quinta-feira , 19 julho 2018
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Aula 08 – O problema essencial do corpo

por Luiz Fuganti

Hoje, é nossa segunda aula do corpo, oitava aula. Retomando a panorâmica e alguns focos que dei no ultimo encontro, do duplo ponto de vista, crítico e criativo. Crítico no sentido que é uma desconstrução necessária daquilo que nos separa do que podemos do ponto de vista do corpo, que é uma instância que media e segmenta o movimento. É uma instância e uma máquina ao mesmo tempo de segmentarização do movimento. Essa máquina de segmentarização do movimento opera sobre uma matéria e essa matéria se dá sobre a sensibilidade ou sobre toda região sensória motora. Região essa que vai desde a percepção até a ação. A percepção tem a ver com movimento, com uma ação possível, passando pela afecção que é uma ação sobre o corpo a partir de uma percepção, desencadeando sentimentos ou afetos, paixões, sensações e insinuando ou sugerindo respostas ou ações. Todo esse campo que vem da percepção até a ação se constitui por movimento é a matéria sobre a qual opera essa maquina de segmentarização do movimento. Deleuze – Guattari dizem que a mediação que encapa o corpo ou que media o movimento do corpo ou que separa o corpo do que ele pode, que separa o corpo orgânico do corpo sem órgãos, ou de um corpo intensivo, ou afetivo ativo é o organismo. Eles chamam de organismo ou estrato do organismo. Não é orgânico, pois orgânico diz respeito à zona da vida sobre a terra e o organismo já é uma captura do orgânico, da vida. Tudo que se estende da ação até a paixão ou da paixão até a ação diz respeito ao movimento, esse é o campo do corpo. Do ponto de vista do tempo é o presente. Só o presente existe no tempo e só a paixão e a ação existem no espaço. A matéria sobre a qual o poder opera essa segmentarização do movimento é o presente que existe no tempo e a ação e a paixão que existem no espaço, é todo o campo do movimento. O movimento que se apresenta no tempo presente e que age e que padece, que modifica e que é modificado. É todo o campo da experimentação do corpo. Esse campo, feito por essa matéria de ação e paixão, é a zona sobre a qual uma maquina do poder se exerce e segmentariza o movimento criando uma capa, uma casca que separa o corpo do que ele pode. Separa o corpo extensivo de um corpo intensivo, o corpo orgânico de um corpo sem órgãos, um corpo sentimental, passional, de um corpo afetivo ativo. Então é preciso reconquistar o imediato do corpo, reconquistar esse movimento que não é somente extensivo, mas intensivo, que não é sentimental, mas é afetivo, que não é de percepção apenas, mas é da matéria que gera a própria percepção ou de percepto. Um corpo feito de perceptos e de afetos, de sensações, sob essa casca que os sentimentos das imagens, das afecções e das percepções. É ai que precisamos entender como a coisa se passa no nosso corpo e sobre o nosso corpo se exerce essa própria segmentação. Por nós e sobre o nós porque o corpo separado do que pode vai também investir nessa segmentarização uma vez que ele em desvantagem, vai buscar uma vantagem uma espécie de religação que lhe dá existência e sobre nós porque o próprio poder, ao exercer uma captura, precisa se aplicar sobre uma zona onde se torna útil para ele e para nós, uma zona de produção, de eficácia, de eficiência, que é a zona de sensibilidade. Essa zona vai ser operada através da produção, da reprodução de imagens. É tudo campo imagético, sensível. Nessa medida, do ponto de vista do aspecto critico, vai se instaurar um regime de luz, aquilo que Delleuze-Guatari chamam de agenciamento maquínico do desejo, do ponto de vista do corpo e das imagens. Agenciamento coletivo de enunciação, do ponto de vista dos signos ou do pensamento. Esse agenciamento maquínico do desejo é uma maquina abstrata que produz um corpo concreto que é pendurado num extrato do organismo. Essa maquina abstrata que agencia desejo através da