que desqualifica. Na medida em que eu qualifico um mundo superior eu desqualifico esse mundo que vivemos, como inferior. Esse é o niilismo negativo. E tento fazer com que a vida sempre busque esse mundo superior. O mundo superior é pensar por ideias prontas, por modelos. O pensamento apreende o modelo sem o qual a vida não seria resgatada, justificada, não seria requalificada, uma vez que ela está nadificada por esse movimento. É a eminência de um pensamento ideal sobre esse desejo que é corporal, no tempo, no espaço e no movimento. Essa eminência vira o plano que captura o pensamento e a vida. O pensamento que opera na contemplação, a partir de uma pura ascese espiritual, de uma renúncia do corpo, de uma ascese espiritual que busca a ideia, vai operar um grande plano divino ou transcendente de organização que vai se rebater e introjetar na terra, nos corpos ou nas sociedades, criando imagens ícones, formatando corpos e pensamentos a partir dessa semelhança com esses modelos de ideal da permanência, do imutável, do ser sobre o devir. Esse momento do niilismo negativo vai desembocar no niilismo reativo, por que vai haver uma hora que não vai ter mais nada que esse ideal autentique como condição de existência no mundo, na medida em que precisa se opor a algo que quer existir no mundo que precisa ser recalcado como simulacro. Toda a terra vai estar iconizada, todo o modo de vida humana vai ser reativo, que não sofre mais nenhuma ameaça do modo de vida ativo, portanto não precisa mais de um guia, de um rebatedor, de um deus, de um demiurgo ou de um tirano para operar essa submissão da vida ativa, para que a vida reativa seja possível. Agora é só a vida reativa, ela opera por si mesma. Descartes já está fazendo essa ponte, embora ele ainda precise de deus para fundar o seu espírito subjetivo. Mas Descartes, que vem na seqüência de um Lutero – que não precisa mais de um intermediário, diz não ao sacerdote, Cristo está no coração de cada um – vai desembocar em Kant que diz, não precisamos mais de deus. A subjetividade humana já dá conta da ordenação e organização social, somos autônomos. É essa reação contra deus. Esse é o niilismo reativo, vai negar os valores divinos, superiores a vida, dizendo que esses valores eram apenas criações humanas. E o homem reativo, na medida em que não há mais reatividade nele, para ameaçar um ao outro vai dizer que não precisa de nenhum mais pastor, nenhuma soberania, tudo é igual. Revolução Francesa: uma só lei e uma vontade geral. Igualdade geral. Essa é a democracia, a liberdade, a fraternidade, os valores que a revolução francesa traz para consolidar a revolução econômica industrial no campo da produção. Esse é o momento da reflexão, é a aplicação do ressentimento sobre o mundo, ou seja, o mundo precisa ser refletido sobre o sujeito, ser adequado ao sujeito, receber a camisa de força necessária para que o mundo se torne bem intencionado, bom para o homem. Ao mesmo tempo em que há um movimento de introjeção, que faz com que o que está dentro do homem também deva ser submetido a uma boa intenção, soldar o desejo do homem a essa lei. Momento da má consciência. Ideal ascético – outro mundo -, ressentimento – esse mundo- e má consciência – sujeito, subjetividade, interiorização da falta ou da culpa, soldar o desejo à lei, sem o que esse desejo não seria legitimo. Momento da comunicação, da pura forma de lei que jamais será cumprida. É como em Kafka, você é culpado à priori, porque não tem nenhum conteúdo que se adequa a essa lei, a essa pura informação ideal que seria a mesma em mim e em você, que autorizaria a vida funcionar. É aquilo que diz Delleuse-Guatari em Mil Platôs, o homem, no fundo, é ninguém, é um padrão, uma pura forma onde nenhum conteúdo cabe, mesmo se o homem é definido como homem branco, europeu, macho, racional, mesmo esse homem, não tem nenhum que se encaixe no modelo de homem. Uma pura forma de lei, sem