sexta-feira , 22 junho 2018
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Curso Formação do Pensamento Ocidental

Curso online oferecido para assinantes do site. São 32 aulas transcritas, ministradas por Luiz Fuganti.

Aula 11 – Os estoicos e a ordem imanente da natureza

Um texto – aliás, isso aqui não é um texto, é “a obra” por excelência: Lógica do sentido do Gilles Deleuze. Essa obra foi a que resgatou, a que recuperou o estoicismo da forma mais impressionante e é uma obra absolutamente estoica. Lógica do sentido é exatamente a lógica do incorporal, é o objeto que o estoicismo destaca do ser - como objeto difícil de apreender porque ele é incorpóreo, é um objeto fugidio. E no entanto, como diz Deleuze, é mais ou menos como a Caça ao snark do Lewis Carrol (traduzido como A caça ao turpente, que é o tubarão-serpente, digamos assim) – que você não pega nunca, escapa porque é muito escorregadio, na medida mesma em que não é objeto da sensibilidade e nem da razão. É objeto do pensamento e o pensamento acontece num tempo que não é o do imaginário, que não é o da sensibilidade, que não é o da razão. Essa obra A lógica do sentido é como a Caça ao snark do Lewis Carrol que, aliás, é uma outra obra que Gilles Deleuze cita direto na Lógica do sentido como sendo uma obra que traz como objeto privilegiado o sentido na literatura. Toda a obra de Lewis Carrol é uma obra sobre o sentido e sobre o paradoxo, porque o sentido é paradoxal.

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Aula 12 – O tempo aiônico

Entrar em acontecimento é, na leitura, já ser modificável – e não ser apenas modificado ou modificar o outro. É ser modificável em ato. Então essa modificação, no encontro que você faz com o texto, já por si só gera o entendimento. Porque é o entendimento em cima do modificável, do acontecimento mesmo. Então é uma forma de se relacionar com o texto que não estamos habituados – aliás, isso é o que elimina todo hábito, porque você se força o tempo inteiro ao novo. Então você pode ler 500 vezes uma série da Lógica do sentido; se você estiver em devir, você sempre vai ver coisas diferentes. É um livro riquíssimo, é um modo de pensar que habita, exatamente, o que ele tenta destacar o tempo inteiro, que é o tempo aiônico.

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Aula 13 – Epicuro e Lucrécio

Hoje vamos entrar em Epicuro e Lucrécio, acho que com duas aulas nós liberamos esse pensamento nas questões mais essenciais. É uma filosofia absolutamente pluralista – acho que é a filosofia mais pluralista da Antiguidade. Deleuze mesmo diz que os atos de nobreza do pluralismo em filosofia começam com Epicuro e Lucrécio; era uma filosofia absolutamente plural, ela parte já direto da diversidade e da multiplicidade, o princípio já é a diversidade. Então ela se diferencia de toda a filosofia antiga nesse sentido. Mas eu acho que com duas exposições dá para termos uma boa noção do que nos interessa aqui.

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Aula 14 – Epicuro e Lucrécio (continuação)

Hoje vamos dar sequência a Epicuro e Lucrécio do seguinte modo: vamos repetir aprofundando, porque eu acho que o esquema geral da filosofia de Epicuro e Lucrécio eu já passei na aula passada, e hoje vamos repetindo e aprofundando. Acho que a coisa fica mais clara desse modo. Eu já tive alguns feedbacks de que tiveram coisas da aula passada que ficaram um pouco confusas para algumas pessoas; acho que indo com uma certa calma hoje, dá para esclarecer alguns pontos essenciais.

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Aula 15 – O nascimento do juízo

Hoje vamos falar um pouquinho do nascimento do juízo; é um tema supercomplexo, superdifícil, é tudo o que sintetiza a nossa inimizade. Toda a nossa indisposição, a nossa violência, a nossa crueldade, a nossa agressividade vai contra essa instância chamada juízo e é isso que vamos tentar esboçar hoje aqui de alguma maneira: como é que o juízo emerge nos moldes como o conhecemos. Porque os gregos não eram suficientemente niilistas, suficientemente negativos para terem instaurado a instância do juízo como um plano privilegiado de estabelecimento da verdade; os gregos eram suficientemente afirmativos para não deixarem essa planta venenosa nascer na sociedade deles. Por mais que você tenha o idealismo platônico, um niilismo muito forte ainda em Sócrates, em Platão, em Aristóteles, os gregos não têm um São Paulo. São Paulo é privilégio do ocidente cristão, é o inventor do cristianismo e um dos que gerou as condições mais elementares para que o juízo tivesse o sucesso que tem até hoje. São Paulo é, digamos, o grande intérprete, o grande formador do conceito cristão daquilo que o Nietzsche chama de má consciência. São Paulo é que interpreta a cruz - ou a morte de Jesus na cruz, O Crucificado - como um acontecimento que diz respeito ao mais íntimo da nossa existência a ponto de, através desse acontecimento, introduzir em nós a dívida infinita.