experiência singular que é a experiência do corpo vai segmentarizar movimento através do uso das imagens, das paixões e das ações ou se aplicando em todo o campo perceptivo – de afecção, de sensação, de sentimento ou de paixão e de ação. Em todo esse percurso que vem da percepção, afecção até a ação e vice versa é a zona de aplicação desse agenciamento maquínico de desejo ou dessa maquina abstrata, dessa instancia que fabrica uma mediação do movimento que faz com que se separe nosso corpo do que ele pode, da sua potencia imediata de fazer variar movimento a partir do próprio movimento que o constitui. Essa separação é operada por essa maquinação. Isso é o regime de luz. Isso é uma referencia para o corpo. Mesmo Deleuze vai dizer que toda formação social tem um modo de produzir, de inventar corpos e indivíduos físicos. Na medida em que essa sociedade esta inserida num regime de poder, há um regime de luz que opera na produção dos corpos. Isso é maquinado. Esse termo maquinado ou maquinismo é simplesmente pra dizer que há produção, só isso. Não é uma coisa mecanicista. Não tem uma natureza natural do individuo. A natureza natural do individuo é produzir e ser produzido. Não há nada pronto, o individuo é sempre em processo, ele é sempre produzido. Então isso tudo é maquinado, mas pode ser maquinado pela potencia da natureza em nós, ou pelo poder que captura essa função e cria o corpo que ele demanda. Esse maquinismo é nomeado de uma outra maneira por um regime de luz. Assim como do ponto de vista da produção de alma, ou de consciência, ou de sujeito ou subjetividade, existe um maquinismo que opera num campo dos signos, que Deleuze chama de regime de signos. Esse regime de signos opera a produção de subjetividade e de objetividade real, que no caso do Mil Platôs eles vão sinalizar como um regime misto, um duplo regime. Um regime de signos que opera por significação e outro que opera por subjetivação. Na relação desse duplo regime de signos que se produz um tipo de alma, de subjetividade assim como um tipo de objetividade ideal, incorporal. O regime de signos é um tipo de maquinismo que opera a produção de alma. A produção de corpo, a produção física do indivíduo se dá por um regime de luz. Um tipo de maquinismo que vai operar pelo movimento e sobre o movimento, sobre um certo uso do movimento. Um uso extrínseco do movimento. Na medida em que isso se chama regime de luz podemos pensar que é um modo de iluminar a matéria. Ao mesmo tempo em que ilumina certas zonas da matéria também sombreia. Cria zonas de sombras, escuras. Escurece partes que não interessam a esse regime e ilumina outras que interessam. As zonas iluminadas são aquilo que deve ser percebido, mas se a gente entende que não há o sujeito, uma consciência em nós que percebe – a consciência em nós que percebe já é resultado de uma matéria iluminada, a percepção já começa na matéria iluminada. Essa matéria iluminada é um limitador daquilo que eu posso perceber. Essa maquina atua já na própria matéria que percebe em mim. É por isso que eu sou movido desse ponto de vista. Eu sou limitado, reduzido a essa matéria que desencadeia a percepção em mim. É aí que o poder atua. Não adianta ter atitude individual simplesmente se eu não apreendo isso que faz o indivíduo. O indivíduo se faz nessa zona de percepção. Percepção é a colocação de um problema para o corpo. O problema essencial do corpo é o mover-se. Toda natureza do corpo é feita de movimento. Na medida em que essa zona de percepção é determinada por um regime de luz, é esse regime de luz já determinado que vai colocar o problema ao meu corpo que interessa a esse regime de luz. O meu corpo não responderia ao problema próprio dele enquanto potencia de variar o movimento. Ele tem a potencia de variar o movimento segundo o que é determinado por esse regime de luz. Não estou aqui pintando um quadro onde tudo está determinado, sempre sobra zonas de liberação do corpo que precisamos reconquistar e