quinta-feira , 16 agosto 2018
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Aula 14 – Epicuro e Lucrécio (continuação)

Luiz Fuganti

Hoje vamos dar sequência a Epicuro e Lucrécio do seguinte modo: vamos repetir aprofundando, porque eu acho que o esquema geral da filosofia de Epicuro e Lucrécio eu já passei na aula passada, e hoje vamos repetindo e aprofundando. Acho que a coisa fica mais clara desse modo. Eu já tive alguns feedbacks de que tiveram coisas da aula passada que ficaram um pouco confusas para algumas pessoas; acho que indo com uma certa calma hoje, dá para esclarecer alguns pontos essenciais.

O que importa na filosofia de Epicuro e Lucrécio é o efeito prático que ela tem. Evidentemente que, do ponto de vista especulativo, ela é uma filosofia extremamente poderosa: acho que é o materialismo mais eficaz da Antiguidade e o pluralismo mais radical – uma filosofia pluralista e naturalista, absolutamente pluralista. Isto significa dizer o quê? Que é uma filosofia inteiramente misturada ou oriunda de um plano de imanência, é uma filosofia que dispensa os deuses e dispensa o diálogo humano, digamos assim. Dispensa os deuses como mitos e retoma os deuses como brinquedos; dispensa o diálogo ou a dialética humana como argumentação de valores morais e lógicos e retoma a linguagem humana como as coisas falando no homem. Quer dizer, não haveria dialética para Epicuro e Lucrécio: as próprias coisas nos ensinam, se explicam, através da sensação – da sensibilidade – e da linguagem também. E o homem, o que faz? O homem apenas aperfeiçoa: na sua experiência, com as suas prenoções, com a repetição da experimentação, ele vai gerando consistência nesses saberes, nessas verdades que viriam do fluxo das próprias coisas – as coisas emitiriam a sua própria verdade.

Então é uma filosofia da imanência, radicalmente, porque dispensa o plano dos deuses – ou o plano das alturas, ou o plano das essências em si, o plano das Ideias – e dispensa também a altura da psiquê ou da lógica humana. Dispensa essas duas alturas, esses dois esquemas de representação, e vai direto à natureza como ela é.

E, nesse sentido, você tem um plano de imanência e um plano de composição. A natureza se compõe, ela é inteiramente plano de composição. Na natureza, as organizações e as representações são efeitos do plano de composição; e como a natureza se compõe é o objeto do pensamento especulativo.

Então a filosofia, do ponto de vista especulativo, vai determinar seu objeto como sendo o naturalismo – a phýsis para o grego Epicuro ou a natureza para o romano Lucrécio; ou seja, a phýsis ou a natureza seria o objeto do pensamento especulativo. E o pensamento prático, que é ligado à ética, teria como objeto o prazer. Então o objeto especulativo phýsis e o objeto prático prazer vão comungar numa única determinação chamada naturalismo. Naturalismo exatamente com o sentido de destituir os deuses e os juízos arbitrários dos homens. Neste sentido, então, o naturalismo vai ter que dar conta do que seria o mundo, do que seria a natureza: o que vemos no mundo, o que vemos na natureza, o que sentimos, o que percebemos como real. Os produtos da natureza que se relacionam conosco, nós mesmos que somos produtos da natureza, que princípio teriam? Que princípio esses produtos teriam e que princípio nós mesmos teríamos? Então isso seria uma introdução geral novamente, para entrarmos mais fundo.

Antes de entrar novamente, eu queria abrir para questões, se tem alguém que tem alguma questão em relação à exposição passada. E aí seguimos.

Participante: o que você quer dizer com máquina de guerra?

Máquina de guerra se diferencia de exército. Exército é uma máquina de guerra capturada pelo Estado. Quando falamos máquina de guerra, é uma composição de forças nômade – ou seja, que não se sedentariza num Estado. E nômade significa também que não se vincula a nenhum esquema jurídico. Nem ao esquema do poder do Estado, nem a um esquema jurídico. Ou seja, ela se auto-regulamenta e ela se autocoloca enquanto potência própria. Então uma máquina de guerra nômade, evidentemente, bate de frente ou sutilmente mina o Estado, a lei, o sistema jurídico e a moral.

Isso para não falar da religião. Ou seja, não sobra nada – nem religião, nem Estado, nem lei, nem moral. Sobra o quê? Sobra um plano imanente de natureza e um plano de composição, que é o que estamos aqui tentando liberar o tempo inteiro. Queremos liberar o quê? A natureza por ela mesma.

Como em Epicuro e Lucrécio, por exemplo: se eles determinam a natureza como o princípio do Diverso, esse princípio do Diverso tem que dar conta das diversidades ou das diferenças se pondo por elas mesmas; as diferenças têm que se autossustentar. A natureza é distributiva, então ela distribui a potência à diferença – a diferença já tem a potência imanente nela mesma. Então essa diferença não precisa de um Estado, não precisa de uma lei, não precisa de uma religião, não precisa de nenhuma entidade fora dela mesma para solicitar força, energia, forma, ordem, aprovação, etc. A natureza se põe por si só. Então o tempo inteiro o que fazemos aqui é isto: é tentar liberar essas forças, esses fluxos imanentes que nos atravessam, que produzem realidade através de nós – e, muitas vezes, apesar de nós.

Participante: então a máquina de guerra seria a força vital.

Sem dúvida. Tudo que é força vital e nômade, necessariamente é uma máquina de guerra. A máquina de guerra não tem a ver com máquina de morte; ao contrário, a máquina de guerra destrói as condições de mortificação da vida. A máquina de guerra tem como inimigo fundamental a sedentarização da vida, a cristalização do devir e a paralisação dos movimentos; ela tem como inimigo fundamental tudo o que é condição negativa para que o devir se torne reativo. Então esse é o inimigo da máquina de guerra.

Então é um não ao não, digamos assim. É um não aos nãos que destituem a vida da sua potência – isso que seria uma máquina de guerra. Então você pode até chamar de máquina de vida, mas é uma máquina, uma composição que acelera os processos de dissolução daquilo que emperra a vida e a natureza. Seria nesse sentido. Então usamos esse termo máquina de guerra como uma força imanente ou uma potência que combate os poderes transcendentes.

As palavras às vezes enganam: guerra geralmente está ligada à destruição, à violência. A violência só existe a partir do Estado – não existe violência sem o Estado. Nem um animal que come o outro é violento – a violência é uma invenção do Estado. Na natureza não tem violência, tem agressão, o que é diferente. Agressividade é diferente de violência. Então a agressividade é um conceito que precisa ser trabalhado. E a agressividade geralmente não é intraespecífica. A intraespecífica tem sempre um sentido de expansão da espécie nos processos ativos; quando é uma violência intraespecífica – como no caso das cidades humanas, a violência urbana por exemplo – ela já é evidentemente o efeito de um devir reativo, de uma atitude negativa do homem perante a vida. Então a violência é uma invenção, é um artifício inventado pela sociedade humana.

A máquina de guerra não está ligada à violência; o que está ligado à violência é o exército, a polícia.

Participante: o pensamento de Gandhiano, da não-violência, era uma espécie de máquina de vida.

É, com certeza. Gandhi monta uma máquina de guerra com o pensamento da não-violência.

Vamos entrar na aula propriamente dita. Vamos fazer uma espécie de retrajetória, de retrajeto; vamos caminhar de novo nas questões que são essenciais. O objeto fundamental da filosofia de Epicuro e de Lucrécio é o naturalismo, sob os dois pontos de vista: especulativo e prático. O especulativo visa entender a natureza, como a natureza funciona: o seu princípio, a sua ordem e o seu plano de composição. Isso que seria o pensamento especulativo. Refere-se à física, ou à phýsis.

E o naturalismo do ponto de vista prático é o prazer.

Já vimos na aula passada que o prazer não é uma visão vulgar, hedonista, como os inimigos de Epicuro atribuem a ele; na realidade tem muito mais a ver com uma posição de alegria do que de prazer. Por que de alegria do que de prazer? Porque o obstáculo para a obtenção de prazer seria a dor – a dor é o contraponto do prazer; e nós vamos ver mais tarde com Espinosa, Nietzsche e outros pensadores, que dor e prazer geralmente estão ligados a órgão e função de órgão. Prazer e dor são sempre prazer de órgão, função de órgão ou disfunção de órgão que gera a dor. Mas no caso de Epicuro e de Lucrécio, o prazer está ligado a uma vida feliz; e a vida feliz é uma vida alegre. No seguinte sentido: se o obstáculo do prazer é a dor – e sabemos que se remove a dor de modo muito simples, a dor é uma coisa que não tem obstáculos mais profundos ou mais graves, é uma questão de situação, geralmente -, existe um inimigo mais profundo do que a dor, um inimigo da felicidade e do prazer, que é o que gera uma perturbação da alma. Então se esse elemento gera uma perturbação da alma, se esse elemento gera uma inquietação, gera um terror na alma e no pensamento, evidentemente que ele acaba sendo um aliado da dor, na medida em que ele acaba multiplicando a dor.

Não só multiplicando a dor, como tornando a dor invencível. E aí sim o prazer ganha um inimigo invencível, nesse sentido. Invencível a ponto de Lucrécio dizer: “nesses tempos de miséria e de terror, não há como resistir”. Ou seja, o inimigo não é simplesmente um inimigo externo; o inimigo não é o poder de um Estado, apenas – ainda que o Estado e o poder se alimentem disso para se manter.

O inimigo é muito mais sutil, o inimigo se tornou espiritual. É como aquilo que Nietzsche diz: a dívida se tornou espiritual e infinita, o inimigo se tornou espiritual e, se ele se torna espiritual, a questão da dor se torna pequena. Porque se o inimigo é espiritual e o inimigo leva à impotência – a impotência que mantém o indivíduo separado do que ele pode -, essa impotência acaba impossibilitando a obtenção do prazer. E é na impotência que se revela uma coisa muito mais profunda que a própria dor, que é uma tristeza, é uma angústia, é um terror, é algo de insuperável – é um obstáculo espiritual insuperável na medida em que o homem se mantém confuso.

Então o inimigo fundamental do prazer é algo que vem da alma, que gera uma inquietação, que gera uma perturbação, que gera um terror; e isso é gerado a partir de um elemento que não é sensível, mas acontece num tempo menor do que o tempo sensível. A questão da aula passada: os tempos de sensibilidade. Acontece num tempo menor e por isso acaba capturando a sensibilidade; e ao levar a sensibilidade, leva junto o pensamento. Nesse sentido, ao invés de você obter o prazer – que tem muito mais a ver com a alegria -, você acaba caindo numa tristeza profunda e numa inquietação ou num terror que são os obstáculos extremos para uma vida feliz.

Então a filosofia inteira de Epicuro e Lucrécio tem como objeto uma vida feliz, uma vida de prazer, uma vida fundamentalmente de alegria. Mas o obstáculo para essa vida de prazer não é simplesmente a dor; é uma inquietação que só é superada por uma serenidade, por aquilo que ele chama de ataraxia. Ataraxia é uma imperturbabilidade da alma, é uma serenidade profunda, é um contentamento íntimo que faz com que você não se conduza pelos chamados da mistificação, pelos chamados da superstição – que, no fundo, são a fonte da inquietação da alma. Então o inimigo fundamental é a superstição.

Participante: isso – essa ataraxia – é quase como um estado meditativo.

É e não é. Quer dizer, não é um estado contemplativo no sentido de que você percebe a verdade do mundo de longe, de que você contemplaria a verdade de longe. Não é nada disso. É um estado meditativo, digamos assim, na medida em que a própria natureza medita em você. Mas na medida em que a natureza medita em você, a natureza está em movimento; então não é uma contemplação ascética da natureza – ela é inteiramente em mistura, ela é completamente misturada à diversidade da natureza. Uma contemplação misturada.

Participante: e é em ato, não é? Acho que aí é que está a questão da meditação.

Em ato. Ela é um pensamento em ato. Aliás, tem a ver com o objeto do pensamento – que é o átomo ou o indivisível – que tem a mesma velocidade que o pensamento: o átomo vai tão rápido quanto o pensamento. E o objeto do pensamento, ou o sujeito do pensamento, é o próprio átomo, é o indivisível – mas é o indivisível já como pluralidade.