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Aula 16 – O juízo enquanto instância privilegiada de negação

Nietzsche diz: “a pedra de toque de todo heraclitiano é a hybris; aquele que entendeu a hybris, entendeu o seu mestre” – diz Nietzsche, em relação a Heráclito. E o que é a hybris? A hybris é a desmesura, é a forma extrema de tudo que é. É o que o próprio Nietzsche chama de super-homem. O super-homem não é uma entidade - não é que eu, enquanto homem, me tornei um super-homem. Não é nada disso. O super-homem – na realidade até é meio equívoca essa palavra – é o tipo superior de tudo que é. E o que é o tipo superior de tudo que é? É exatamente aquilo que afirma tudo plenamente; afirmou plenamente aquilo, você está na forma superior daquilo. Essa forma superior necessariamente te devolve o retorno, que se autocoloca, que se autopõe – é uma autopoiesis, é uma autonomia real. De fato você tem autonomia assim. Sem sujeito, sem identidade, sem ego.

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Aula 17 – Espinosa, o segundo momento do unívoco

Espinosa seria o segundo momento do unívoco: o ser unívoco, que inicia com Duns Scot... Duns Scot é que enuncia essa proposição explicitamente. Porque na realidade a história do ser unívoco é anterior, você já tem um ser unívoco com Parmênides; em Avicena isso já se passa, com a essência neutra; mas é Duns Scot que vai fazer a proposição. E segundo Deleuze, a única proposição ontológica que existe é essa: o ser é unívoco, o ser se diz num único e mesmo sentido de Deus e das criaturas – no caso de Duns Scot, que é um cristão. A questão da univocidade do ser em Duns Scot não ultrapassa a neutralidade porque Duns Scot precisa manter um ser eminente e transcendente que seria Deus, uma entidade eminente e transcendente. Então Deus transcende a natureza, ainda em Duns Scot. Ele vive no século XIII para o século XIV, isso é uma condição inclusive de sobrevivência dele.

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Aula 18 – Espinosa: Não há um sujeito do conhecimento

Espinosa tem teses teóricas muito radicais – como uma única Substância para infinitos atributos, os modos que são partes de uma Substância imanente à própria Substância, ou seja, parte de Deus atuando imediatamente na sua existência, que não se separa da causa. Essas teses teóricas levam a uma acusação, a uma denúncia de que Espinosa é um panteísta, de que Espinosa é um ateu, de que Espinosa vai combater o Deus pessoal, o Deus antropomórfico e antropológico das religiões cristãs, judaicas e islâmicas; mas essas teses teóricas não são suficientes para explicar essa mobilização afetiva em torno da figura de Espinosa. Na realidade, Espinosa tem, com a sua obra, um efeito prático muito violento – violento no seguinte sentido: ele é violento para quem se põe do ponto de vista da moral , do ponto de vista da religião, do ponto de vista da racionalidade ocidental; ele acaba construindo teses extremamente violentas e efeitos práticos extremamente violentos.

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Aula 19 – Espinosa e o plano de imanência

Espinosa traz de essencial na obra dele, na filosofia dele, uma capacidade, enquanto filósofo, que é raro encontrar em filósofos, que acaba consistindo no seguinte: através da mais pura filosofia, ele conseguir fazer com que a vida seja reencontrada. Ou seja, levar a filosofia para fora da filosofia; ele cria um sistema, ele cria um esquema que, na realidade, é o que estamos chamando de plano de imanência ou de plano de consistência ou de plano de composição – hoje vamos esclarecer um pouquinho melhor as nuances desses termos; através disso ele consegue levar a vida no seu imediato, uma vida que não precisa de intermediação. Espinosa, nesse sentido, cria o mais puro plano de imanência. O plano de imanência não é um plano como um projeto, como um desenho ou como um programa; o plano é mais como um mapa, como uma geografia, é como uma tela que põe os afetos em contato imediato - o que seria um meio, um puro meio, mas não um meio como um intermediário, como intermediação; é um meio puro onde as coisas se dão. Então Espinosa quer encontrar esse meio, ele quer destituir os intermediários; e os intermediários todos, no fundo, se resumem num único nome, que é a transcendência.

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