Ética e Política

Transcrição de conferência realizada por Luiz Fuganti na Academia de Filosofia (ACAFIL), com o tema “Ética e Política”. Matola/Moçambique, em 11/08/2005

Desculpem por esse atraso. Foi realmente involuntário, efeito, talvez, de uma vontade excessiva de conhecer o país, esta bela nação que é Moçambique, e também o tempo das relações, mais especificamente o que objetivava esta minha viagem que era ir até duas aldeias comunais chamadas Julio Nierere e Três de Fevereiro, nas proximidades de Xai-Xai. Depois seguimos viagem até Inhanben, mas não chegamos a este destino, porque nosso veículo não era tão adequado. Em função das estradas, tivemos cinco vezes os pneus furados, mas consegui chegar, ao menos, a tempo de proferir algumas palavras a respeito desse tema tão complexo que é a Ética relacionada com a Política. Peço ainda desculpas pelos meus trajes, que são trajes de viagem. Não tive tempo de me apresentar de outro modo, mas achei mais importante aqui estar do que simplesmente me ausentar por uma simples questão de aparência. Imagino que para vocês isso não seja tão relevante assim e, portanto, passo logo a abordar os temas, porque nosso tempo é relativamente curto.

Acredito sempre que o homem e a natureza têm uma positividade irredutível. Tanto a natureza quanto o homem residem, habitam ou se fundamentam num princípio inteiramente afirmativo. E esse pressuposto de que a natureza e a natureza humana baseiam-se numa auto-sustentabilidade afirmativa e podem se dar vários nomes a isso. Do ponto de vista da filosofia, nós simplesmente chamamos de Ser, mas do ponto de vista da teologia e de outras disciplinas ou religiões ligadas à idéia de Deus, enfim... Mas eu não vou entrar nessa questão, porque a minha questão é filosófica e não teológica. Portanto, eu vou aqui afirmar, inicialmente como pressuposto de que o ser é inteiramente afirmativo. Esse ser afirmativo atravessa todas as suas modalidades existenciais. Então é um pressuposto de difícil aceitação, ao menos no meio da academia ocidental do pensamento. Mas eu não vou entrar na polêmica. Vou simplesmente discorrer sobre algumas idéias que fazem o motivo desse horizonte ou desse tipo de perspectiva.

Nós não acreditamos que haja uma contradição essencial entre os desejos individuais e os desejos coletivos. E essa idéia de que há uma contradição entre os desejos sociais, ou o desejo social coletivo e os desejos individuais, é o pressuposto básico de todo pensamento ocidental. Inclusive é um pressuposto para a invenção do Estado moderno, a partir de Hobbes. Hobbes pressupõe que há um estado de natureza do homem que seria um estado de guerra de todos contra todos, em função simplesmente de que os interesses individuais entram em conflito com os interesses coletivos. Esse pressuposto nós acreditamos inteiramente mal fundado, uma vez que já parte de uma condição humana, de um estado humano, de separação das próprias capacidades afirmativas que condicionam a postura humana como aquela que visa realizar desejos individuais que entram em conflito com outros desejos individuais. E, portanto, haveria aí uma distância entre um acerto coletivo e a postura individual que poderíamos chamar de moral. Postura individual ou moral, segundo essa visão, seria a fonte do mal, a fonte do erro, a fonte daquilo que é nocivo à vida humana em coletividade.

Essa visão pressupõe, portanto, que o homem na sua essência, de alguma maneira, é malévolo; que o homem, de alguma maneira, na sua essência traz uma vontade de enganar, uma vontade de explorar, uma vontade de se apoderar, uma vontade que não pode sustentar ou dar consistência a uma sociedade ou a uma coletividade. Nós, aqui, queremos afirmar exatamente o contrário, uma vez que acreditamos que o homem pode atingir o nível de entendimento que ultrapassa um estado de obediência. E o nível de entendimento é aquele que revela que aquilo que é afirmado por esse entendimento nas relações humanas e nas relações individuais não se contradiz com as relações coletivas.

Não há, na realidade, uma dicotomia entre o indivíduo e a coletividade.