conteúdo. É por isso que a pura forma de lei é que autoriza, mas não nenhum conteúdo que se adequa plenamente a ela. E daí Lacan vai dizer que o real é impossível. É claro, o real se torna impossível a partir daí. Só se torna impossível porque se introjetou essa pura forma de lei, impossível para os impotentes. O real é potencia de criação e isso me atravessa então só é impossível para quem é impotente para criar, ou está separado do que pode. Então há um movimento que Nietzsche chama de niilismo negativo, que é esse pensamento por contemplação, nega que a natureza tenha ordem própria, busca uma ideia pronta, um modelo pronto para referenciar a natureza. Daqui a pouco vai ter um jogo entre os homens e esse mundo. Entre a forma homem e a forma estado, a forma deus e o homem vai sendo produzido, ele de fato se torna filho de deus. Antes deus virou filho desse homem reativo e negativo. Nessa seqüência, a partir do estabelecimento da constituição desse plano transcendente de organização, vai haver uma maquinação que o homem vai ser produzido e se torna, de fato, filho de deus, feito à imagem e semelhança desse deus. A ponto tal que tudo se torna semelhança, se sobrepondo a diferença. E essa semelhança operando numa pura forma de dever ser que não precisa mais de deus e então reage contra deus. Aumento da reflexão e em seguida aumento da comunicação, da má consciência, niilismo reativo. Reage-se em relação aos valores fora da natureza e diz tudo na natureza é criação do homem. O homem que cria os próprios valores. Vem de Hegel que diz que o homem estava alienado nos valores divinos. O homem precisa se apropriar desses valores que eram valores dele. Universal em si, o divino deve se tornar universal concreto para o homem e não mais em si e abstrato. Para o homem e concreto, isso que é a desalienação de Hegel, que Marx vai tomar para ele, do ponto de vista material, mas que de modo algum vai superar essa dicotomia dialética enquanto ideologia do ressentimento. É por isso que na esquerda tem tanto ressentimento, pois o modo de pensar é o mesmo. Dá no niilismo reativo. É uma reatividade a tudo que é poder, mas que quer um poder maior ainda, mais medíocre. Esse poder mais medíocre desemboca num deserto, esse liberalismo absoluto que Nietzsche chama de ultimo homem. Momento que o homem vai secar, não vai ter mais nenhum caos, nenhuma força dentro dele. Aquele que não precisa temer mais nada nele. Nietzsche diz que era mais insuportável para ele era ver um homem no qual não se teme nada dele. Nenhuma surpresa vem dele. É o grande cansaço onde está desembocando o niilismo reativo, ou seja, o niilismo passivo, na grande depressão. Não mais uma vontade de um outro mundo, como uma vontade de nada, que nadifica esse mundo. Nem uma vontade de um nada humano, como os valores humanos, mas um nada de vontade, nada de valores, pois no fundo nada vale a pena. Tudo desemboca nessa banalização, nessa troca generalizada. Tudo é substituível, nada vale a pena, nenhuma diferença se sustenta por ela mesma. Esse é o niilismo passivo, é o ceticismo sobre o conhecimento. Pensar é representar, é Schopenhauer. Representar para em seguida o seu desejo ser negado nessa representação? Então me nego antes. Para que desejar e ser negado? É estúpido, inútil. Ao menos, é o que diz Nietzsche, Schopenhaeur é o único ateu honesto na Europa, no séc XIX. Schopenhauer sabia onde ia dar esse niilismo todo, que era nesse nada. Esse nada do próprio desejo. Não um desejo de nada, mas nada de desejo. Não de desejo de valor negativo, sejam divinos ou humanos, mas nada de valores, nada de diferenças, tudo igual, tudo é a mesma coisa, tanto faz, é um ceticismo absoluto. No fundo o budismo e o próprio Cristo são pessimistas, ao extremo. Eles vêm em qualquer ação um aumento de dor e à medida que vêm a dor como mal é preciso estimular a compaixão. Evitar a dor, mas uma vez que ela venha, que ela sirva ao