Qual o inimigo fundamental de Epicuro e Lucrécio? É a superstição, é o mito; tudo que é mito, tudo que é superstição, tem que ser denunciado e destituído. E, mais do que isso, denunciar o mito e a superstição como instrumentos de assujeitamento: o poder se utiliza do mito e da superstição para assujeitar os indivíduos. Tanto o poder político como o poder espiritual – seja de um sacerdote, seja de um tirano. Usa-se exatamente o mito e a superstição para montar um complexo de assujeitamento em cada indivíduo, que faz com que esse indivíduo alimente essa máquina de morte, digamos assim.

Então a denúncia fundamental de Epicuro e Lucrécio é contra os poderes que precisam da tristeza, da impotência, da superstição para se firmarem; e, nessa mesma medida, são poderes que não só provocam a dor como multiplicam a dor e tornam a dor invencível. Esse é todo o problema.

Então o problema de Epicuro e Lucrécio é um problema prático. Quando eles vão fazer o investimento especulativo, a especulação – o pensamento puro que tem como objeto entender a natureza – é um pensamento que vai ser usado como um meio de destituir a superstição e o mito; como um meio de denunciar as paixões tristes, de denunciar os elementos que multiplicam a dor e que tornam a dor invencível; como um meio de destruir ou destituir a inquietação da alma e gerar a condição da serenidade da alma. A questão toda é atingir a serenidade – não como finalidade última, mas porque só serenamente você goza, você não goza sem serenidade. Essa é a tese central. Ou seja, a serenidade ou a ataraxia não é o objetivo último do epicurismo, é apenas um meio para se ter realmente o que eles chamam de prazer, que no fundo é uma alegria.

Participante: é uma condição, não é?

É uma condição, e não uma finalidade. A finalidade é sempre o objeto da ética que é o prazer, é ter uma vida feliz, uma vida alegre.

Participante: a alma é corpo para eles? Como para os estoicos?

A alma é corpo.

Participante: sobre a superstição, na aula passada você disse que o objeto composto não pode ser infinito. E que isso tem uma ligação com o elemento superstição; sempre que ele se faz infinito, existe aí a superstição.

Isso. Ou seja, é um falso infinito que gera a superstição.

Participante: essa confusão é que não traz a serenidade.

Exatamente. São os falsos infinitos gerados por fantasmas de terceira espécie que acabam dando uma ideia de que o homem tem uma capacidade infinita de obter prazeres – e por isso ele pode desejar infinitamente; isso se projeta na alma como uma sensação ilusória de uma duração infinita. Essa duração infinita significa a imortalidade da alma e essa alma imortal estará sujeita, estará entregue a, depois da morte, ser castigada. Por que essa sensação de castigo? Porque todo desejo alimentado por um fantasma é necessariamente frustrado. Então você já tem a sensação de punição em vida e você projeta isso para uma vida eterna. Quer dizer, há a sensação do falso infinito da capacidade de obter prazeres e de desejar, a sensação do falso infinito da duração da alma; e o encaminhamento de uma sanção necessária desse falso infinito desejante é um falso infinito da punição eterna. Então você tem um esquema, um complexo que faz exatamente a psiquê do escravo, do tirano e do sacerdote.

Participante: é isso que provoca a Angst (em alemão)? É mais do que angústia, é uma angústia interna, é uma dor superior à dor corporal. É isso que você está querendo dizer? Vencer essa angústia é vencer essa confusão.

Participante: mas nesse caso é corporal.

É corpórea e gera a sensação de não ser; você acredita que a sua alma é eterna, é incorporal e vai sofrer os castigos infinitos. Mas no fundo é corporal, evidentemente.

Então o que ocorre? Eles vão precisar encontrar a origem, o princípio ou a causa, e o modo de funcionamento da natureza. O princípio ou a causa e o modo de funcionamento da natureza devem essencialmente explicar porque a natureza é diversa, se produz no Diverso e reproduz o Diverso; a natureza é inteiramente diversa, não há nada na natureza que seja idêntico, que seja uno ou que forme um Todo. Então eles começam por denunciar que as filosofias que se fundaram no Uno, no Ser ou no Todo são falsas filosofias; ou até aquelas que acreditaram num destino. Eles vão denunciar, mas de modo parcial, os estoicos, de que quem afirma o destino necessariamente afirma a necessidade. Os estoicos, evidentemente, negam a necessidade e afirmam o destino. É que eles fazem uma cisão entre causa e efeito: o efeito é de outra natureza que as causas. Então não é bem a questão. Assim como os estoicos vão acusar os epicuristas de estarem inteiramente numa contingência.

Daqui a pouco explicamos um pouquinho melhor o que seria essa contingência e esse acaso do epicurismo, que está fundado na noção de clinâmen. No fundo não é nem uma coisa nem outra, o problema está em outro lugar; são filosofias com esquemas diferentes; mas ambas levam para uma imanência, para um plano de composição e para uma liberdade radicais – tanto o estoicismo quanto o epicurismo.

Então, o que Epicuro e Lucrécio denunciam de saída nas filosofias anteriores? Que elas foram incapazes de explicar a diversidade, de explicar a multiplicidade, de explicar a diferença a partir de um princípio que deveria ser ele próprio diferente, ele próprio diverso, ele próprio uma multiplicidade.

Quando você explica a diversidade, a multiplicidade, por uma unidade ou por uma totalidade ou por um Ser, você faz nascer uma coisa de qualquer outra coisa, como diria Epicuro. Ou seja, o primeiro axioma da filosofia de Epicuro é que nada vem do nada e nada vai para o nada, nada se dissolve no nada. Ou seja, se o que existe vem de algo que não é o Nada, esse algo tem um critério de geração.

E não é possível você extrair o Diverso do Uno, não tem como, porque o Uno seria incapaz de gerar um princípio de diversificação – mesmo por atribuição. Platão engendrou o princípio do Outro, a alteridade, que é uma coisa cômica, até; Aristóteles gerou a diferença entre ato e potência e a diferenciação específica – que se torna extremamente artificial, extremamente representativo, e reduz a diversidade – ou submete a diversidade – a uma unidade fundamental. No momento em que você diz que os seres vieram de um Ser único, você reduz a pluralidade, a multiplicidade dos seres a um universal.

Então Epicuro diz: “o Ser ou o Uno nada mais são do que uma visão arbitrária de um composto em particular”; você pega esse composto em particular, recorta a sua unidade e projeta no fundo da natureza como sendo essa unidade – fictícia – o princípio daquela diversidade ou daquele composto.

Então é uma imagem invertida: você projeta uma falsa unidade, uma ficção de unidade – que, no fundo, nada mais é do que um indivíduo no mundo – em toda a natureza e no fundo de toda natureza.

O que seria, também, um Todo, senão um conjunto de indivíduos ou de elementos que somariam e que se fechariam numa totalização, num único tempo e num único espaço? Ou seja, um acabamento inicial ou um acabamento final que fecharia o universo num Todo. A totalização das partes num momento privilegiado – seja esse momento a origem do universo, seja esse momento o fim do universo.

Diz Epicuro, diz Lucrécio: não seria possível ter esse tipo de ideia a não ser imaginando que o Todo é feito de contrários e que um se transforma no outro. Isso nada mais é do que outra maneira de dizer que tudo vem de tudo ou nada vem de nada – ou seja, é a indiferenciação; logo, esses princípios são falsos princípios, eles não dão conta da pluralidade do mundo. O problema então especulativo da filosofia de Epicuro e Lucrécio é exatamente determinar um princípio plural, diverso, que dê conta da própria diversidade do mundo.

Participante: é o indiferenciado.

Não é o indiferenciado.

Participante: o indiferenciado não é cheio de diferenças?

Olha, o que eles estão dizendo radicalmente – mas radicalmente mesmo – é que não há indiferenciação no fundo e na origem da natureza. Nada. Tudo é diferenciação. No fundo da natureza o único solo, o único chão, o único fundamento não é o Mesmo, não é a Identidade, não é o Ser, não é o Uno, não é o Todo. O único chão é a diferença – enquanto diferença. Olha a loucura que eles estão afirmando. Loucura para quem está na superstição, porque é a pura realidade; a realidade funciona o tempo inteiro assim, apesar de nós.

Então o que se está afirmando radicalmente é esse princípio do Diverso enquanto plural, enquanto diversidade. Ora, eles – assim como os estoicos – afirmam a causalidade. O que é afirmar a causalidade? É dizer que nenhum movimento existe sem causa, todo movimento tem uma causa.
Então eles precisam montar um esquema – ou apreender o esquema mais essencial da natureza – que explique, através da causalidade, o modo como o Diverso é produzido. Logo, o princípio de causalidade tem que ser ele mesmo plural. Esse princípio de causalidade plural deve explicar porquê a natureza não vem do nada e não vai para o nada; porquê nem tudo nasce de tudo ou de qualquer coisa; e porquê ela não se totaliza, ela não se fecha nunca. Então ele tem que dar conta dessas coisas.

Um outro axioma de Epicuro é o seguinte: a natureza, que é feita de seres ou de compostos, e que tem seres simples que formam os compostos, forma uma soma, uma soma infinita de seres simples. Por que uma soma infinita? Uma soma infinita porque, se fosse finita, deveria ter uma extremidade, uma extremidade cujo outro lado seria outro ser que faria frente a este ser finito ou a essa soma finita de seres. Se os seres simples são seres essenciais, são seres eternos e são o estofo de toda a natureza, eles não podem ser limitados por nenhum outro tipo de ser; ou seja, se eu vou até a extremidade do universo, eu encontro, além dessa extremidade, a sequência desses mesmos seres – e assim ao infinito. Ou seja, não há a extremidade; não há nem a extremidade nem o outro que modificaria esses seres simples. Eles criam a visão de infinito, eles criam a visão de universo aberto.

Assim como a soma de seres simples é infinita, existe um outro elemento intangível, que seria como um não ser; no entanto ele é real e, tal qual no estoicismo, esse ser real, ao mesmo tempo que é impalpável, é o lugar onde tudo se passa. Ele é o vácuo, ele é o vazio. O vazio é real. Mas não há vazio finito para uma soma infinita de seres simples; logo, o próprio vazio tem que ser infinito. O vazio tem que ser infinito na medida em que o universo é uma totalidade aberta; o único modo de você explicar o Diverso é que essa totalidade permaneça aberta, uma soma infinita e aberta. Senão você já fecha o Todo e explica a diversidade por uma falsa unidade, uma falsa totalidade. Então, para você manter o universo aberto, a concepção é de seres simples numa soma infinita. Mas você não tem uma soma infinita se o vazio não for infinito. Por outro lado, se esses seres simples fossem finitos, eles se dispersariam num vazio infinito: o vazio infinito faria com que esses seres simples simplesmente se dispersassem a ponto de não formarem nunca nenhum composto. Logo, tanto é necessário que o vazio seja infinito quanto a soma dos seres simples ser infinita. Então esses são os dois primeiros infinitos, os dois primeiros verdadeiros infinitos, que vamos opor depois aos falsos infinitos.

O outro infinito seria a própria soma desses seres simples e do vazio. A soma dos seres simples e do vazio forma uma outra soma na qual os átomos expressam o seu movimento. Há uma expressão de movimento do átomo no vazio. Na medida em que o átomo se move no vazio e se compõe com outros átomos, ele se soma a outros átomos e ao mesmo tempo ele engloba vazios entre eles. E há somas infinitas de vazios e de átomos. Por isso a soma do vazio com os átomos, ou a soma de átomos e vazio, gera um outro infinito que seria o terceiro infinito.

Está meio abstrato, não é? Então vamos para uma coisa bem concreta, só pelo pensamento.

Vamos de novo então à questão dos infinitos e depois nós chegamos na questão do indivisível. Por que indivisível? Porque se dividisse ao infinito, chegaria no nada. Há necessidade de um estofo. Que estofo é esse? Eles chamam de átomo, eles chamam de indivisível. Use só o pensamento; se você imaginar o átomo você não atinge, a imaginação não atinge nada, tem que usar o pensamento. Se você subdividir ao infinito o átomo ele se dispersa e se fragmenta e vira poeira, e vira um nada. Então a base fundamental, o princípio fundamental do indivisível é exatamente essa consistência mínima: o universo não vai para o nada, ele chega nesse mínimo indivisível.