O indivíduo é imediatamente em relação; ele está necessariamente em relação, tanto do ponto de vista do corpo quanto do ponto de vista da alma. Não existe alma isolada e nem corpo isolado. Todo corpo já é um coletivo e toda alma já é uma coletividade de pensamentos, ainda que a gente possa falar numa unidade anímica e numa unidade corpórea chamada indivíduo.

Então, aqui surge um problema. Será que a unidade individual estaria em contradição com a unidade coletiva? Com a unidade familiar? Com a unidade de um grupo? Com a unidade de uma associação? Com a unidade de um povo, de uma etnia ou de um Estado? A questão é, então, entender qual é a natureza dessa unidade. Eu vou fazer então uma primeira distinção em relação a uma unidade que estaria nos determinando de fora e uma unidade interior que não se contrapõe à exterioridade. Uma unidade imanente. Imanente ao corpo, imanente à alma e ao pensamento, imanente às relações coletivas. Essa unidade, que nós chamamos de afirmação, liga necessariamente toda vida a uma capacidade de existir, de agir e de pensar. A capacidade de existir, de agir e de pensar aumenta a cada vez que a unidade cresce em extensão e em intensidade. Essa unidade deve nos remeter a um princípio e a uma condição de composição entre os seres humanos e a natureza. Entre os seres humanos entre si, entre os seres humanos e a natureza, entre os seres humanos e seus valores máximos, sejam divinos, racionais, éticos, políticos, econômicos, culturais, históricos etc. Então, a questão nossa essencial, do ponto de vista ético, é essa diferença em focarmos uma unidade que não visa diretamente a obediência. Uma unidade que nos leva à capacitação e não a uma obediência. Digamos que a obediência seja necessária em certas condições de imaturidade da sociedade e do homem. Assim as leis, os mandamentos, os valores superiores que orientam o homem são necessários àqueles que não são capazes ainda ou não atingiram uma capacidade de apreender a necessidade de cada relação. Porque as leis e a obediência se fundam numa necessidade. Mas não há liberdade simplesmente pela submissão à lei ou uma obediência que caracterizaria uma orientação cega ao modo de viver do homem e das sociedades que ele compõe. A questão é, então: somos capazes de um entendimento que não oponha mais obediência e potência? Ou uma sabedoria e uma necessidade? Será que a liberdade não faz parte da própria necessidade? Será que a liberdade e necessidade não são uma coisa só? E uma vez que a gente atinge esse entendimento superior não seríamos capazes então de abrir mão das leis ou das estruturas exteriores, estatais etc.? E, voluntariamente, abriríamos aquilo que é da ordem comum de todos os homens, sem a qual não haveria aumento de capacidade de existir, de agir e de pensar? A questão é essa.

É uma questão difícil. Uma vez que vocês têm alguma ligação aqui com o seminário e com a teologia, eu posso até situar um teólogo cristão, do século XIII, XIV, chamado Jean ou John Duns Scott, que tem uma tese assim: o ser de Deus e das criaturas tem exatamente a mesma natureza. O ser de Deus e das criaturas é exatamente o mesmo. Por que ele diz isso? Porque sem isso - se não houvesse nenhuma comunidade de relação - seria impossível se comunicar com Deus. E ao mesmo tempo, ele diz que o que difere é o modo de Deus e das criaturas. Esta tese se opõe à tese de Sto. Tomás de Aquino que vai proferir a analogia do ser, na seqüência de Aristóteles e de Averrois. Averrois é um árabe que resgata a filosofia de Aristóteles e depois Sto. Tomás de Aquino vai fazer uma reinterpretação, acreditando que o ser de Deus e o ser do homem não são o mesmo. Eles são análogos. Segundo Sto Tomás de Aquino, o ser de Deus e do homem são análogos e não unívocos. Duns Scott diz o contrário: diz que o ser é unívoco, ou seja, o ser é o mesmo. Ele se diz num único e mesmo sentido de Deus e das criaturas. Essa tese vai desembocar numa visão imanente de Deus. Deus estaria presente o tempo inteiro em nós e na natureza como um todo. Existem certos modos de colocar o problema que podem tanto levar a um panteísmo como podem desembocar diretamente num ateísmo, mas o que é essencial simplesmente para nós aqui, hoje, uma vez que não temos muito tempo, é simplesmente estabelecer que existe uma visão que afirma que o ser da unidade e da multiplicidade é exatamente o mesmo. É o mesmo ser. Essa unidade pode ser a unidade de um órgão, assim como a unidade do olho, do ouvido, do fígado, do rim etc. Ela pode ser também a unidade de um indivíduo, ela pode ser a unidade de uma composição entre dois indivíduos, ela pode ser uma unidade de composição de mais de dois indivíduos, ela pode também ser a unidade de uma aldeia, de uma tribo, de um povo, de uma etnia, de um país, e, por que, não uma unidade planetária? Então essa é questão que, na verdade, está subentendida quando se afirma que entre a ética e a política há uma relação necessária.