menos para aumentar a consciência de que ação é geradora de dor. Uma negação da ação na sua positividade. Nietzsche diz que é porque não encontraram o sentido alegre da dor. A dor é apenas uma força reativa, apenas um meio, assim com o próprio prazer. Fazer da dor um mal, Cristo e Buda fazem. Mas Cristo e Buda não tem ressentimento, não dizem que a culpa é do outro. Não tem ressentimento nem má consciência, nem niilistas negativos nem reativos, mas niilistas passivos, pois na ação há um aumento da dor ou do sofrimento então é melhor dar a outra face, não reaja, pois o movimento que se fizer vai inocular sofrimento. O valor é a compaixão, não a ação. É um pessimismo em relação à ação. É não entender que a ação é uma positividade. Para Spinoza não existe ação triste, ela é sempre alegre. Ação é força de composição. É uma ilusão ao que seria ação, é a imagem que o passivo, ou reativo faz do que é agir. A imagem que Buda e Cristo fazem do que é agir é uma imagem de quem está separado do que pode. Não é ação real. Se não houvesse essa ação real a própria natureza já teria desaparecido. É necessário um plano de imanência absolutamente capaz de acontecer e de variar e, portanto, de agir, de modificar, e se modificar o que provem dele. Como que há realidade? Ou a gente acha que está sonhando? Se a gente apreende que há o real e esse real se faz, é impossível que não tenha essa potencia absoluta de acontecer e variar que é toda a positividade da ação. A ação é essa modificação que gera tempo, espaço, elementos, é auto criativa por si. É o que diz Spinoza, uma substancia que é causa de si, que se auto produz. Isso, Buda e Cristo não acessaram. Ficaram na reatividade, ainda que sejam infinitamente mais nobres que São Paulo, que é um ser odioso. Um ser cheio de ódio, que inventou o cristianismo, que aumentou ainda mais a dívida, a culpabilidade dos homens. É ele que diz que você sofre, não por causa do outro, mas por causa de você mesmo, você que é culpado, você que traz o mal dentro de si. E, pior, inventa também a ficção de que Cristo morreu pelos nossos pecados. Aparentemente uma puta pegadinha, um golpe de gênio. A nossa divida infinita que se tornou impagável, o credor – Deus- que jamais ia receber essa dívida e tão bonzinho, com tanto amor pelos homens, põe o próprio filho para pagar os pecados. Essa sordidez e cretinice, que é o dogma essencial do cristianismo foi uma invenção desse ser odioso que foi São Paulo. Por traz do Deus do amor, esse Deus cristão, quanto ódio! Cristo não tem esse ódio todo. O que ele tem é certa impotência passiva de apreender a ação como positividade. É um estágio mais avançado do niilismo. Nietzsche respeita Schopenhauer porque do ponto de vista filosófico ele está nesse ponto de Buda e de Cristo. Aliás, Schopenhaeur é muito influenciado pelo oriente, pela Índia, o budismo. Mas é preciso ir além, encontrar o ponto focal onde se transmuta o elemento criador de valores que é a potencia ou a vontade de potencia ou desejo. Isso que gera valores, a partir de uma qualidade afirmativa ou negativa. É preciso fazer com que a afirmação apareça como primeira e mais importante que a negação. O estatuto da afirmação e da negação não são os mesmos, como é na dialética. Hegel diz que a afirmação e negação têm o mesmo estatuto, para Nietzsche não. Spinoza diz que tudo é afirmação. A negação é apenas uma maneira na relação de algo se efetuar. É preciso tirar esse negativo do horizonte do pensamento e apreender a sua positividade. É o que Nietzsche diz: apreender o espírito do leão para conquistar o espírito da criança. Das três metamorfoses, o espírito que vira camelo, o burro de carga – valores divinos que ele carrega e depois reage contra esses valores e daí ele mesmo se carrega, vira burro e ao mesmo tempo carregador do burro, de si mesmo, que é o niilismo reativo que vai desembocar no niilismo passivo, nesse deserto, onde o camelo que é capaz