Só que não há um mínimo indivisível, há uma pluralidade infinita de mínimos indivisíveis.

Participante: diferentes?

Diferentes e semelhantes. Nós já vamos ver porquê. Em quê eles são diferentes, em quê eles são semelhantes.

Participante: isso é um princípio – você não pode chegar a um único elemento.

Exatamente. Você não chega num único elemento.

Participante: mas a ciência… quando se busca a substância, a substância é única, não é isso?

Espinosa vai ter uma ideia de substância absolutamente infinita, é uma substância que é composta, constituída por infinitos atributos infinitos – que é uma coisa que, no fundo, é mais ou menos o que a física quântica libera, num certo sentido. Cada partícula tem uma dimensão, gera uma dimensão. Então haveria infinitas dimensões. Assim, a substância infinitamente infinita ou absolutamente infinita de Espinosa. No caso de Epicuro e Lucrécio, você tem o clinâmen, que se dá num tempo infinitamente menor que o mínimo de tempo pensável – que é uma coisa que já chegamos lá. Vamos explicar essa coisa pelo clinâmen.

Participante: existem infinitas velocidades, não é?

Infinitas velocidades, com certeza. Porque em Epicuro e Lucrécio tudo é questão de velocidade.

Movimento, velocidade, lentidão e tempo. É uma filosofia extremamente moderna.

Participante: geniais. Pensar isso naquela época! Muito louco!

Então o que é fundamental para se entender o átomo, o indivisível, é se entender que ele é algo que não é objeto da nossa sensibilidade – ou seja, ele não é sensível, ele não é visível, ele não é audível, você não toca nele. No entanto, ele – que é puro objeto do pensamento e que se dá num tempo menor, ou que se move num tempo menor do que o mínimo de tempo sensível – acaba tendo uma consistência mínima que impede que ele seja destruído. Essa consistência mínima é que se chama indivisível. “Átomo”, em grego, é exatamente indivisível: tomo é divisão ou parte; átomo é indivisível.

Então ele é um soma, ele é um corpo, ele é um corpúsculo indivisível. Ele é o mínimo que mantém o estofo da natureza; é de onde a natureza gera os compostos e para onde os compostos voltam. Ou seja, nada vem do nada e nada vai para o nada; tudo vem desses indivisíveis e volta para esses indivisíveis. A questão é essa. E indivisíveis no vazio. E vazio nos indivisíveis.

Participante: nos indivisíveis?!

Nas composições dos indivisíveis e não nos indivisíveis.

Epicuro faz uma analogia entre a sensibilidade e o pensamento: ele compara o tempo inteiro o pensamento e a sensibilidade. Então ele diz o seguinte: da mesma maneira que, no objeto sensível – que é objeto da sensibilidade – eu encontro mínimas partes sensíveis… Por exemplo, eu vejo um objeto; então, a visão encontra elementos mínimos que me lançam luz desse objeto. Esse elemento mínimo forma uma mínima parte visível do objeto, por exemplo. Como num som: eu posso encontrar mínimas partes audíveis de um som. E por aí vai. Então Epicuro diz que existem mínimos sensíveis.

Do mesmo modo que o objeto sensível é objeto da nossa sensibilidade, o átomo é objeto do nosso pensamento – o indivisível é objeto do pensamento. E esse indivisível tem mínimas partes – partes mínimas pensáveis – como partes de matéria. Essas partes mínimas pensáveis são as mínimas partes pensáveis do indivisível. Ou seja, ele – enquanto indivisível – tem aspectos mínimos que fazem com que eu o enfoque segundo esses aspectos, segundo essas partes. Não significa que eu estou dividindo o indivisível.

Participante: não era o mínimo de consistência pensável? Por isso eu não entendo por quê precisa do conceito de partes, ainda, do mínimo.

Vou te dizer porquê. É o princípio do Diverso, um princípio rigoroso e causal.

Participante: é subatômico.

Exato. É o que ele chama de figura ou forma do átomo, e a grandeza do átomo. Então vamos voltar para um outro elemento, daqui a pouco eu explico isso aqui melhor.

Se o átomo tem mínimas partes pensáveis, assim como objeto sensível tem mínimas partes sensíveis, essas mínimas partes pensáveis são os aspectos pelos quais o átomo condiciona a conexão com outros átomos; ou seja, é a condição de encontro do átomo. O átomo gera um modo seletivo de composição com outros átomos que faz dele um verdadeiro germe, uma verdadeira semente; e uma semente não se compõe com qualquer outra semente. Logo, um átomo não se compõe com qualquer outro átomo. É um critério de conexão, de agenciamento, de ligação; é um critério seletivo que faz com que o átomo tenha aspectos de conexão, figuras, formas. Essas figuras, essas formas, são como faces do átomo que se encaixam com outras faces de outros átomos. Seria mais ou menos isso. Seria uma qualidade expressiva e conectiva do átomo.

E a grandeza do átomo é indefinida mas não é infinita, da mesma maneira que a forma ou a figura do átomo é indefinida mas não é infinita. Ou seja, há uma pluralidade, há uma variedade de formas e figuras, mas não uma infinidade; há uma pluralidade, há uma variedade de grandezas ou de tamanhos de átomos, mas não uma infinidade. Por que? Porque se fosse uma infinidade, se a grandeza fosse um infinito ou se a figura fosse um infinito, o átomo se tornaria sensível. Se o átomo se torna sensível, ele perde a condição de ser simples. Então eles estão formando um diagrama de composição da natureza. Para que a natureza se explique de modo rigoroso, é impossível que as figuras e as grandezas dos átomos sejam infinitas.

Participante: por que ficaria sensível?

Ficaria sensível porque se você tem infinitas grandezas, você tem tamanhos maiores, ou seja, partes maiores – ou já partes sensíveis. E ao mesmo tempo, figuras que se comporiam de modo tal que faria de um átomo um elemento sensível. Ou seja, você tem uma infinidade na parte indivisível.

Ou seja, isso seria um falso infinito. Então é necessário que o átomo tenha figuras diversas, heterogêneas; tenha grandezas diversas, heterogêneas, plurais; mas que essas grandezas e essas figuras não sejam infinitas, sejam apenas indefinidas. Isso é essencial. É isso que faz de um átomo um germe, uma semente.

Participante: quer dizer então que o pré-sensível, que seria um átomo, que é o pensável, traz em si o princípio da diversidade – é isso que você está querendo passar para nós – que é finito.

Mas não é o princípio da diversidade, é a condição da diversidade. O princípio nós já vamos atingir agora. Mas não é o princípio, é a condição. A condição da diversidade é a condição de um composto sempre diverso – enquanto espécie, enquanto indivíduo, enquanto partes de um indivíduo.

As partes do indivíduo são diversas, são heterogêneas; os indivíduos de uma mesma espécie são diversos, a individualidade distingue um indivíduo de outro; e as espécies entre si são diversas. E os mundos são diversos entre eles – ou semelhantes, mas nunca idênticos, nunca iguais. Eles são semelhantes como os indivíduos de uma mesma espécie são semelhantes num certo sentido, e são diferentes em outro sentido.

Participante: idêntico a si próprio.

Não, idêntico nunca. Nem a si próprio. É diverso de si próprio, é sempre diverso de si próprio. Varre a identidade até de si próprio. Não tem identidade.

Participante: até o indivisível não é uno.

Até o indivisível vai ter o princípio do Diverso nele mesmo. É isso que nós vamos atingir agora.

São partes indecomponíveis. Não decompõem o átomo. No entanto, são aspectos ou condições do encontro do átomo: ele se encontra sob essas condições, essas condições são como que um filtro seletivo nos encontros dos átomos.

Participante: por que você não chama de qualidades?

Pode chamar de qualidades.

Participante: essas condições subatômicas é que seriam o clinâmen?

Não, o clinâmen já é princípio e não condição; o clinâmen é princípio.

Vou te dizer porquê eu não chamo de qualidade: porque qualidade já é uma qualidade sensível.

Participante: então é como se fosse um equivalente de uma qualidade, só que no pensamento?

Seria uma qualidade subatômica.

Participante: porque aí não é diferente de uma parte.

Aí não é diferente.

Participante: eles não chegaram a dar o nome de prótons e elétrons e nêutrons?

Mas eles vão muito mais longe do que uma física atomista, neste sentido; eles se aproximam muito da física quântica. Ou melhor, a física quântica se aproxima muito deles, porque eles vão direto ao osso, mesmo.

Participante: a atomista pegou isso do jeito que o ocidente pegou todo o resto.

Exatamente.

Participante: e colocou num modelo.

Então você tem aqui o seguinte: você tem agora a condição e o princípio do encontro dos indivisíveis, dos átomos. O que seria a condição? As figuras, as formas e as grandezas. O princípio seria um elemento, uma síntese do movimento que muda a direção das coisas. Os átomos, os indivisíveis, no vazio, tenderiam a um movimento paralelo, digamos – eles não teriam nenhuma razão para se encontrarem. Mas, no entanto, eles se encontram, eles se compõem, eles formam o mundo, eles formam infinidades de mundos; eles formam pluralidades de espécies, pluralidades de indivíduos, pluralidades de partes no próprio indivíduo; eles geram isso tudo. Ou seja, eles formam condensações, densidades, aglomerados, corpos, compostos – eles formam isso. Então existe movimento que faz compor, que faz chocar, que faz unir, que conjuga, que coordena, que alterna; existe uma pluralidade de movimentos que fazem com que os compostos venham à luz, sejam produzidos pela própria natureza. Que fazem com que o Diverso seja produzido, que a pluralidade seja produzida. E uma pluralidade produzida pela própria pluralidade. Uma pluralidade simples que produz uma pluralidade composta.

Da mesma forma como nós temos mínimos sensíveis e mínimos pensáveis, nós vamos ter também mínimos de tempo sensíveis e mínimos de tempo pensáveis. O que seria isso? O mínimo de tempo sensível é aquele mínimo movimento gerado por uma qualidade sensível, por uma imagem, que faz com que eu perceba um objeto material através da sensação; então esse mínimo de movimento é, ao mesmo tempo, um mínimo de tempo. Assim com eu tenho um mínimo material, uma parte mínima material, eu tenho também um mínimo de movimento, um mínimo de tempo. Isso se dá ao mesmo tempo: a mínima parte e o mínimo de movimento – no sensível.

No pensamento, a mesma coisa: eu tenho uma parte mínima pensável do átomo, e eu tenho um mínimo de movimento. O que seria o mínimo de movimento? Diz Epicuro, na carta a Heródoto: o átomo vai tão rápido quanto o pensamento, a velocidade do pensamento e do átomo é a mesma.

Porque, no fundo, o objeto do pensamento – que é o átomo – e o sujeito do pensamento – que é também o átomo – acabam sendo o princípio dessa identidade de movimento entre pensamento e átomo. Logo, eu tenho um mínimo de tempo pensável. Qual seria o mínimo de tempo pensável? Diz Epicuro: é o mínimo de tempo que o átomo percorre no vazio sem ser perturbado por outro átomo – ou seja, sem se chocar ou sem encontrar outro. É aquele mínimo onde ele tem uma direção própria.

É a direção do átomo, é a direção imanente a ele mesmo; ele tem uma síntese do seu movimento que dá uma direção para esse movimento. Essa síntese desse movimento, que dá essa direção, faz com que o átomo se mova no vazio, sem ser perturbado, num mínimo de tempo pensável. Então esse mínimo de tempo pensável é o tempo do pensamento.

Mas haveria, da mesma forma como existem tempos menores do que o mínimo de tempo sensível, haveria também um tempo menor do que o mínimo de tempo pensável. Epicuro e Lucrécio vão dizer o seguinte: os átomos se encontram, se conjugam, se compõem, formam compostos, porque existe uma declinação neles mesmos; eles têm uma declinação ou eles têm um clinâmen, um desvio. Os átomos são esquizofrênicos, digamos assim; há um elemento esquizo no átomo que faz com que ele tenha uma direção que não é a direção do composto, que não é a direção do mundo – é a direção imanente a ele mesmo. Aquilo que Deleuze chama de ponto de demência: esse é o ponto de demência do átomo. Ele tem a sua direção imanente, intrínseca.