exercitá-las, praticá-las e mesmo criá-las. O corpo que não se problematiza de modo imanente é sempre determinado por essa zona de percepção já circunscrita e esquadrinhada num regime de luz. Um objeto material, por ex: eu olho para essa xícara que está a uma certa distancia de mim. Eu só a percebo porque tem algo que vem dela. Tem um movimento que chega até mim pela visão ou pelo tato, existem vária maneiras dessa xícara chegar até mim a distancia. Essa distancia é também uma zona de indeterminação. Indeterminação porque essa xícara não necessariamente atua sobre mim, na medida em que eu tenho que ter uma resposta reflexa sobre ela. Por exemplo, se o fogo queima minha mão e eu retiro a mão por reflexo. Não, existe uma distancia espacial e um tempo de ação e de reação, mas só o fato de a xícara estar ali já e a colocação de um problema para o meu corpo: eu posso usar a xícara, exercer uma ação sobre ela, beber o café que está nela ou ela exercer uma ação sobre mim, alguém passa bate nessa banqueta ela bate em mim, ou ela cai na minha cabeça. Enfim, ela pode agir sobre mim ou eu agir sobre ela. Essa zona de possibilidade de ações. Dela sobre ou de mim sobre ela, é que é a colocação de um problema para o movimento. Toda a objetividade material que é percebida encontra-se nessa zona da possibilidade da ação. A questão é o agenciamento social que atua nessa zona de possibilidades de ação do objeto sobre nós ou vice versa. Aí o poder cria toda uma espacialidade. O urbanismo tem a ver com isso, o modo de se produzir arquitetura . Já existe um regime que determina a produzir de certa maneira. Existe esse glamour do arquiteto, do urbanista, como criador de cidades, mas na verdade já estão todos inseridos num certo regime de luz. Fazer um centro cultural, a própria ideia de um centro cultural já se insere numa certa formação de época, uma coisa reacionária, ou mesmo de uma escola ou de uma casa, isso tudo já está inserido num diagrama de poder e nesse regime de luz. Então se opera dentro de certos limites, até se cria aparentemente, mas reduzido a um campo de possibilidades. Você não é criador das próprias possibilidades, submete-se ao que é possível segundo a esse regime que determinou essa zona iluminada. Essa zona perceptiva já iluminada por um regime de luz. Toda cadeia semiótica, toda zona estética e semiótica de uma sociedade é determinada a partir daí e na medida em que você segmentariza ou cria essa cadeia de imagens externas sobre esse campo perceptivo você também cria um encadeamento no campo afetivo. Isso se dá ao mesmo tempo, é disso que se trata. Nós nos penduramos nessa cadeia exterior que a gente chama de organismo. Como que a gente se pendura? Não é uma coisa mecânica simplesmente, não é uma coisa que o poder é filho da puta que chega e se exerce sobre nós e nos captura e somos sempre vitima. Não, nós colaboramos com isso. Esse é o ponto fundamental. Não há nada sobre o aspecto critico que a gente vem operando essa desconstrução que não implique essa cumplicidade que precisamos avaliar e destruir em nós. Se não vamos de novo criar uma outra maneira de acusar o poder, fazer um combate contra, esquecendo que o combate principal é entre, e que o inimigo está já dentro de nós ou no nosso modo de viver. Nosso próprio modo de viver é o nosso inimigo, é aquilo que nos separa do que a gente pode. Ao mesmo tempo em que tem um regime de luz, ele se inocula, penetra nessa zona onde minha potencia – desse ponto de vista através do corpo, assim como através do pensamento – entra em variação. Essa variação da potencia que é capturada. O modo da potencia variar é que é capturado. Podemos fazer três coisas, do ponto de vista desse encadeamento da percepção que dispara uma afecção e um afeto em nós. Porque é aqui que a gente se torna cúmplice. Podemos expor uma tripla visão, de um modo bem resumido. A visão de Spinoza, a de Nietzsche e a de Bérgson sobre esse encadeamento da percepção, afecção, paixão e ação. Um