de chegar – o burro morre antes, nem consegue chegar – e não tem mais água, e ele tem que virar leão, destruir isso que o levou ao deserto do nada. Quando encontra o leão é o niilismo ativo que é a capacidade de dizer não ao que diz não à vida. Ele nega o niilismo negativo, o reativo e o passivo. É o não ao Bem e Mal, não a todos os valores que até hoje o homem cultivou. Isso é Zaratustra. Ele é o leão, não é a criança. Lógico ele tem um pouco de criança, de burro e de camelo, mas o leão é o dominante nele. É um destruidor de valores que negam a vida ou apequenam e achatam a vida. E prepara o terreno para a criação dos valores sob a ótica da afirmação, que é quando o espírito de leão vira criança, que é pura afirmação, a vitória sobre o niilismo. Isso se passa em nós, durante toda nossa vida, ou em uma semana, ou num dia em nós. Ou em toda nossa vida estarmos preso em apenas um desses niilismos. Isso atravessa todo o inconsciente humano. Por isso precisamos fazer a lição de casa, operar isso em nós, e não esperar a humanidade toda chegar num devir tal que vai do negativo, para o reativo e depois para o passivo e que encontra o leão e prepara o terreno para reconquistar a criança em nós, a capacidade criativa em nós. Isso são coexistências em nós. É preciso revezar e fazer com que aquilo que domina em nós seja a criança, essa capacidade afirmativa e criativa. Isso é o que chamamos a conquista do imediato no tempo, no movimento, na escolha, na continuidade de si e no aprendizado e transmissão disso. Cada um inventa a sua maneira, é uma invenção, estamos inventando um jeito. O que é pensar então? Precisamos apreender o que é essa afirmação. O que é o comum da relação, o que é o relacional da relação, o que Spinoza e depois Delleuse vai chamar de plano de imanência do pensamento. O imediato do pensamento, ser afirmativo, que não está alojado em uma consciência, no espírito, nem no sujeito, no eu e muito menos no individuo. É a fronteira do próprio acontecimento, é uma postura, um modo de viver, sem o que a vida nem se efetua. Esse modo, essa postura que chamamos de singularidade começa no comum, no relacional de cada relação. Como se na fronteira tivesse o fora e o dentro. O dentro já é o começo da singularização e o fora, o comum. Mas na verdade estamos simultaneamente no fora e no dentro e no entre também. Habitamos a própria fronteira, que tem uma face por fora e uma face por dentro, que tem essa ponta no comum, sem a qual não haveria singularização ou afirmação da diferença. Onde começa a afirmação é o comum. Sem o comum não tem transmutação da doença em saúde, o inimigo em aliado, a miséria em riqueza. Ser o alquimista de si mesmo, no sentido real e não místico, é operar essa transmutação. Para isso é preciso entender que não há relação que se abata sobre nós sem uma comunidade, sem o comum. Tudo que se relaciona entre nós ou em nós, ou à nós, pode ser limitado, incorporado no bem e no mal, no verdadeiro e no falso, no bom e no mau encontro, em tudo, mesmo no mal, na doença, na morte, em qualquer coisa, que o homem moral tenta evitar e segue aquilo que seria melhor para ele, mesmo nessa parte pior que ele tenta evitar existe o comum. Esse pior nem me atingiria se não tivesse algo de comum aí. Mas jamais uma coisa é diminuída por aquilo que ela tem de comum com outra, impossível isso. O comum é o começo da transmutação. Se o comum é o principio da ação, é o virtual do ato, aí eu posso criar uma maneira de agir e é nessa criação da maneira de agir que posso transmutar o que faz mal numa coisa boa, aliada, saudável. Essa operação já é tal que encontrou o horizonte afirmativo. Nada na natureza é imperfeito, nada lhe falta. Mesmo a doença, a miséria, no pior dos casos, é uma provocação para a vida sair daquele lugar de atoleiro, mesmo 10.000 anos de história humana e decadência pode ser apreendido do ponto de vista de um deus ou de deuses que se