Essa direção imanente não é uma indeterminação; por isso o fundo do universo não é o indiferenciado.

Lucrécio usa o termo “incertos”. “Incertos” por que? Porque ele não é designável, ele não é atingível pelo pensamento; ele se dá num tempo menor do que o mínimo de tempo contínuo pensável.

Mas ele é uma determinação imanente; ele é uma determinação que acontece num tempo menor do que o mínimo de tempo pensável , mas é uma determinação. É a primeira síntese do movimento.

Não é uma síntese acidental. É por isso que não é acaso, que não é contingência. Tudo é uma autodeterminação.

O indivisível traz uma autodeterminação. O indivisível é a dobra mínima do real, é a consistência mínima do real. E essa consistência mínima do real já traz uma direção, já traz um sentido.

Esse sentido, essa direção se dá num tempo menor do que o mínimo de tempo contínuo pensável.

E isso é o clinâmen. O clinâmen é essa determinação imanente ao próprio indivisível, ao próprio átomo, que se dá num tempo menor do que o mínimo de tempo contínuo pensável.

Participante: um tempo menor é um tempo mais rápido. Um tempo em que ele percorre um espaço maior.

Só que aqui você pensa o tempo como sintoma do movimento. E o movimento, se você ultrapassa essas dimensões espaciais, você não espacializa mais nem o movimento nem o tempo. Einstein fez uma série de equívocos nas suas interpretações da física quântica porque ele espacializou o tempo; existe até uma imagem do super-homem dando voltas na Terra, num tempo mais rápido do que o movimento da Terra, no sentido contrário, como se ele fosse rejuvenescer. Isso é espacialização do movimento, espacialização do tempo. O tempo e o movimento são imanentes a eles mesmos, eles não são espacializados – ainda que haja uma expressão espacial. Mas você não pode submeter o tempo ao espaço.

Participante: entre as questões clássicas e as questões quânticas, há essa questão da relatividade.

Participante: você pode explicar o que é a direção do átomo? Que, com certeza, não deve ser uma direção espacial.

A direção do átomo é o seguinte: no fundo, o que é o clinâmen? Ele é um conatus. “Con”“atus”: agir com. É um ato imanente ao indivisível. O que seria esse ato imanente? Existe uma ficção, uma banalização de Epicuro e Lucrécio, dizendo assim: “com o seu peso, os átomos caem do alto para baixo”. O que seria o alto e o baixo? O que é o vazio? No fundo o vazio é a superfície estoica. O que é o baixo? O baixo é a condensação, é a densidade, é a complicação, é a intensificação. Então, no fundo, o clinâmen é um conatus: ele se dirige à superfície. É isso que ele faz. É uma intensidade que se expressa. Isso que é o clinâmen. A primeira direção de uma natureza seria uma expressão.

Manifestar uma expressão.

Essa expressão necessariamente encontra-se com outras na superfície dos encontros; tudo é superfície de encontros, não tem como não se encontrar na superfície. Então o primeiro desvio é desviar-se para a superfície.

Participante: não é uma evocação, certo? Ele não é evocado.

Não, ele não é evocado. Ele se encontra, ele se autocoloca, ele se autopõe; ele não é evocado, ele é imanente, é um ato imanente ao próprio átomo, ao próprio indivisível, à própria consistência mínima do real. Há uma direção imanente, há uma atitude primária, originária, anterior ao encontro do espaço e do tempo. Há um tempo anterior ao tempo do encontro; esse tempo anterior é a própria razão do encontro.

Participante: ainda assim, essa emanação tem as suas mínimas partes ou as suas qualidades; é o que vai fazer com que esse átomo se encontre com outros átomos que tenham combinação.

Então aí você tem as condições do encontro na superfície. Condição não é princípio. Você tem o princípio, que é o clinâmen; e a condição, que são as partes mínimas. Então você tem um tempo menor que o mínimo de tempo pensável, que é o princípio de afirmação, digamos assim – é o conatus do átomo.

Participante: que você não pensa.

Que você não pensa mas que você sabe que ele está aí; porque se ele não estivesse aí, seria impossível haver composição. É por isso que só o pensamento atinge isso, e não a sensibilidade – não tem como a sensibilidade atingir isso. É como se eles dissessem assim: se isso não existe, deveria existir. É um imperativo, é necessário que seja assim para a natureza funcionar desse modo e para que a liberdade seja imanente a nós mesmo. Isso é uma postura ética. É por isso que a ética dirige a física também; não é que a ética falsifica a física – não é falsificação, é pensamento puro.

Participante: eu posso pensar que o clinâmen traz condições de composição?

O clinâmen é princípio de composição, ele é a razão do encontro. Não há encontro sem clinâmen, sem o desvio, sem o elemento esquizo do átomo.

Participante: é pelo clinâmen que o átomo se move.

Não é o clinâmen que faz o átomo ter movimento; o clinâmen é a direção do movimento. Ele é uma síntese do movimento imanente do átomo.

Participante: uma direção desviada, você falou.

Participante: é uma direção própria, não é?

É uma direção própria, é isso. Ele é um elemento esquizo, ele é um elemento que desvia.

Desvia para onde? Ele sai de uma profundidade… Imagine o buraco negro: o que é a definição de buraco negro em física? É aquilo que não tem superfície, certo? Quando uma luz chega até a superfície desse elemento, é tragada por uma profundidade negra cuja gravidade é tão poderosa, cujo elemento é tão compacto que atrai, que não deixa chance para essa luz se refletir na superfície. Então ele suga toda a luz. É como se o átomo sem clinâmen fosse um buraco negro; no fundo, o átomo é o que gera a superfície. O átomo é que gera a razão do encontro. Não há encontro que não seja numa superfície.

Participante: e o clinâmen é essa emergência.

O clinâmen é essa emergência, ele é um conatus; ele é um impulso, uma tendência, um esforço, um élan.

Participante: você falou que ele traz as propriedades de composição.

Não é propriedade, é princípio.

Participante: os princípios para compor.

Ele é o próprio princípio de composição. As propriedades – o que estamos chamando aqui de condições de composição – são a forma ou a figura, e a grandeza.

Participante: que não é inerente ao clinâmen.

E Epicuro ainda diz: o peso. Eu não estou usando esse termo “peso” porque confundimos. No fundo, o que Epicuro quer dizer é que é uma condensação: existem indivisíveis mais condensados e outros menos condensados; aí o efeito é que uns são mais leves, outros mais pesados. Porque é a própria composição que gera a gravidade e o efeito de peso – o efeito de peso já é um efeito secundário.

Mas, no fundo, o que ele quer dizer não é o peso como nós entendemos peso nesse sentido de gravidade – por isso que eu não estou usando aqui peso; mas no fundo são essas três propriedades.

Peso (vamos usar aqui densidade), forma ou figura, e grandeza. Essas seriam as propriedades ou as condições do encontro. Mas a razão ou o princípio do encontro é o clinâmen.

Participante: ele é anterior.

Isso, ele é anterior.

Participante: quando você fala da questão da autoexpressão, que o clinâmen seria a autoexpressão…

Isso mesmo, é a autoexpressão do real.

Participante: é um real…?

É como se o real tivesse dois planos: uma profundidade e uma superfície – agora fazendo uma tradução estoica, eles não usam essa linguagem; inclusive eu estou aqui dando uma outra interpretação, dizendo que o clinâmen seria um impulso em direção à superfície. Mas é isso. Eu estou dizendo isso porque é isso; nunca ninguém disse isso mas eu estou dizendo agora. É aquela coisa: se não disseram, deveriam ter dito.

Participante: na autoexpressão, o efeito na superfície não importa. Mas você está usando isso como referência.

O que é importante é que há um elemento mínimo, um corpúsculo indivisível, que tem direção própria. Isso é que é fundamental. E essa direção não é captada pelo pensamento; o pensamento já é desviado nessa direção. É como o elemento paradoxal da Lógica do sentido – quem leu a Lógica do sentido sabe, esse elemento paradoxal onde você não capta, você já está no desvio, você já é desvio, você já é linha de fuga; não tem como você se antecipar nele, ele é imprevisível. No entanto, ele não é uma indeterminação, porque levaria a natureza para um fundo indiferenciado. E é isso que eles dizem: é impossível que o fundo da natureza seja indiferenciado, porque senão não explicaria a diversidade das coisas. Tudo é diverso, tudo é plural; então o próprio princípio tem que ser diverso e plural.

Agora, cada átomo tem seu clinâmen. Então aqui chegamos numa segunda questão. Estávamos dizendo que os átomos são germes ou são sementes; então um composto é feito por átomos diversos e, ao mesmo tempo, por átomos semelhantes. Se o átomo tem partes indefinidas – mas que não são infinitas – como a grandeza e como a figura, isso implica em afirmar que há uma infinidade de átomos de mesma figura e mesma grandeza. Senão eu não teria como manter o infinito da soma dos átomos. Então há uma infinidade de átomos da mesma figura – ou de figuras semelhantes, porque esse “mesmo” aqui é um semelhante, nunca é um idêntico. E por que não é idêntico? Porque o clinâmen…

Participante: é diferente.

Mesmo que seja um mínimo dos mínimos dos mínimos, a diferença mais mínima que possa existir, mas há uma diferença lá no fundo que impede que se identifique. É próprio daquilo.

Participante: senão seria uma repetição e não um clinâmen.

Exatamente. Então há uma infinidade de átomos semelhantes. Logo, os compostos são feitos não só de átomos diferentes, como germes, como também de átomos semelhantes. Na aula passada eu fui direto nessas coisas e fui logo para a ética, para a questão prática; e agora estamos entendendo com mais rigor essa questão, só com o uso do pensamento. Não precisa de mais nada – não precisa ser especialista em nada, ter nenhuma erudição, é só o pensamento que está ali.

Participante: porque todas essas unidades que estamos falando aqui são unidades de pensamento.

Apesar de que os substantivos que usamos são de espaços etéreos. Grandezas físicas – é peso, é movimento, velocidade, direção; então ficamos muito tentados a cair do pensamento.

Mas Epicuro parte da sensibilidade. E por que? Se ele é naturalista, se ele determina o objeto especulativo como phýsis ou natureza, e o objeto prático como o prazer – e ele não acredita nem em divindade nem em racionalidade humana arbitrária -, é porque, na sensação que é natural, na sensibilidade que é natural, existe fonte de conhecimento. A sensibilidade, a sensação, é perfeita; e se ele faz um método de analogia ou de comparação entre sensibilidade e pensamento, é porque ambos são perfeitos. Ele não usa a sensibilidade como uma muleta imperfeita que levaria ao pensamento perfeito. Ele não é um asceta, ele não é um moralista. Ele diz: a sensibilidade é perfeita, o composto é perfeito, tudo é perfeito na natureza. A única imperfeição é aquela que vem da superstição através da incapacidade, que às vezes surge, de captarmos certas emissões, certas emanações de fluidos muito rápidos – que são os simulacros, que são os fantasmas de terceira espécie que depois voltamos a explicar melhor.

Participante: então todas essas unidades que estamos trabalhando aqui tanto servem para o pensamento quanto servem para o sensível. É como se houvesse uma diferença de grau de uma natureza única.

Exatamente. Vamos ver o que é o sensível. O sensível já é no composto. O que é o sensível?

O sensível é um composto de segundo grau. Há um composto de primeiro grau que, ao se compor, gera qualidades – agora é qualidade, especificamente para o sensível. Então o composto traz qualidade – o que Epicuro chama de alma e Lucrécio chama de anima mesmo. E ânimus, que seria o espírito, aí já é o pensamento; mas o pensamento é inteiramente afetivo também – daqui a pouco chegamos nisso. Então o que seria a alma? A alma é exatamente o efeito dos compostos, o efeito de um composto; a alma seria o entre composto. Ela é um entre, ela é uma qualidade que emana do composto.

Participante: e é corporal.

É inteiramente corporal. A alma é corpo. Sensações. A animação são os sentidos: o ouvir, o ver, isso tudo é alma.

Participante: mas sem a função. Não é o ouvir como função audição.