Ficou um pouco difícil a ligação, eu sei, porque não expliquei a passagem. A política, na verdade, não se opõe à cultura. Aqui, vocês, moçambicanos, têm uma problemática presente muito clara entre a questão tradicional das culturas tradicionais e a questão da unidade nacional. Inclusive houve um certo conflito entre a Frelimo e essas culturas inicialmente. Depois houve uma reavaliação e hoje em dia há uma composição ou quer-se compor a cultura com a política.

O que é exatamente a política do ponto de vista institucional? A política do ponto de vista institucional é a dimensão de uma sociedade, sem a qual a sociedade não determina o seu destino. A sociedade discute, problematiza, avalia e determina o sentido do seu futuro, o sentido do seu destino. E isso é o que constitui a dimensão política de uma sociedade. Na realidade, não há indivíduo que não seja imediatamente político. Porque o indivíduo, antes de tudo, exerce uma força natural que ele tem, uma potência natural que ele tem. E no exercício dessa força e dessa potência, desse ser, dessa capacidade que ele é, desse dom existencial que ele tem, que ele possui, no exercício disso, ele necessariamente se relaciona e pode fazer bem assim como pode fazer mal; pode se relacionar verdadeiramente, como pode se relacionar de modo enganoso; pode se relacionar de modo útil, como pode se relacionar de modo nocivo. Toda relação, já do ponto de vista do indivíduo, é imediatamente política, porque não há um único indivíduo que viva separado da respiração, da sonoridade, da luz, dos alimentos, da vida, enfim, numa palavra: um indivíduo não se separa da vida e na própria relação com a vida, ele já é imediatamente político. O próprio Aristóteles já dizia: o homem é um animal político. Dentre várias definições que o homem pode ter, uma delas é que o homem necessariamente é um animal político. E é claro nós poderíamos até entrar na acepção da idéia de pólis, que gerou etimologicamente a política, mas isso não vem ao caso agora, para onde a gente vai seguir.

Então a questão é: se o indivíduo é imediatamente político, existe um momento em que o indivíduo ou os indivíduos coletivamente criam instituições que decidem politicamente o destino de toda a coletividade e não apenas o seu destino individual. Haveria aí aparentemente uma separação entre a política imediata do indivíduo e a política de uma nação. Mas, na verdade, não há separação. Mesmo que se queira, mesmo que se separe, efetivamente não há separação. Não há como haver separação. Uma nação não se faz sem seu povo; uma sociedade e um grupo não se fazem sem os indivíduos que os compõem. O indivíduo é base de sustentação de qualquer política. Se ele é base de sustentação de qualquer política, ele tem uma capacidade de investir, assim como ele é investido pela política. O problema ético acontece quando a política serve como um bem privado de alguns em detrimento da maioria, ou em detrimento de uma pessoa sequer ou de algumas pessoas que sejam. A questão é: será que a política, na medida em que se torna poder estabelecido, pode simplesmente servir-se do seu povo e gerar uma exploração, uma expropriação, uma diminuição da capacidade existencial ou um investimento direto no enfraquecimento de seu povo?