organismo, que é um estrato que se interpõe no movimento imediato que constitui e sustenta o nosso corpo, sempre atua de modo extrínseco, ou melhor, nos determina de fora. Se ele é uma captura, essa captura vem de fora, se ele é uma maquina de morte, essa morte vem de fora. Não há nada dentro da potencia, na natureza da própria diferença, não há nenhuma negação, nenhuma morte, nenhuma negatividade. Então o que separa a vida daquilo que ela pode, aquilo que se aloja e opera nessa dimensão de uma maquina de morte sempre é algo extrínseco ou que determina a potencia de fora. O regime de luz não se instala, não opera nessa zona perceptiva sem que essa zona perceptiva não coloque um problema para o corpo, não estimule o corpo a agir ou reagir de uma determinada maneira, ou, em outras palavras, não maquine o corpo. Toda a percepção já é a colocação de um problema para o corpo. Uma vez que ela já se dá, opera ao mesmo tempo uma afecção no corpo. Afecção, em relação à percepção, não é apenas uma ação possível sobre o objeto exterior, já é uma ação real no corpo. Ao mesmo tempo em que tem uma ação possível sobre o objeto que é a percepção, a afecção já é uma ação real, a partir dessa percepção, sobre o corpo. Algo, já na percepção modifica o meu corpo, já dispõe o meu corpo de certa maneira. É como se ao mesmo tempo, na zona de iluminação da percepção ou da matéria, esse encadeamento de imagens operasse também um encadeamento de imagens no próprio corpo que eu chamaria de uma cadeia de afecções. Para uma cadeia de percepções existe uma cadeia de afecções e essa cadeia de afecções já é o que atua em mim fisicamente. Já é atual isso em mim. Na medida em que eu percebo existe também uma afecção em mim e essa afecção dispara ou desencadeia uma variação da minha potencia ou da minha existência. Da minha capacidade de existir. Já cria todo um campo afetivo, um campo passional, de sensações. E aqui também uma vez que há uma cadeia de imagens e objetos percebidos, há uma cadeia de imagens e afecções no próprio corpo há também uma cadeia de paixões, de sensações, de sentimentos. Existem várias zonas de encadeamento. Isso tudo vai maquinando e produzindo corpo, modos e maneiras de viver o corpo, de experimentar pelo corpo e de ser cúmplice de um poder ou de efetuar uma potencia pelo corpo. É isso que precisamos entender, a concretude da operação dessa maquina abstrata porque ela opera em zonas em que a sensibilidade não apreende. Foulcault já dizia: é uma zona cega que faz ver, essa maquina abstrata é cega, ela opera num campo onde a minha própria sensibilidade não a apreende e, no entanto é ela que faz com que a minha sensibilidade se sensibilize dessa ou daquela maneira. Seja pela audição, pela visão, pela olfação ou toda essa zona de percepção que produz afecção sobre o corpo. Essa zona, que é o que existe no espaço enquanto movimento, vai da paixão a ação e vice versa. É a extensão da ação e da paixão de um corpo ou dos corpos que constituem uma sociedade ou uma época. É aí que se dá a segmentarização do movimento, ou do corpo. Essa segmentarização do movimento do corpo se constitui uma espécie de muro, ou de espelho do corpo. O corpo também tem o seu muro de representação, ou o seu espelho, a sua superfície de reconhecimento. Essa superfície é produzida pelo poder. Esse espelho do corpo é produzido pelo poder. O que vai dar existência ao corpo, do ponto de vista dos valores de uma época. Que corpo que vale, ou é destituído, desqualificado, recriminado, negativado por uma época? Como se qualifica ou se desqualifica um corpo? Como se julga um corpo? Cria-se uma zona de julgamento do corpo no meio do próprio corpo, na pratica e no exercício do próprio corpo. É o próprio corpo, na medida em que ele está separado do que pode, que acaba aderindo a essa superfície de julgamento, ajudando a constituir esse espelho. Com os seus movimentos criando a liga, o cimento que constrói o muro que separa do que pode. Somos