Tem também isso. O que é o ouvir, o ver, o cheirar, o saborear, o tatear? Já são as qualificações da alma ou do sensível, são as faculdades da alma: há uma faculdade de ver, uma faculdade de ouvir. Quer dizer, há uma capacidade de ver, há uma capacidade de ouvir, há uma capacidade de sentir, enfim. A alma é sensível, a alma é inteiramente sensível.

Participante: mas aí estamos em composição de primeiro grau?

Então a alma se move, é preenchida, é atingida – e atinge – imagens sensíveis. A alma se movimenta nisso. Então ela se movimenta em compostos de segundo grau, que são já efeitos da composição. A imagem já é um efeito de composição. Daqui a pouco chegamos um pouco melhor na imagem.

(Brincadeiras e risos)

É duro mesmo, é complicado. É como diz Espinosa: se fosse tão fácil, como é que a maioria do povo cai na superstição? É isso mesmo, tem que ter um exercício de pensamento. Agora, não é aquela coisa sofrida, complexa, que a imaginação imagina. É um esforço, é uma força, é uma potência de penetrar a natureza, absolutamente prazerosa. Então não é aquele esforço tacanho da imagem que explica outra imagem por outra imagem – não tem nada a ver com isso. Realmente, quando você penetrando, a coisa vai se expressando ao mesmo tempo; e quando a coisa se expressa, é como diz Merleau-Ponty: essa ideia é eterna. Nunca mais você esquece. Essa memória é uma memória ontológica. Você esquece dela e ela volta; ela volta, se apodera de você, se conecta com outras coisas. Então são essas expressões da própria natureza que temos que atingir. E é difícil? É difícil. Mas é isso que te dá leveza e serenidade. Sem isso aí, você não dança. Você “dança” (risos).

Mas dançar serenamente não dá.

Então vamos lá. Se você tem o clinâmen, que é a razão do encontro, e cada átomo tem o seu próprio clinâmen, evidentemente – o clinâmen é imanente ao átomo – , isso significa que a causa (que é o que eles dizem desde o início, o princípio causal) é o próprio átomo. Então o átomo no movimento, com a sua direção própria, já é uma série causal, já é um processo, já é um devir, já é um movimento autônomo. Então cada átomo, ou cada série produzida por um átomo, já é autônoma, já é diferenciante por si própria; tudo na natureza é feito e composto por séries diferenciais autônomas.
É por isso que eles dizem que as causas não encontram uma unidade, como seria o caso dos estoicos.

Nos estoicos. as causas se encontram na unidade presente e absoluta de um fogo primordial; e os efeitos levariam para uma conjugação de acontecimentos. Mas, claro, os estoicos. têm uma outra maneira de operar e eles vão ser livres simultaneamente no corpo e no acontecimento, afirmando o destino como o destino de uma força que quer se efetuar. O destino de uma força é se efetuar. Não é o destino que está escrito nas estrelas a partir de uma forma; é uma força que se efetua. Então, neste sentido os estoicos. não introduzem a necessidade no destino. A necessidade não é introduzida quando eles unificam as causas; a unificação da causa significa simplesmente que toda causa se efetua – é isso que significa para os estoicos.

Mas, ao mesmo tempo, os estoicos. acusam os epicuristas: “vocês não podem romper com a unidade das causas sem introduzir na natureza o acaso e a contingência; então tudo é contingente para vocês”. Os epicuristas dizem: “não, tudo é autodeterminado”. Por que? Porque o clinâmen já é uma determinação originária do movimento. Então há uma determinação, há uma diferenciação; no fundo, não é numa contingência porra-louca que aconteceriam os encontros de uma forma absolutamente arbitrária: há uma autodeterminação imanente, originária, em cada microelemento, em cada corpúsculo, em cada indivisível.

Participante: o que é contingência, mesmo?

Contingência é o acaso dos encontros: tudo se dá por acaso sem nenhuma razão, sem nenhuma determinação. Tudo é indeterminado: determina-se por um choque absurdo qualquer. Seria uma contingência. E eles dizem que não: tudo tem uma razão imanente interna para se compor.

Participante: por isso que o clinâmen é ininteligível, mas claro que ele existe – senão seria contingente.

Senão seria contingente e senão os compostos não teriam essa frequência que tem; não se alimentariam, na medida em que eles perdem elementos eles repõem elementos; não haveria repetição de semelhanças entre indivíduos, entre espécies, entre mundos. Ou seja, o Diverso seria um Diverso disperso. E um Diverso disperso sem nenhuma consistência que não se mantém. É por isso que é necessário ter uma razão imanente autodeterminada. O clinâmen é necessário. Então os epicuristas dizem: realmente as causas não se unificam, as séries causais são plurais e se mantêm plurais.

É mais ou menos como a sociedade tribal dos Nuer: eles se compõem em linhagens e nunca se fecham numa unidade de aldeia – sempre quando a linhagem atinge uma determinada extensão, eles se separam e formam outra linhagem. Então são sociedades segmentares, linhagens que nunca atingem uma unidade num chefe, numa família ou numa aldeia. Do mesmo modo o átomo: ele nunca fecha o composto, ele nunca unifica as causas de um mesmo composto. A unidade é um efeito de composição, não é causa de composição. A unidade é sempre efeito, a identidade é efeito, a semelhança é efeito; tudo o que usamos geralmente para racionalizar, para moralizar, para julgar, para estatizar, para dominar, os epicuristas dizem: são efeitos de composição, não são causa de nada.

Participante: a captura de uma imagem.

A captura de uma imagem.

Participante: aí o que Aristóteles fez foi pegar esses efeitos e começar a classificar. Dizer: é a partir da classificação que olhamos. Isso é que é interessante.

É isso mesmo. Epicuro diz o seguinte: o seu Uno não é nada mais do que o indivíduo levado à enésima potência; você tem uma imagem de unidade e leva essa imagem para o universo inteiro. O seu Ser a mesma coisa, o seu Todo a mesma coisa. O seu Ser, o seu Todo e o seu Uno – diz Epicuro – é cheio de buracos, é cheio de poros, é cheio de falhas, é cheio de aberturas, de entradas e de saídas. Como é que você quer fechar o universo num Uno, num Todo ou num Ser?

Participante: olha só que interessante: por que a transcendência engana? Porque justamente ela cria uma película dos efeitos arrumados e plastificados – essa é a questão que Foucault fala, do estrato e que você fala da transcendência. É como se criasse uma pele sobre a superfície, que é lisa, a partir dos efeitos congelados. Essa é a questão do virtual hoje, o tempo todo, da representação.

Então criamos uma pele sobre a superfície, congelando esses efeitos – que são considerados causas, na verdade.

No fundo, a fantasmagoria da natureza são essas emanações que toma como imagens. Descolamos as imagens das emanações, as imagens se separam e ganham autonomia; elas viram entidades.

Projetamos essas entidades para o fundo daquele ser que emitiu a imagem e dizemos “olha, a sua causa é essa imagem” – que no fundo é mero efeito fantasmático de superfície. Porque a natureza, o tempo inteiro, produz simulacros e fantasmas e nós pegamos esses fantasmas. É uma questão de velocidade: pensamos que essas imagens são fixas – quando, na realidade, não percebemos o quanto elementos móveis a compõem – e tomamos isso como algo eterno. É tudo uma questão de velocidade, de lentidão: de velocidade no pensamento, de velocidade na percepção.

O sistema capitalista, mais do que qualquer outro sistema, entendeu – de modo imanente, claro – a questão da velocidade; ele trabalha o tempo inteiro por velocidade e imagens. É o modo que ele tem de fazer com que o muro fique cada vez mais indestrutível.

Participante: mais denso.

Mais denso. É uma falsa densidade, uma falsa consistência esse muro da representação que separa, já a partir da moeda mesmo, com o poder de compra e de venda – a moeda já é esquizofrênica, ela já forma esse muro e ajuda a alimentar. E o tempo inteiro os nossos territórios existenciais são alimentados por ele.

Participante: vamos tentar de novo fazer o paralelo entre o sensível e o pensamento? Como é isso? Um segundo round nisso.

Epicuro inventa um método. Método é caminho. Para atingir o quê? Onde ele quer chegar?

Onde vai desembocar o caminho dele? Lá no fim estaria o prazer e a felicidade, ele é um hedonista.

Ele só acredita nisso, a natureza é prazer, felicidade, alegria. Então o método ou o caminho que ele inventa é um caminho de analogia – bem entendido: não tem nada a ver com a analogia do Ser que criticamos. Analogia significa comparação: ora você está num plano, ora está no outro; ora está no plano sensível, ora está no plano do pensamento. E vice-versa. Se ora você está num plano, ora está no outro, você passa de um para outro; então o método dele, ao mesmo tempo que é de analogia, é de passagem. O tempo inteiro ele faz você passar – você é transportado do sensível para o pensável e do pensável para o sensível. Esses são os atributos essenciais do método de Epicuro.

O que ele encontra aí? Ele parte de onde? De uma natureza que é perfeita. Então toda imagem é perfeita, até o fantasma é perfeito – enquanto fantasma. Então tudo é perfeito. As sensações não mandam informação de longe, simplesmente, e atingem a minha alma, modificam a minha alma, e eu vou ter uma imagem simplesmente dessa sensação que veio de fora. Diz Epicuro: é a própria realidade que impressiona a minha alma. Então a sensação, a imagem, o som, tudo chega até mim como deveria chegar – não tem imperfeição nenhuma.

Mas o que ocorre? Ocorre que essas emanações têm um caminho a percorrer; e nesse caminho a percorrer elas se enfraquecem, elas já não representam tanto aquele objeto. Quer dizer, elas vão se afastando um pouco do objeto. É isso que ocorre. No entanto, elas chegam como deveriam chegar. Por que? Elas atravessaram aquele caminho todo, elas já são efeito de todo aquele caminho.

Isso que é um simulacro, ele é efeito daquilo. Mas ele é real, ele é aquilo que tem que ser, mesmo.

Agora, o problema é que eu acrescento juízo a isso; então, no momento em que eu atribuo verdade ou falsidade a isso, é que a coisa complica. E geralmente eu atribuo verdade ou falsidade a partir de uma dupla ilusão: a ilusão da infinita capacidade de obter prazeres, infinita capacidade desejante, e a duração infinita da alma que é o efeito disso, com a consequente punição infinita. Então eu vou começar a julgar as sensações a partir desses efeitos de inquietação da alma. Mas nisso eu não cheguei ainda, daqui a pouco eu chego.

Voltando: a sensação é o que tem que ser. É necessário você criar critérios para que a sensação te dê o que ela tem que te dar. Então ele diz assim: vamos por esgotamento. Então você esgota.

O olho, por exemplo: eu estou vendo um objeto, eu estou vendo aquela luz vermelha da câmera.

Ou então um outro exemplo mais interessante. Don Juan diz para o Castañeda: você tem que atingir os buracos do real. E existe um exercício para isso: ao acabar o dia, ao entardecer, você observa o último raio de sol que você consegue captar; no momento em que você capta o último raio de sol, você pode entrar em outras dimensões, você pode ultrapassar o sensível. É só isso que ele quer dizer. Então há um limite aí, há uma mínima parte sensível que você consegue ver. Qual o mínimo que te faz dizer “isso ainda é um raio de sol”? Epicuro usa esse método, o método da exaustão: ele vai esgotando os processos.

Ele faz isso com o sensível e leva isso para o pensamento também, faz a mesma coisa com o pensamento. O objeto do pensamento é um indivisível – e já vimos porquê é indivisível: porque senão a natureza vira um nada. Há uma hora em que ele tem que ser indivisível. O mínimo de consistência do real, o mínimo estofo do real. E assim vai. Aí ele encontra as mínimas partes desse indivisível. As mínimas partes são as condições do encontro: figura e grandeza, assim como densidade (que ele chama de peso). Então você tem as mínimas partes materiais do átomo.

Você tem também o mínimo pensável: o mínimo pensável é o movimento do átomo no vazio sem ser atingido por nenhum outro átomo. Esse mínimo de tempo, esse mínimo de movimento no vazio sem ser desviado por outro átomo te dá uma continuidade: é o mínimo de movimento contínuo e que gera o mínimo de tempo contínuo. Se o átomo vai tão rápido quanto o pensamento, esse movimento do átomo é também o tempo do pensamento. Então o pensamento atinge o mínimo de tempo pensável. Aquilo que se pode pensar, o pensamento mais rápido, mais veloz, é exatamente esse indivisível que você atinge.