Nós, ocidentais, conhecemos bem o que os Estados ocidentais fazem, de modo sistemático, freqüente. Não há nenhuma vontade real de libertar os povos que estão sob o jugo do Estado. Mas, na verdade, eu queria aqui trazer uma outra posição que é polêmica. Até que ponto nós somos cúmplices do poder que nos expropria, que nos explora, que nos submete, que nos engana? Até onde nós somos responsáveis e cúmplices disso? E aqui eu quero dizer que não há poder, sem que sejamos cúmplices dele. Porque o poder, todo poder se exerce sobre corpos e mentes, sobre indivíduos e almas; o poder se exerce aí: ele não tem outro lugar para se exercer. Se ele não se exercesse nesses lugares, ele não teria efeito nenhum sobre nós. Não haveria nenhum problema. Mas, do ponto de vista filosófico, ele precisa da dimensão espacial – que é a do corpo – e da dimensão temporal – que é alma, através da linguagem ele atinge. O poder, digamos assim, fabrica almas dóceis e corpos dóceis. E nós, na medida que o investimos, nessa mesma medida, nós tiramos alguma vantagem desse poder. Então, digamos assim, que há uma cumplicidade entre o tirano e o escravo; entre o dominador e o dominado. Esta questão é uma questão grave, porque denuncia até que ponto nós somos coniventes com o poder. Mas, ao mesmo tempo que é uma questão grave, é uma questão crítica que possibilita a nossa liberação e a invenção de um outro tipo de sociedade plenamente possível - e não tem nada de utopia nisso, uma vez que nós acreditamos que o ser é o mesmo - onde não haja conflito mais entre o poder público e os desejos individuais. Ao contrário, que haja afirmação. Que não haja nem tolerância, não é preciso a tolerância; é preciso encontrar o foco das relações, um foco afirmativo que necessariamente vai fazer com que um indivíduo se desenvolva e a comunidade como um todo também se desenvolva. Porque se eu ficar mais forte é a comunidade que fica mais forte. Se eu ficar mais fraco é a comunidade que perde com isso. Mas a visão do poder geralmente não é essa. A visão do poder é aquela de que um povo dócil, que é facilmente regulado, é aquele povo que não é capaz de entender a necessidade das relações. E por isso esse povo deve obedecer e não pode entender. Então, nossa questão é ética: levar a vida a entender. O que a vida pode? Pode entender, pode compreender, pode se relacionar afirmativamente e pode afirmar as potências do próprio corpo como uma realidade inocente, sem culpa, sem dívida. Ao mesmo tempo em que isso é possível – afirmar-se individualmente – afirma-se também a coletividade.

Se você encontra o sentido da própria natureza, o sentido de crescimento, de multiplicação, de capacitação, de liberação, se você encontra esse sentido, não há porque pressupor que haveria uma instância que necessariamente nos comanda de fora, que jamais seríamos capazes de entender isso.

Então, o que quero dizer aqui é que o poder estabelecido geralmente gosta de dizer que tem certas instâncias que são incompreensíveis, que são para poucos gênios, sábios e, esses sim, com uma certa função de liderança e de governo, vão ter a função então de orientar o resto da sociedade, no sentido de que a sociedade deva se engajar numa obediência. Aqui eu faria então uma distinção entre a ética e a moral, o que geralmente o ocidente não faz também. O ocidente acha que a ética e a moral é a mesma coisa. A moral talvez mais ligada ao indivíduo e a ética ligada a uma coletividade. Até Hegel fez, embora muito mal, essa distinção. Mas, na verdade, nossa distinção é clara e diz que a ética liga a vida ao que ela pode e a moral liga a vida ao que ela deve. Então haveria distinções entre essas duas maneiras de viver. Mas ligar a vida ao que ela pode não é liberar a vida, criar uma vida libertina, malévola, que desencadearia processos de desagregação social. Ao contrário, isso só acontece uma vez que essa mesma vida está separada do que pode. É só a vida separada do que pode que pratica o mal deliberadamente. A vida ligada ao que ela pode é suficientemente inteligente para que encontre o bem na própria maneira de se relacionar. E o que é o bem? O bem é aquilo que se compõe conosco. É aquilo que faz uma sociedade crescer. É aquilo que faz a nossa vida crescer e se capacitar do ponto de vista do corpo e do pensamento.