divertem com esse devir humano, que vão fazer do homem uma animal muito mais interessante, mais forte. Ou o homem vai ser inviabilizado. É a natureza brincando com ela mesma. Até nessa decadência humana toda há um ponto de vista alegre e que precisamos acessar para saber que no fundo não falta nada. Não precisamos de messias, de messianismo, de religião, de salvação, de nada. Precisamos apenas encontrar aquele ponto de vista sob o qual tudo se torna perfeito e isso atravessa qualquer vida em nós. Aí que começo a fazer a lição de casa. Spinoza diz dos três gêneros do conhecimento: o primeiro é a imaginação, o segundo é o entendimento e o terceiro é a intuição. O primeiro pensa por imagens, o que não é pensar, é apenas imaginar. O segundo pensa relações, o relacional da relação, o comum, já é o entendimento que Spinoza chama de razão, mas que é melhor chamarmos de entendimento para não confundir com a racionalidade ocidental que é o entendimento por imaginação. Esse entendimento é um pensamento de relações, o relacional da relação, que já apreende o comum, e a intuição é o pensamento do singular, da essência como potencia. Spinoza diz que a imaginação serve para organizar os nossos encontros. Enquanto não temos o entendimento a gente organiza nossos encontros pela imaginação, e vai criar as condições para ter bons encontros porque Spinoza distingue as paixões tristes das paixões alegres. Organizar um bom encontro é ainda estar na paixão porque o entendimento já leva para o campo da ação e da autonomia. Mas enquanto não estou no entendimento não estou na autonomia e por isso dependo de certas referências. Então eu organizo o campo das referências. Na medida em que faço mais bons encontros do que ruins – o bom encontro é aquele que não depende de mim, num certo sentido, que eu não sou causa dele, mas que acontece de modo a aumentar minha capacidade de agir, de sentir e de pensar. Se aumentar minha capacidade de pensar, o pensamento apreende o que é, de fato, a causa real desse aumento de potencia e dessa forma o pensamento sabe que a causa real é o entre, o relacional e não o eu ou o outro. É o modo se ser na relação e esse modo faz saltar os dois que estariam relacionados nessa relação. Então a causa real de aumento de potencia seria essa maneira de ser. Esse entendimento opera na maneira de ser. Ele é capaz de criar a ética, a seleção, um filtro na superfície. Uma seleção completamente outra que a seleção do platonismo, do socratismo, do cartesianismo, do kantismo, ou seja, essa seleção moral. É preciso selecionar, mas não de forma moral. Não é uma seleção entre uma coisa e outra. É a seleção em cada coisa que chega, por pior que ela seja, do necessário que tem nessa relação, do ser que tem naquele devir, da unidade que tem naquela composição ou de multiplicidades. Da essência que tem naquele acidente. Do destino que faz da minha vida algo de necessário. Essa capacidade é uma conquista. Isso seria já a operação de um pensamento afirmativo. Isso que estaremos exercitando o tempo inteiro aqui na medida em que vamos falando desse campo problemático que selecionamos do duplo ponto de vista critico, que é a desconstrução e afirmativo , que é a criação. Aqui encerramos esse bloco da experiência do pensamento, embora o pensamento estará também atravessando a experiência do corpo, estaremos operando em dois planos. Vamos a partir da próxima aula focar o corpo pelo próprio corpo, que tem sua dimensão própria. O movimento pelo movimento que tem uma realidade distinta do pensamento. Realidades que tem multiplicidades que se atravessam. Uma não causa a outra. Pode excitar, atravessar, gerar uma ocasião modificação uma da outra, atrair e repelir, mas não causar a realidade da outra. Por isso o pensamento não pode comandar o corpo nem vice versa. São dimensões da mesma potencia que se ampliam nessas diferenciações.

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