Participante: que é aquele último raio de sol.

Isso. No pensamento é esse movimento do átomo, é o tempo do átomo, é a velocidade do átomo; é a velocidade absoluta do pensamento. É o pensamento se apreendendo a ele mesmo, é o pensamento se pensando. Aí você está no movimento do átomo.

Mas ele diz mais: haveria um tempo menor do que esse mínimo; ou seja, um tempo que o pensamento não apreende. No entanto, ele está lá. Por que? Porque há uma direção do átomo, há uma razão do encontro do átomo; então deve haver o clinâmen, é necessário que haja o clinâmen, é necessário que haja uma determinação original do movimento, primária do movimento.

No caso do sensível, há um mínimo de movimento da imagem que faz com que eu a perceba, com que ela toque a minha alma, a minha qualidade sensível. Há uma mínima parte material e um mínimo de movimento que expressa um mínimo de tempo, é sintoma de um mínimo de tempo. Haveria um tempo menor do que o mínimo de tempo sensível, que é exatamente o tempo das emanações sutis, das emissões de profundidade e dos simulacros de superfície. É uma coisa que eu queria explicar na sequência, mas eu estou fazendo uma série de recortes aí porque vocês estão pedindo e eu estou recortando.

Mas o que compõe a imagem? O que faz a imagem são elementos mais velozes do que o movimento dela mesma; então a minha sensibilidade não percebe o simulacro, porque ele se dá num tempo menor do que o mínimo de tempo sensível. Então eu não consigo sentir o simulacro. Eu só sinto a imagem. Mas a imagem já é um composto de uma pluralidade de simulacros. E por que a imagem geralmente representa o objeto? Porque existe uma emanação dos corpos… por exemplo, uma rosa: ela emite um perfume. É uma emissão de profundidade. Então o odor, o cheiro da rosa, o tempo inteiro exala dela mesma. Por que? Porque aqueles elementos que se desprendem dela e atingem o meu olfato, ao mesmo tempo em que eles se desprendem dela, ao mesmo tempo em que ela perde esses elementos, ela os está repondo. Então ela continua emitindo aqueles elementos e o perfume tem uma repetição constante; essa repetição, essa emissão constante, essa reposição dos elementos constantemente, faz com que essa imagem olfativa seja remetida à rosa – então é a rosa que está emitindo aquela imagem. Isso é uma imagem sensível, isso é um composto de segundo grau, é uma imagem emitida por um objeto. No som é a mesma coisa, na visão é a mesma coisa, no tato é a mesma coisa. Só que o tato me põe em contato direto com a profundidade. E o som? O ruído da profundidade se torna voz numa superfície através de uma boca ou de uma superfície perfurada – então é uma emanação de profundidade que, ao atravessar a boca, vira voz. Mas essa voz é remetida a um emissor. Então a qualidade própria da sensibilidade, ou das imagens da sensibilidade, é que essas imagens são sempre remetidas ao objeto emissor; alguém está emitindo, algum composto está emitindo essas emanações, essas emissões.

Então temos compostos de primeiro grau que são encontros de átomos. Átomos que são diferentes e semelhantes: diferentes porque têm formas e tamanhos distintos; e semelhantes porque há também átomos de mesma figura ou mesma forma, e mesmo tamanho. Exemplo: você tem, no planeta Terra, átomos de ar, átomos de terra, átomos de água. Então os átomos tendem a se reunir no mesmo lugar com o máximo de semelhança, mas ao mesmo tempo eles formam partes heterogêneas – o mar é diferente da terra, que é diferente do ar, etc. Então a Terra é heterogênea, é feita de partes heterogêneas; então ela é feita de partes heterogêneas, essas partes heterogêneas vêm de átomos diferentes e, ao mesmo tempo, de partes semelhantes: a água é semelhante à água. Então há uma pluralidade de átomos, um conjunto indefinido de átomos semelhantes (de água, de ar, de terra).

Então há semelhanças e diferenças; eles se compõem e há essas partes que são semelhantes e diferentes ao mesmo tempo.

Participante: mas Epicuro trabalhava com átomos também para água, terra? Ou todos esses exemplos da phýsis podem ser usados tanto para o pensamento quanto para a própria phýsis também?

Sim.

Participante: então, é como se uma coisa e outra fosse a mesma coisa.

A filosofia vai além da ciência, a filosofia não se reduz à experimentação científica, a filosofia não precisa da comprovação em laboratório. O pensamento vai por si só, ele não precisa disso. A ciência depois vai lá comprovar, vai fazer um monte de coisas; mas o pensamento dispensa isso, ele não precisa disso.

Participante: árduo.

Está árduo porque eu estou só no especulativo; daqui a pouco eu vou para a ética.

Vocês já perceberam que tudo é uma questão de velocidade, de movimento, de tempo. Se você tem um mínimo de tempo sensível – que funda o objeto da sensibilidade, o objeto sensível -, você tem um tempo menor, ou elementos que se movem numa velocidade mais rápida do que a velocidade da própria imagem. Esses elementos é que compõem a própria imagem – a imagem é feita desses elementos. Epicuro diz: esses elementos vêm da profundidade dos compostos e da superfície dos compostos. O que vem da profundidade dos compostos são os quatro sentidos menos a visão; então o tato, a audição, a olfação, o sabor vêm da profundidade dos corpos. Os corpos emitem elementos sutis, mais sutis do que as imagens, são elementos sutis, que formam ou que compõem as qualidades; então a qualidade é um composto já de segundo grau, a partir do composto atômico.
Então esses eflúvios, essas emanações, essas emissões de profundidade já são emissões resultantes do composto. Essas emissões vão atravessar uma distância para atingir a alma ou a sensibilidade; aquele que ouve, aquele que cheira, aquele que saboreia, vai saborear, ouvir, sentir algo de um outro composto que tem que atravessar uma certa distância. Ao atravessar essa distância, esse elemento que atinge a minha alma ou a minha sensibilidade, vai atingir conforme os encontros e os obstáculos que teve que atravessar. Ele atinge daquela forma e ele é perfeito dessa forma. Quanto mais ele vem de uma profundidade, mais obstáculos ele vai enfrentar.

Então já existe diferença de velocidade entre os sensíveis. E é isso que explica que a visão acaba dominando como elemento representativo. Por que? Porque a visão se dá exatamente no reflexo da luz sobre o objeto; o reflexo da luz sobre o objeto faz com que uma casca, um envelope, alguma membrana se descole do objeto e atinja a minha visão. É essa a visão de Epicuro. Então as emanações de superfície – que ele vai chamar de eidolon e Lucrécio vai chamar de simulacro – são elementos sutis ainda mais velozes do que as emanações de profundidade porque os obstáculos que essas emanações enfrentam são muito menores – geralmente apenas o ar. E são muito mais sutis do que os átomos do ar, porque elas atravessam o ar numa velocidade que faz com que a imagem formada por esses elementos apareça como sendo uma coisa constante. É, na realidade, a velocidade das emissões, das emanações, que está alimentando e realimentando aquela imagem. É isso que ocorre. A imagem viaja.

Então as emanações de superfície – que são simulacros – vão ter uma propriedade representativa porque elas mantêm mais facilmente a ordem e a configuração do objeto. É por isso que associamos geralmente a imagem à visão e a visão acaba dominando. Porque, na medida em que enfrenta menos obstáculos, a imagem deforma menos o objeto, ela mantém a ordem e a configuração do objeto – pelo menos a ordem e configuração exterior do objeto. É isso que ocorre. Por isso a imagem acaba tendo essa propriedade representativa.

Então seguindo, vamos dar uma geral nas velocidades, nos tempos, e aí voltamos a distinguir os verdadeiros e os falsos infinitos e também os verdadeiros finitos. Aí voltamos para a questão central da ética que é a questão da inquietação da alma.

Repetindo: você tem o átomo, que é o objeto do pensamento, que se dá num mínimo de tempo contínuo pensável; você tem o clinâmen, que é a determinação primária do movimento do átomo, que dá direção ao movimento do átomo, que é a razão do encontro e da composição, é a razão gerativa dos compostos, que se dá num tempo menor do que o mínimo de tempo contínuo pensável; você tem a imagem, que é o objeto da sensação, da sensibilidade, que se dá num mínimo de tempo sensível; e você tem o simulacro e as emissões de profundidade, que se dão num tempo menor do que o mínimo de tempo sensível. E, claro, além disso as variações entre esses elementos; o tempo menor do que o mínimo de tempo sensível não é um tempo homogêneo, ele já é diverso nele mesmo. Tudo é diversificado, cada processo tem tempo próprio. É incrível, eles preservam a pluralidade, a diferença, em tudo; cada tempo é um tempo próprio de cada processo. É impossível você representar o tempo do outro. O tempo é imanente ao processo. Então, mesmo nas emissões de simulacros ou nas emissões de profundidade, você tem os tempos próprios e diferenciais de cada processo. É impossível você homogeneizar o tempo.

Então, o que você tem de verdadeiro infinito? A soma dos seres simples ou indivisíveis, que são os átomos; o vazio; a soma dos seres simples e do vazio; a soma de seres simples com mesma figura e mesma grandeza (ou seja: há uma infinidade de átomos semelhantes); e o quinto infinito é a infinidade dos compostos – dos indivíduos, das espécies, dos mundos. Os mundos são infinitos. Então mundos, indivíduos, espécies, partes; os compostos são em número infinito. Não é o composto que é infinito, é o número dos compostos, ou a soma dos compostos que é infinita. Então não há como fechar o mundo, não há como totalizar o universo numa unidade última ou primeira, num Ser último ou primeiro, num Todo último ou primeiro. A natureza não é coletiva, não é atributiva; a natureza é distributiva, é uma distribuição nômade de elementos diferentes e semelhantes, elementos indivisíveis no vazio – isso que é a natureza. Então você tem os cinco verdadeiros infinitos. O que é finito? Finitos são os compostos – não há um composto que seja infinito porque senão você totaliza. As formas, as grandezas e as partes dos compostos. Então são os elementos finitos.

De posse agora do que a física colheu, do que o pensamento especulativo colheu, nós vamos usar isso como meio para destituir a superstição gerada pelo mito ou pelos falsos infinitos a partir de uma postura imprudente, que levaria a essa inquietação. O que é a inquietação da alma? Vamos voltar à inquietação e aí voltamos com a solução. O problema de Epicuro é esse.

O objeto prático da filosofia é tudo que importa. Qual é o objeto prático? É atingir o prazer, atingir a felicidade, atingir a alegria. Esse é o objeto prático. O que se tem vulgarmente como obstáculo do prazer? A dor. Mas a dor, evidentemente, é muito simples de você eliminá-la – com alguns elementos orgânicos você dissipa a dor. Mas não é isso que ocorre geralmente na prática – nem em sociedade, nem em família, nem individualmente. O que geralmente ocorre é não só uma incapacidade de obter autênticos prazeres e de suprimir a dor, como a própria dor, que se torna invencível, é multiplicada.

Por que ela é multiplicada? Por causa de uma inquietação, de uma perturbação, de um terror vindo – diz Epicuro – de onde? De uma dupla ilusão. Que ilusões são essas? Ilusões geradas por falsos infinitos. Depois nós vemos como esses falsos infinitos são gerados.

O que são essas ilusões? Ilusão de uma capacidade infinita de obter prazeres, de uma capacidade infinita do nosso desejo em desejar objetos e ter prazeres com esses objetos. E o contraponto necessário, a contraparte necessária: um medo, um terror de castigos infinitos. É isso que forma o complexo estranho da dupla ilusão. Porque, na realidade, se eu tenho uma capacidade infinita de obter prazeres, evidentemente que isso vem de um falso infinito, vem de uma ilusão. Agora eu tenho a alma como incorpórea na medida em que ela teria uma duração infinita, vinda desse falso infinito do corpo, que é o desejo; e eu projeto na alma uma duração infinita: se ela tem uma capacidade infinita de obter prazeres, ela tem que durar um tempo infinito – é óbvio, é uma conexão óbvia.