Eu só vou finalizar com uma outra questão, antes de abrir para o debate, também em função do tempo, em poucos minutos. Para sintetizar, existe um filósofo francês chamado Michel Foucault, não sei se vocês já ouviram falar, que, na década de 70, criou uma outra visão em relação ao poder, dizendo que o poder não se aloja em nenhum lugar. Esse que se aloja em algum lugar, num palácio, num indivíduo, num Estado, é efeito da rede política ou de uma micropolítica que é um tecido social que constitui. Há na verdade, sempre, uma micropolítica, ou, em outras palavras, o poder não é de alguém, ele é exercido, ele se exerce. Uma vez que ele se exerce, ele passa por mim, ele passa por você, ele passa por todos nós. O efeito do seu exercício é que deve ser problematizado: se é um efeito que tem um horizonte ético ou se é um efeito que tem aquele horizonte da apropriação, da exploração, da acumulação, do individualismo, do egoísmo, de tudo aquilo que desagrega e que aumenta as desigualdades sociais.

O exercício se dá sempre no modo de relação. E aí nós somos cúmplices e somos capazes de reverter o jogo. E, uma vez que nós somos cúmplices , nós também somos capazes de mudar o jogo. Nesse sentido, não há coitadinhos; não há simplesmente fraquinhos ou enfraquecidos. Se nós estivermos enfraquecidos, podemos nos fortalecer, no sentido de mudar essa condição. Restará parar de lamentar que o poder nos obriga, nos expropria, nos fere, nos rouba, etc. e saber que ele só segue existindo, porque há uma cumplicidade, na verdade, daquele que, separado do que pode, precisa da vantagem do próprio poder. E a vantagem do poder é seu modo de sedução. O poder age principalmente não por repressão e por violência, ele age por amor e por sedução, mascarado de ajuda, de amor, de sedução, ele oferece, por exemplo, temos a política do FMI, a política do Banco Mundial, a política de muitos tipos de Ongs. Não são todas, mas muitas agem assim: oferecendo ajuda, oferecendo benefícios. E o que esconde essa oferta? Uma exigência de controle. Assim, nós também mordemos a isca, alimentamos o poder, uma vez que ele nos oferece alguma coisa, alguma vantagem. E a nossa questão é: vale a pena viver dessa maneira? Será que não devemos conquistar essa dimensão ética e uma grande política que independa do Estado e dos governantes, mas uma política de uma sociedade forte, capaz de autogerir seu destino? É essa então a minha abordagem. Lamento apenas de ter encurtado o tempo em função do meu próprio atraso, mas foi o que pude fazer nesse curto período de tempo. Muito obrigado.

Apresentador
– Vamos passar agora a um momento de apresentação de dúvidas, questões, sugestões, contribuições, pedidos de esclarecimentos também. Quem quiser, que diga seu nome, local de proveniência e procure ser claro, breve e objetivo.

questão inaudível

Luiz Fuganti – Eu vejo no Brasil, em várias regiões, porque lá existem também muitos povos, muitos tipos de povos, talvez mais de oitocentas nações indígenas, além das imigrações européias e de outros países. É uma sociedade muito desigual. O Brasil não é modelo ainda de nada nesse sentido. A gente tem muitos avanços, mas esses avanços vêm de conquistas, de movimentos, de setores da sociedade que não suportam mais certas exclusões, certas expropriações, certas atitudes que os desqualificam. De fato existem movimentos que vão conquistando esse tipo de atitude. Mas eu até concordo com você que, se a gente olhar o mapa do mundo, o Brasil ou os povos brasileiros estejam entre os mais solidários. Mas eu sinto isso muito forte em Moçambique também. Estive no campo agora, exatamente com esse objetivo. Conhecer duas aldeias comunais que ultrapassaram aquele sentido tribal etno-cêntrico da sua etnia ou da sua língua e que se compõem em torno de um objetivo mais amplo do que a preservação da expansão da sua simples etnia. E ali eu sinto que há uma experiência riquíssima a ser tomada, porque parece que a “Guerra Civil”, entre aspas, porque essa guerra não foi bem civil, a gente sabe que foi ativada pelo neocolonialismo, enfim, se serviu de uma parte do povo – e, por isso, guerra civil – para destruir uma série de conquistas que o povo moçambicano já tinha atingido. Houve, digamos assim, um certo retrocesso, um certo atraso, em função da guerra, assim como das enchentes de 2000 e 2001 e outras conquistas que já vinham de longe, desde a época colonial.