cúmplices da nossa própria impotência, da nossa separação do que podemos. Precisamos apreender onde se dá a captura e a liberação. É um limiar, que do ponto de vista do poder é um limite e do ponto de vista da potencia é um limiar, uma passagem, onde o movimento se continua a si mesmo de um modo imanente, segundo um limiar de passagem intensiva dos movimentos que se diferenciam, um movimento heterogêneo que engendra outro movimento a cada passagem, a cada limiar, a cada zona de diferenciação que ele opera numa superfície imanente ou nessa superfície imanente se inocula uma espécie de corte de disjunção exclusiva que exclui essa capacidade, esse engendramento auto sustentável do movimento imanente, segmentando o movimento, separando-o dessa capacidade natural de engendramento e pendurando-o numa maquina de grampear. Ele é grampeado, segmentarizado, recortado e recosturado. É um corte e uma costura , uma continuidade artificiais, a partir dessa zona exterior, que determinaria o movimento de fora, o corpo de fora. Afecção é o que acontece o meu corpo na medida em que ele encontra objetos ou coisas que ele é afetado, é a primeira modificação que acontece no meu corpo na medida em que se relaciona com alguma coisa, mas ela acontece em mim. Do ponto de vista de Spinoza, afecção é começo da paixão, é aquela modificação pontual, atual, mas o afeto distingue afecção de afeto. O afeto já é a partir desse encontro que gera essa afecção, essa modificação pontual, a passagem da capacidade de existir que corresponde a uma potencia, na medida em que ela aumenta ou diminui. A passagem de uma realidade maior para uma realidade menor. Essa realidade da nossa capacidade de existir para uma realidade maior, para uma realidade menor, nó nos tornamos mais ou menos capazes de existir, essa passagem é que se chama afeto. Afeto é essa variação da potencia no encontro que ela faz com outros corpos. É isso que vou começar a falar do ponto de vista de Spinoza, depois de Nietzsche e de Bergson, usando deles e criando um outro pensamento para desconstruir do ponto de vista critico. Vamos agora falar do ponto de vista criativo, ou afirmativo, que seria o reencontro com o movimento imediato em nós que constitui e sustenta nosso corpo, que o põe em variação, implicaria também em uma conquista de manter esse movimento em variação de modo imanente. Desse ponto de vista afirmativo e criativo existem dois aspectos: o primeiro, do reencontro do movimento imediato em mim e nas coisas – o movimento imediato acontece às coisas também – e isso implica em desfazer, desconstruir uma instancia de referencia que mediaria e compararia os movimentos, então eu tenho que sair da comparação dos movimentos para apreender o movimento próprio de cada matéria, de cada objeto e do meu próprio corpo. Me relacionar com os movimentos próprios, aquela forma de Kierkegaard, vejo só os movimentos, apreender o movimento enquanto movimento, ou seja, desfigurar ou desformatar o corpo. Não que a figura da forma do corpo vai desaparecer, ou a imagem vai desaparecer, mas é não deixar que ele seja dominante. Ela não é o principal, ela é efeito. Eu me relaciono com a causa, mas a causa é o movimento enquanto movimento, é movimento próprio e para isso é preciso desconstruir a referencia do movimento, aquela instancia analógica do movimento que compara, que mede os movimentos a partir de uma espécie de homogeneidade. Tipo Descartes que diz que o espaço é homogêneo. Não existe espaço homogêneo, isso é uma ficção, assim como não existe homogeneidade de movimento. Nem o espaço, nem o movimento são homogêneos. Antes do séc. 17, 18 tinha lá indigentes, leprosos, loucos, tudo numa zona só. De repente certos movimentos que se operam na percepção começam a diferenciar nessa massa o corpo do louco. O que é o corpo daquilo que se designa como louco? O que é a loucura? A loucura é um problema para essa formação social nova que está surgindo. Mas o que é problemático na