Então, na mesma medida em que eu tenho uma capacidade “infinita” de obter prazeres, necessariamente esse tipo de prazer nunca se produz; o meu desejo é necessariamente frustrado. Na medida em que o meu desejo é necessariamente frustrado, eu já sou punido por ter aquele desejo.

Se eu sou punido em vida por ter aquele desejo, e se a minha alma vai ter uma duração infinita, imagine depois da morte então. Aí não tem como. É isso que aterroriza os homens. Ou seja, como diria Deleuze: o medo de morrer quando ainda não estamos mortos, porque isso implica em suprimir a nossa capacidade infinita de desejar e de obter prazer; e o medo e não estarmos mortos quando já estivermos – ou seja, o medo de a nossa alma ter uma duração eterna e estar sujeita e entregue aos castigos infinitos, à tortura infinita.

Ou seja, há um ambiente já, no helenismo e depois em Roma, para que o cristianismo se desenvolva; há um ambiente no Mediterrâneo de terror, de inquietação. Porque Epicuro está falando isso em 300, 280, 270 a.C. ; quer dizer, já tem essa coisa lá. E Lucrécio vive dos anos 90 aos anos 50 a.C.

Participante: mas essa ideia não é só do cristianismo, já existia antes.

Sem dúvida. Eu estou só dizendo que esse meio já está povoado e alimentado e realimentado por esses fantasmas. Aquilo está uma coisa incrível. Como é que se explica o fim do império romano e a emergência do império cristão? Não é uma coisa muito fácil de se explicar.

Participante: um meio fértil que estava pedindo, já.

Então é super-sintomático. O que Epicuro visa é exatamente tornar o homem livre – livre e alegre.

E como você se torna livre e alegre? Primeira coisa é combatendo essa inquietação e essa dupla ilusão. Primeira coisa é isso.

O cristianismo é apenas sintomático. É aquela coisa: cada época tem o remédio que merece; nós fizemos o cristianismo.

Participante: nem foi Cristo, foi todo mundo.

Participante: quem inventou não foi Cristo.

Não foi mesmo, foi São Paulo que inventou o cristianismo. Cristo era budista, como diria Nietzsche.

Mas a matéria já está lá, a matéria de má consciência está lá. O sacerdote cristão é que dá forma a ela. A matéria está lá latente. Mas o sacerdote cristão é super-responsável – no caso é Paulo.

Paulo é que faz isso. Que forma ele vai dar? “Cristo morreu pelos nossos pecados”, “nós o matamos”, “nós somos eternamente responsáveis pela morte de Cristo”.

Participante: onde está a autodeterminação desta qualidade cristã? Onde está essa autodeterminação do átomo nessa falsa incorporeidade?

É nos compostos, não é no átomo. É nos compostos que isso se dá.

Então vamos explicar de onde vêm esses falsos infinitos. Os compostos de segundo grau são imagens que têm a propriedade de se ligar ao objeto; então, se eu estou te vendo, é porque você está emitindo elementos sutis que compõem a sua imagem – o objeto está lá e a imagem está sendo alimentada por isso. Então a propriedade dos compostos de segundo grau é essa: imagem ligada ao objeto.

Participante: só uma coisinha: quando você me vê, você não está emitindo nada para me ver?

É só o objeto que emite a imagem?

No fundo, é o encontro. A visão é uma visão de encontro.

Participante: já para Epicuro?

Já para Epicuro. É por isso que a imagem é perfeita para ele, é por isso que não falta nada para a sensibilidade. É tudo uma questão de velocidade.

Participante: pelo fato de ser encontro? Por isso é perfeito?

Sim, sem dúvida. Porque o encontro tem a realidade do encontro, é aquela realidade que é para aquele encontro. Então não é que falta nada para ter encontro; aquele encontro se faz com aquilo que se encontra nele.

Participante: quer dizer, o olhar é um tipo de emanação, por exemplo? A captação é um tipo de emanação? Tem a ver com a autodeterminação de quem olha, também?

Exatamente.

Vocês podem até dizer que o plano de organização se dá nos compostos de segundo grau.

Já falamos de plano de imanência, plano de composição, plano de consistência, plano de organização.

O plano de organização se dá aqui nos compostos de segundo grau, no plano das imagens. É aqui que se dá o plano de organização. O plano de composição é o dos compostos atômicos. Agora vai haver um plano de organização que vai levar para a transcendência. Qual é o plano de organização que vai levar para a transcendência? São exatamente os fantasmas de terceira espécie, os compostos de terceiro grau.

O que são os compostos de terceiro grau? São exatamente emissões de profundidade e simulacros de superfície que se desprendem do objeto emissor e ganham realidade própria; não só se desprendem do objeto emissor, como ainda são compostos por emissões de outros objetos que se desligam também desses objetos. Então você tem uma fantasmagoria, uma entidade, que se forma muito rapidamente e se desfaz muito rapidamente como fantasma; ou seja, ela não é sensível. É por isso que o fantasma e o duende são reais – realmente existem duendes, existem fantasmas. Só que se dá num tempo menor do que o mínimo de tempo sensível.

Participante: e pensável?

É pensável.

Participante: o fantasma não é sensível também?

O fantasma não; ele gera imagens. Eles dizem que existem três tipos principais de fantasmas: os teológicos, os oníricos e os eróticos; os que geram os deuses, mitos; os objetos de sonho ou de alucinação ou de desejo em geral; e os objetos de um desejo específico, que são os de amor, objetos eróticos. Essa é a classificação principal dos fantasmas. Claro que é uma pluralidade, somos banhados o tempo inteiro por fantasmas e de vários tipos, mas esses são os tipos principais, são os que mais dominam os homens, digamos assim.

Então o que ocorre? Um exemplo de fantasma teológico: você olha para o céu, para uma nuvem se formando ou se deformando e você vê nela uma montanha, vê um ser barbudo e carrancudo, vê um sorriso; você ouve um trovão e já pensa que é a voz de Deus bravo contigo. Se você está num estado de alimentar essas emissões já separadas dos objetos, quando você investe isso, esses elementos se formam com uma rapidez tal e se desfazem com uma rapidez tal que quanto mais rápido eles se fazem e se desfazem, mais poder nós atribuímos a eles. Por que? Porque mais eles são capazes de se metamorfosear em qualquer coisa. É por isso que Hume diz que na origem dos deuses não está a permanência, mas está a inconstância. É completamente inconstante, é completamente efêmero; a coisa se faz, se forma se desfaz ao mesmo tempo, com uma rapidez incrível. Então você tem um exemplo de fantasma teológico.

Um fantasma onírico pode se formar em sonhos ou pode se formar acordado mesmo, imaginando simplesmente. De que modo ele se forma? Da mesma maneira; apenas o tipo dele é diferente porque ele vai instigar uma outra função para o meu desejo. O meu desejo vai se dirigir a ele agora como um fantasma onírico, como um fantasma de composição de realidade. O fantasma teológico é um fantasma que ordena, que pune, que manda, que se alegra, que se entristece, que se altera, que me dá ordens, que me ameaça, que me castiga, etc. O fantasma onírico é um fantasma que levaria à satisfação do meu desejo.

O fantasma erótico, evidentemente, tem especificamente uma função erótica. Ou seja, o fantasma erótico é aquele em que você imagina o ser amado apenas em imagem. A Lia me enviou um exemplo fantástico via e-mail de uma mulher transando com um cara cujo rosto é coberto com uma foto de um galã qualquer, e ela lá transando a mil com a foto e o pinto real do cara. Quer dizer, exemplo evidentemente bem claro de um fantasma erótico, de uma separação do desejo com o objeto.

Então o que é fundamental marcar é que esses objetos se formam e se desfazem com uma velocidade incrível. Por que? Porque o objeto emissor já não está mais lá; e o objeto emissor não estando lá, e ele sendo alimentado por emissões das mais variadas fontes, ele se forma e se desforma com uma velocidade infinita; ele ganha, nesse sentido, uma autonomia: eu passo a vê-lo como uma entidade, eu invisto esse ser como entidade. Então, seja um fantasma teológico gerador de mitos ou de deuses, seja um fantasma onírico gerador de anseios, gerador de ambição, seja um fantasma erótico gerador de cupidez, com a consequente culpabilidade gerada pelos fantasmas teológicos, você forma um complexo – um complexo cujo resultado é o tipo religioso onde a cupidez e a culpabilidade, a avidez e a angústia, formam a essência do seu desejo e da sua frustração.

Participante: o que eu não entendo é essa supervelocidade do fantasma. Porque eu tiro uma foto dele, então captura; ele não é mais veloz, ele está preso.

O que você tirou já foi a foto de uma imagem – aí ele já está sensível. O fantasma não é sensível, ele alimenta a imagem sensível.

Participante: então o fantasma não é o que eu faço dele. O que eu faço dele já é uma outra coisa que já não é o fantasma.

Sim. Digamos que o que você faz dele, com a tua sensibilidade, é uma imagem; ele, na realidade uma pluralidade de emissões, de simulacros, que formam esse fantasma enquanto emissões de simulacros. Mas na medida em que isso vai numa velocidade bem mais rápida do que o sensível, o que você vê como efeito sensível – porque você tem uma velocidade menor de percepção – já é uma imagem. A imagem sensível, que você sente enquanto sensível, é efeito do fantasma. Se você investe a imagem, a coisa fica ainda pior: aí você está no imaginário. Se você investe o fantasma, você está no simbólico.

Participante: como é que é?

Uma cutucada para os lacanianos.

Participante: investir o fantasma dá no simbólico?

Você está no simbólico, com certeza. O fantasma é simbólico. Na realidade, a substância, o estofo do simbólico, é o fantasma que gera a castração, etc.

Participante: como ícone desse imaginário?

O ícone ainda é uma imagem; o simbólico é como que uma estrutura incorporal ou imperceptível; o simbólico seria não sensível.

Participante: isso tem a ver com o fato de que esse fantasma tem significação? Por isso que você está falando que isso é o simbólico?

Isso. Aí quem que vai ser o fantasma teológico que vai dar significação ao fantasma onírico ou erótico? O psicanalista.

Participante: por exemplo.

Participante: mas no encontro já acontece, não é?

Claro. Tem a matéria do delírio, da cupidez, da avidez. Já está lá, no cara que está investindo o fantasma. Aí chega alguém de fora e vai dar forma para ele: eis a sua verdade.

Participante: ainda antes de que chegue alguém de fora. O que você está dizendo o tempo todo é que no encontro se forma significação, não é isso? O cara olha para a nuvem…

Sim. É como algo assim: eu olho esse tapete e tem uma mancha vermelha ali; aí depois eu ando mais um pouquinho e tem um pau virado de um jeito tal; aí depois eu ando mais um pouco e tem aqui o cocô do cachorro que eu pisei em cima. Ih, caramba: aquilo ligado com isso e com isso significa que… hoje eu não deveria ter saído de casa. Cadeia de signos. Isso que é o paranoico interpretativo, é gerado a partir desses fantasmas.

Participante: a paranoia da coisa começa quando eu descasco a imagem em cima do fantasma, é isso? Por isso você está falando que o fantasma é veloz, que ele passa; a fotografia não é o fantasma, a fotografia é imagem. Uma civilização toda pegou Jesus enquanto imagem; o seu fantasma foi.

Participante: e atualiza esse fantasma.

Atualiza o tempo inteiro, enquanto instrumento de ritualização do poder: o poder é ritualizado e é fortificado e aumenta a partir do momento em que ele se repete na ritualização.

Participante: eu estava lendo nessa semana um livro do Exterminador do futuro II. São duas máquinas, mas a grande arma – que é supostamente indestrutível – é que ela se disfarça o tempo todo no que for conveniente para ela. Numa hora é policial, numa hora… qualquer hora ela ganha uma mutabilidade. Ela passa pela pessoa e ela captura o que precisa ou pode, e ela se torna ou se expressa. Quer dizer, você nunca localiza o que está acontecendo.

Eu só não expliquei ainda como é que se gera o falso infinito. Como se gera o falso infinito?

Você tem lá uma ânima e um ânimus, você tem um desejo. Você é feito de uma pluralidade de clinâmens, uma pluralidade quase infinita de clinâmens. E cada clinâmen é uma direção. Aí o que ocorre?