Eu acho que é necessário que a sociedade realmente faça valer eficazmente os seus modos de expressão e de representação. Os seus modos de expressão geralmente têm eficácia localmente. Os seus modos de representação geralmente têm eficácia até uma certa altura. A partir dali parece que a coisa se perde e ganha uma dimensão invisível. O poder é ocupado por indivíduos invisíveis. Você nunca os atinge, não fala com eles e eles não falam contigo. E esse descompasso é exatamente a condição para que o poder possa desviar os sentidos daquilo que fortaleceria a própria comunidade e fazer da instância pública um serviço pessoal. Então, a questão de se aprimorar essa representatividade é essencial. Eu vi que existe presidente de conselho, chefe de administração distrital, depois tem os chefes de postos, tem chefe de localidade, líder de comunidade, chefe de bairro, chefe de quarteirão, chefe das dez casas. Estes são exemplos que devem ser exportados para o mundo. Isso é um exemplo incrível. No entanto, só funciona, parece-me no campo, ou em certas partes do campo. Na cidade já não tem mais um funcionamento eficaz. E por que? A gente assiste a invasão do capital como algo quase que necessário; é necessário e não tem outro jeito. Será que não tem outro jeito? Será que simplesmente o Estado e os políticos que largaram desse modo o Estado, numa espécie de deixa entrar – e que parece que está sendo ultrapassado, não sei - e simplesmente deixaram entrar os inimigos ou agentes que de fato comandam e são impessoais... O próprio capital é um agente impessoal. Ele não tem nome; ele não tem pátria. Então, não adianta simplesmente a gente proclamar a soberania ou a independência do Estado. A gente sabe que o próprio capital só se proliferou nos Estados chamados independentes. E que tipo de independência ou soberania é essa? A questão de se falar sempre em nome de alguém, como no Estado democrático e livre, por exemplo, deveria pressupor uma problematização do conteúdo que determina essa democracia e essa liberdade. Eu assisti ontem, na Comunidade Três de Fevereiro, ao lado de Xai-Xai, uma discussão, ou melhor, na verdade, uma educação cívica, de civismo, que era simplesmente educar para a necessidade do voto e para a necessidade de uma constituição de agremiações partidárias. Mas a gente sabe que as agremiações partidárias são um modelo ocidental. E é em nome dos partidos que as piores coisas se fazem no Ocidente. No próprio Brasil, agora, já que você mencionou o Brasil, assistimos o maior partido brasileiro, realmente representativo do povo, que é o PT – Partido dos Trabalhadores -, que inclusive eu simpatizo muito, ser foco de corrupção. A própria estrutura partidária e a estrutura política ocidentais impõem um tipo de financiamento e de invisibilidade do próprio poder que mesmo os melhores e mais bem intencionados partidos políticos acabam sendo corrompidos. Mesmo os melhores e mais bem intencionados políticos acabam sendo corrompidos. Não que isso seja uma coisa a ser generalizada, mas a questão é que uma máquina social pode facilitar a corrupção e o desvio. Então eu penso que a idéia de solidariedade deve se fundamentar numa inteligência social. O solidário não é simplesmente bondoso; o solidário é inteligente, antes de tudo. Ele é inteligente, porque sabe que, fortalecendo o outro, ele se fortalece também. É essa a idéia básica que a ética deve cultivar e não simplesmente de uma ajuda voluntária. A ajuda voluntária ainda parece que impõe um peso a nós. Mas a idéia de inteligência solidária faz com que a gente deseje alegremente e de modo leve, sem peso, a solidariedade. Se os políticos que realmente forem os comandantes tiverem essa relação direta com a própria comunidade e a comunidade criar mecanismos de destituir o político assim que ele for desviante, digamos assim, assim como as próprias comunidades rurais fazem o tempo inteiro com os indivíduos que as representam, são depostos imediatamente se não corresponderem à vontade do corpo coletivo. Então, a idéia de solidariedade deve ser ligada à idéia de inteligência, mais do que simplesmente a uma vontade moral. Claro, é também isso. Mas o que mais seduz é aquilo que fortalece. Então é um amor que realmente faz crescer. É o amor solidário que faz crescer a todos, não apenas a alguém. É importante difundir a idéia que aquele que ama apenas a si próprio, o egoísta, ele, em última instância está não só prestando um desserviço à comunidade, mas a ele mesmo. Mais cedo ou mais tarde ele paga, os filhos dele, os netos dele hão de pagar. Não tem como. A natureza é radical. Então é uma questão de inteligência ser solidário. Eu acho que apenas deve ser incentivada e cultivada ainda mais uma solidariedade que já existe no povo moçambicano. Acredito nisso.

questão inaudível

Luiz Fuganti – Acho que, na verdade, os povos africanos, orientais e mesmo alguma parte de povos ocidentais que estão inventando outros caminhos têm muito a ensinar a unidades. As experiências... Não é à toa que estou fazendo incursões. Estou, na realidade, aprendendo muito com a sociedade moçambicana e acho que essa confiança e esse crescimento e a criação de um modelo próprio de organização social é, não só interessante, mas necessário e fundamental. Sem isso, não haverá liberdade, não haverá efetuação, não haverá um crescimento ativo desses povos. Não há modelo que sirva universalmente, a não ser que o modelo universal esteja necessariamente afinado com as diferenças locais. Nós sabemos que o modelo ocidental de democracia é um modelo partidário e o partido funciona de modo excludente. Se Moçambique e outros países não seguirem esse modelo, mas criarem uma outra maneira, ou melhor, até se servindo dos mesmos nomes como democracia, como pluripartidarismo, mas transformando radicalmente o conteúdo do que faz o partido, do que faz a democracia, do que faz a liberdade, vão ser capazes certamente de dar muitas lições benéficas ao Ocidente. E isso eu tenho certeza que vai acabar acontecendo mais cedo ou mais tarde.

questão inaudível

Luiz Fuganti – Só há ética na medida em que as vontades vêm de dentro. Os desejos se expressam a partir dos modos individuais e grupais. O governo deve ser apenas uma expressão dessa coletividade, sem o que necessariamente ele se torna um representante separado e vai falar em nome dessa comunidade, mas vai estar separado das reais necessidades dessa comunidade. Então, ele vai se servir da comunidade, falar em nome do povo, mas o conteúdo que menos vai estar presente nas decisões vai ser o povo.

Então, a idéia essencial é que o governo, o Estado, a política, esteja em direção a uma sociedade forte. Isso só é possível com sociedades fortes. E uma sociedade forte é aquela que é capaz de construir o próprio tecido social e afirmá-lo como um filtro, uma válvula que seleciona aquilo que a enfraquece e aquilo que a fortalece. E mais do que isso: uma sociedade que é capaz de aproveitar tudo o que acontece, do ponto de vista do bem e do ponto de vista do mal. Muitas vezes, o mal é muito necessário e muito interessante. A gente pode aproveitar muito com o mal que nos atravessa. Essa é necessariamente uma postura ética e de comunidade que é anterior a uma postura de Estado. O Estado não vem antes, não é ele que orienta uma sociedade. É claro que uma vez que o Estado é constituído e ele é uma instituição ele pode incentivar, criar políticas públicas. Mas que desde que vá ao encontro dessas comunidades e que não seja simplesmente um regulador que se serve das leis.