Se você investe, com a sua sensibilidade, a imagem, aquilo é próprio da sensibilidade – o objeto sensível está no tempo do investimento da sensibilidade. A coisa está no seu tempo. Então você tem uma frequência na sensibilidade, você tem uma frequência no pensamento, você tem uma frequência em tempos menores que os mínimos sensíveis, você tem uma frequência em tempos menores do que os mínimos de tempo pensáveis. Frequentamos todos esses níveis, ressoamos em todos esses níveis.

O que ocorre? Quando um nível investe outro sem poder… por exemplo, quando a minha sensibilidade vai investir aquilo que compõe a imagem, aquilo que é anterior à imagem, que é mais veloz do que a própria imagem e que é mais veloz do que a capacidade da minha sensibilidade captar, é aí exatamente que se dá o início da ilusão, o descolamento se dá exatamente aí. Quando eu invisto uma imagem separada do objeto, uma imagem cujo objeto não a alimenta mais, eu estou investindo, com a sensibilidade, o efeito de simulacros que geraram aquela imagem e que transformam aquela imagem numa entidade. Aquela imagem vira uma imagem separada, uma imagem com realidade própria – vira uma entidade, no sentido literal.

Ora, se essa imagem se forma e se desforma com velocidade muito mais rápida do que a sensibilidade, e o meu desejo está na minha sensibilidade, a impressão que o meu desejo tem é que ele pode atingir infinitamente esses vários elementos que se formam e se desformam. Então, em cada instante de imagem eu tenho um condensado de instantes que a minha sensibilidade não é capaz de obter, mas ao mesmo tempo que investe e alimenta; isso dá a ilusão de uma capacidade infinita de desejos e de obtenção de prazeres. Então eu sou capaz de atingir infinitos elementos e consumir infinitos elementos. O falso infinito é gerado aí, exatamente aí.

O resto é consequência imediata: esse falso infinito que dá à minha alma uma capacidade infinita de obter prazeres, ao mesmo tempo ele tem que dar – porque ele se dá no movimento – uma duração infinita para a minha própria alma; porque o tempo é sintoma, é efeito, é acontecimento do movimento. O tempo é sintoma do movimento. Então, no movimento infinito dos simulacros – que geram esse desejo infinito – eu tenho, ao mesmo tempo, a projeção, no tempo, da alma, ou de duração da alma. A alma dura infinitamente; ao durar infinitamente, ela sobrevive ao corpo; ao sobreviver ao corpo, ela é entregue aos castigos infinitos. Por que castigos? Porque na medida em que o meu desejo acha que pode atingir esse infinito, na mesma medida ele é imediatamente frustrado e essa mesma frustração é que me gera a ideia do castigo depois da morte. Então o meu corpo vai embora, minha alma sobrevive; como a minha alma foi ávida e extremamente desejosa de objetos infinitos, e ao mesmo tempo ela se frustrou nesses objetos, ela também vai continuar recebendo os castigos infinitos depois da morte.

Então, o que Epicuro e Lucrécio nos dizem? A alma é mortal. A morte não nos diz respeito. A eternidade da alma é uma ficção, a alma se desfaz com o composto. Aliás, muitas vezes a alma se desfaz antes do composto – o que ele está chamando de alma é sensibilidade; então, se você fica em coma, por exemplo, já não tem mais a alma ali. Então, quando estivermos mortos, a morte já não nos diz respeito; e quando estamos vivos, não temos que temer a morte, exatamente por este efeito: ela não nos atinge, ela não nos diz respeito. O momento da morte é apenas um sintoma, é um acontecimento. É um sintoma do quê? Da decomposição dos átomos; os átomos se decompõem sob o choque de outros átomos ou de outros compostos – neste sentido está plenamente de acordo com Espinosa, toda morte vem de fora, a morte não é interna, ela vem de fora -; se chocam, dispersam e esses átomos vão se agregar ou se compor com outros compostos. Portanto, aquela alma era apenas um acontecimento da composição. Assim como o nascimento é a emergência de um composto, a morte é a dissolução de um composto. Então nascimento e morte são acontecimentos que não modificam a natureza das coisas a natureza permanece tal e qual; o substrato, o estofo do real, o próprio real continua sendo real. Então nós, na medida em que viemos do real, retornamos para o real; não para um outro mundo, não para o mundo do juízo, não para o mundo onde vai ter julgamento, mas para um real diverso enquanto diverso. Para essa diversidade.

Então o princípio da natureza é a potência de manter o Diverso enquanto Diverso, manter a diferença enquanto diferença. Essa é toda a questão ética. E daí vem uma alegria prática e uma serenidade espiritual. Por quê? A alegria prática vem exatamente da capacidade de produzir e reproduzir a diversidade, ou seja, tornar-se cada vez mais diferente do que se é, diferenciar-se cada vez mais; e a serenidade espiritual vem exatamente do entendimento que temos em relação à natureza – ou seja, os falsos infinitos são exatamente o que gera angústia, o que gera terror, o que gera inquietação e o que multiplica a dor. Ao fazer isso tudo, alimenta-se ou institui-se mitos e mais superstições; e todo mito e toda superstição que se agrega a qualquer produto humano torna esse produto humano insuportável. Assim, diz Epicuro, a descoberta do fogo, o manuseio dos metais – do ferro, do bronze – e a produção de armas de matar. A descoberta do fogo e a realeza; a descoberta da linguagem e a realeza, por exemplo; a invenção da indústria e o luxo ou o supérfluo.

Quer dizer, tudo o que se agrega aos produtos humanos, vindo desses falsos infinitos, dessas superstições, dessa dupla ilusão, é o que torna qualquer produto humano um objeto negativo, um objeto de negação, um objeto que transforma a humanidade numa humanidade triste e pesada. Então, tudo que há de mito que se agrega aos produtos da natureza é que deve ser combatido; não o próprio produto, não o artifício, não a indústria, não a linguagem, não as mais variadas invenções que os homens fazem, mas o que se agrega a essas invenções de mitológico, de superstição. É isso que tem que ser combatido. Então não moralizando: a questão ética é limpar as coisas da carga supersticiosa que elas têm; ou seja, da camada de confusão que elas têm.

Bergson já dizia: a confusão é o sujeito de toda servidão. Espinosa dizia a mesma coisa: é na confusão que você se torna um escravo. E a superstição o tempo inteiro já é a confusão e é fonte de mais confusão. E todo poder que se apropria disso e reproduz isso para se manter no poder, é um poder que tem que ser denunciado. É por isso que temos que fazer a distinção entre poder e potência: a potência é sempre a potência a partir da imanência; e o poder é sempre poder a partir de artifícios supersticiosos que fazem com que os homens se tornem mais fracos, mais tristes, mais escravizados e mais dependentes desse próprio poder. Daí o sacerdote entra para fazer o consolo dos dois, do tirano e do escravo; o próprio sacerdote, o tirano e o escravo formam a trilogia de uma máquina de morte e de homens tristes que o próprio ocidente cultuou e continua cultuando. Nós temos esse mundo ainda como modelo. O capitalismo reproduz isso direto. É o mesmo mundo.

Participante: a raiz dessa ilusão, desses falsos infinitos… você passou muito rápido pela raiz de tudo. Não reconhecer que nestes fantasmas existe uma parte insensível e impensável.

A questão é entrar em frequência, em sintonia, com aquilo com que tem que entrar em frequência, em sintonia. Sensível com sensível, pensamento com pensamento. São planos, níveis de realidade que você circula e que você entra em ressonância. Então, se você for especular com a sensibilidade, você dança – porque a sensibilidade, no máximo, atinge a imagem. Não é que a sensibilidade seja imperfeita, é que o objeto da sensibilidade é a imagem – e essa é a sua virtude, essa é a sua potência: a potência da sensibilidade é lidar com a imagem, lidar com a sensação, inventar novas sensações, novas percepções. Aliás, esse é o objeto da arte: a arte cria novas percepções, novas sensações; ela nos tira do lugar comum, do lugar tedioso que a realidade de época nos impõe com aquelas mesmas sensações, com aquelas mesmas percepções. A arte inventa novas sensações e novas percepções. Então o objeto da arte, a função da arte – ou a realização da arte, a auto realização da arte é exatamente a capacidade de esculpir mais ainda neste mundo das imagens, de modificar e ser modificado no próprio mundo da sensibilidade. Estética não é nada mais do que isso é sensibilidade, em grego.

Então não fazer da sensibilidade um instrumento especulativo ou não usar a matéria da imagem como fonte de entidades; a imagem não é nenhuma entidade, a imagem é um efeito de compostos, é um efeito de encontros. Neste sentido você começa a brincar com a imagem, até com os fantasmas: os fantasmas viram instrumentos lúdicos e você começa a brincar com duendes, com deuses – você gera um universo lúdico. Mas não o universo do terror, da ameaça, da culpabilização – um universo que visa a enfraquecer e a entristecer a vida.

Então, saber de onde as coisas vêm é habitar o tempo próprio dessas coisas; e habitar o tempo próprio dessas coisas é estar na velocidade, é se colar na velocidade, é cavalgar os fluxos.

Que velocidade? Velocidade do sensível, velocidade do simulacro, velocidade das emissões de profundidade, velocidade de pensamento, velocidade do clinâmen; é respeitar o nosso ponto de demência, que é o nosso clinâmen. Aliás, a única coisa que merece respeito é isso, é o tempo próprio de cada processo –nada mais merece respeito; aquelas entidades que querem respeito a partir de uma referência exterior a elas mesmas são as que mais devem ser denunciadas. É por isso que o reconhecimento é tão banal e tão fútil. Quando você gera realidade, quando você produz, você se autocoloca, você não precisa de reconhecimento – ainda que o reconhecimento venha por efeito, que você possa até brincar com isso. Mas isso não é fonte de um se sentir real, eu não me sinto mais real porque eu sou reconhecido; eu devo me sentir real no mais absoluto abandono, é ali que eu vejo se eu sou real ou se não sou real. É como aquela história: é fácil estar bem quando está tudo bem; eu quero ver estar sereno quando está tudo mal.

Participante: eles têm algum método para desfazer a confusão? Porque eles estão supondo as pessoas sempre confusas.

O método é esse: distinguir os infinitos e as velocidades, é questão de infinito e velocidade. O método é sempre esse. Então inicia pelo sensível, claro: o sensível com os mínimos materiais sensíveis e os mínimos de tempo sensíveis. E aí você começa o exercício.

Participante: essa última questão, dos tempos, da aproximação do clinâmen, da percepção… é o kairós isso?

O kairós já é efeito do clinâmen, ele já é gerado. O que é o kairós? O kairós é a oportunidade, não é isso? O clinâmen é independente da oportunidade; no entanto, o clinâmen gera oportunidade.

A oportunidade nada mais é do que a atmosfera do acontecimento, é a cama onde o acontecimento se deita. É isso que é o kairós, é isso que é a oportunidade. Então, você produz a cama, você produz a atmosfera com os clinâmens ou com os diferenciais.

A lição absoluta que eles nos dão é a seguinte: afirme de qualquer modo a diferença. É a afirmação da diferença no pensamento e a afirmação da diferença na prática ética. A afirmação da diferença na prática ética gera prazer, gera felicidade, gera gozo: você só goza de modo sereno. E a afirmação no pensamento faz com que você atinja a multiplicidade enquanto multiplicidade. O estofo do mundo agora é a multiplicidade – não mais como atributo de uma unidade, mas como substantivo de qualquer composto. A multiplicidade é que está atrás, no fundo, e na frente de tudo. Tudo é multiplicidade – não Múltiplo, mas multiplicidade. E tudo é diversidade ou alegria na diversidade.

Participante: diversidade vem de diversão.

Exatamente. Divergir. Não o universo, o diverso.

Participante: a matéria do pensamento e a matéria do corpo é a mesma coisa? O átomo para um e o átomo para o outro é a mesma coisa. Pensamento se compõe e se decompõe como o corpo.

É, é o mesmo.

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Aula 01 – Introdução ao curso

A sabedoria é mais ligada a sacerdotes, religiões, Estados, leis, estruturas fixas que devem ser conhecidas por meio de alguma ascese ou de algum exercício que leve à ascensão até essas formas, do que propriamente a um exercício de pensamento. Então a nossa questão sempre estará ligada a um retorno para a imanência do pensamento, quando se pensa em ato.

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