O homem forte é antes de tudo generoso. Ele dá e não toma. E esta é uma inversão também evidentemente. A gente sabe que o Ocidente chama de forte aquele que é poderoso e de fraco aquele que deve ser ajudado por esses mesmos homens poderosos. Nós afirmamos o contrário: que forte é aquele que é capaz de criar, de dar, de oferecer. Fraco é aquele que precisa expropriar, tomar, capturar, explorar, dominar. Então o homem só é o lobo do homem na medida que o homem é miserável. Todo poderoso é um impotente, antes de tudo. Aquele que quer o poder é porque está impotente. O homem livre não busca o poder. O homem livre busca a capacidade de modificar, de criar as próprias condições da sua existência, ligado é claro ao ser, à natureza ou a Deus, ao modo como você queira chamar. Eu não vou entrar aqui, como disse, nas questões religiosas, porque estou falando do ponto de vista filosófico. Então, aquele que está ligado ao ser sabe aonde está ligada a potência. A potência se revela na maneira da gente se relacionar. O homem que sabe se relacionar, que cria um modo de viver e de pensar ativo e afirmativo jamais é dono de outro homem. Mas nós sabemos que é difícil a gente encontrar homens que realmente sejam criadores, ativos, livres, fortes, generosos. Mas nós devemos cultivar esse tipo de homem. E se o Estado e a política pública de uma nação tiver realmente ética, vai criar políticas públicas para fortalecer os homens individualmente. Para que os homens não sejam miseráveis, mas para que sejam fortes, ricos de afeto e de atitude. Sejam capazes de criar riqueza a partir de si próprio e do modo de relação. Essa é uma postura ética na própria política e que faz com que essa visão do homem enquanto lobo do homem seja simplesmente um efeito de um estado de sociedade imaturo, enfraquecido ou decaído, como você queira chamar.

Apresentador: Eu queria agora deixar um espaço para algumas considerações que o senhor queira fazer.

Luiz Fuganti: Eu, na verdade, tenho um outro encontro urgente que faz parte da Cooperação Brasil-Moçambique e que está acontecendo já no Centro Cultural do Banco de Moçambique. É uma cerimônia e já estão solicitando minha presença desde as 16 horas e eu tenho de me dirigir para lá, mas eu vou dizer algumas poucas palavras ainda, em cima do que eu já disse e das próprias questões que foram levantadas.

Eu me considero um otimista, até um positivista, sei lá. Eu não acredito que o homem esteja destinado a desaparecer se ele for suficientemente inteligente. Mas se ele não encontrar o modo, se ele não encontrar o foco sob o qual as relações individuais e coletivas sejam agregadoras, fortificadoras, ele estará fadado ao fracasso e a vida toma outros partidos, outras tendências, ela abandonará o homem. Existe um escritor chamado D.H. Lawrence que diz assim: ”se o homem não mudar de atitude, o Espírito Santo da vida o abandonará”. Então eu acho que não é a vida que precisa do homem, mas o homem que precisa da vida. Ou melhor, o homem livre é aquele que se identifica com a própria vida livre, ativa e afirmativa. Então eu acho que não só isso é possível, como isso é necessário; nós precisamos reencontrar aquele caminho onde o ser é comum em qualquer relação. Há um ser que atravessa qualquer relação e que é comum. Esse ser é que funda qualquer comunidade. A comunidade está em toda relação ou em toda a necessidade de cada relação. Não entre uma relação boa e uma relação má, mas, inclusive, na relação má, uma vez que tem relação, é porque tem uma comunidade e quando encontra a comunidade na relação eu encontro aquilo que ela tem de necessário, de essencial, de fortalecedor.

Então, devo aproveitar tanto do bem quanto do mal para encontrar esse ser comum, sem o qual o homem não evoluirá.

Eu acho que é essa a mensagem que eu queria deixar. Espero que isso que eu disse tenha sido útil e que possa fazer vocês pensarem a respeito. Não quero deixar nenhuma doutrina, nenhum sistema de verdade, apenas uma maneira de pensar, que estimule o pensamento e que faça com que a gente fique um pouco mais criativo em relação às questões da ética e da política.

 

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