loucura? Então vai se definir a loucura de uma certa maneira e esta problemática coloca um problema de movimento. Como o corpo do louco, o movimento do louco opera? Então vai se iluminar essa zona, vai se enquadrar. É esse enquadramento que eu chamei de zona iluminada. Esse regime de luz ilumina certas coisas e sombreia outras. O outro regime de luz não necessitava de distinguir o corpo do louco, do leproso ou do indigente, isso não era um problema e agora é. Então você cria um recorte, um quadro mesmo. É isso que Foulcault faz o tempo inteiro na sua obra, ele pinta quadros de fundo que ele apreende que é uma zona de percepção de enquadramento dessa própria maquina social, desse dispositivo de individuação ou de produção dos indivíduos físicos. Você destaca um certo modo individuado de uma massa, você recorta com a própria luz e enquadra. É um enquadramento. Então é essencial percebermos que não somos apenas vitimas disso mas colaboramos com isso. A questão é que o poder não ocupa um certo lugar que eu devo atacar, ele se exerce num campo microfisico, ele é micro político, o essencial dele é o micro, essas zonas de relação. O poder não seria nada se ele não relacionasse comigo. Como ele se relaciona comigo se não tem uma zona comum comigo? Então eu preciso apreender onde, nessa zona comum eu deixo que ele exerça sobre mim. Desse ponto de vista não existe coitadinho nem vitima. Chamar aqui a responsabilidade da vida, nós somos responsáveis por entregar de bandeja a nossa potencia, a nossa capacidade de criar o espaço, de gerar o lugar, e não ocupar um espaço homogeneamente esquadrinhado a partir de movimento segmentarizado. Não preencher um espaço previamente esquadrinhado com movimentos esquadrinhados. É apreender o movimento intensivo em nós e não segmentarizado. Ao mesmo tempo em que o movimento intensivo não ocupa um lugar dado e esquadrinhado, mas ele gera lugar. Existe esse duplo modo de desestratificar, desterritorializar o corpo. Descodificar o corpo usando o termo de Delleuse e Guatari e aí é preciso fazer a lição de casa. Agora vou entrar em Spinoza para ver como isso se dá em Spinoza. Já disse antes que Spinoza diz que tudo é modo na natureza e isso não é apenas uma maneira de nomear ou designar. O que é modo para Spinoza? Podemos usar a palavra modo em contraste com a palavra substancia. Mesmo a palavra substancia em Spinoza muda de natureza. Não vamos usar a palavra modo em contraste com substancia, em Spinoza, que ele próprio define, mas em contraste coma palavra substancia que o ocidente define. O que o ocidente define como substancia? Já Platão e principalmente Aristóteles define a palavra substancia, ou usia, em grego,como uma espécie de substrato, é aquilo que permanece. Mas a permanência da substancia é dada por sua forma, é uma espécie de ensimesmamento. A substancia tem uma forma idêntica que faz com que ela exista em si, que não precisa de nada ou de uma relação que a torna real. A substancia é algo isolado. Para Spinoza, desse ponto de vista nada é substancia, tudo é modo. Modo é uma modificação de uma realidade que se auto produz. Ele muda a própria ideia de substancia. Ele diz que substancia é uma potencia absoluta de acontecer, ele chama de deus, de natureza naturante, que é causa de si mesma, ou seja, que se auto engendra, que não precisa de nada fora dela. A necessidade da própria potencia absoluta de acontecer. Ela não seria uma potencia absoluta de acontecer se ela não se engendrasse a si mesma, ou seja, ela dependeria de outra causa que a poria na existência. Segundo a própria necessidade é impossível que ela não exista dessa maneira porque senão eu diria que essa substancia seria apenas um certo grau de realidade de outra coisa que precisa sustentar esse grau de realidade. Aí ficaria sempre pensando que teria algo e algo mais. Spinoza chega logo nesse algo que se auto sustenta, que se auto gera, isso ele chama de substancia. Para Spinoza substancia não é o que o ocidente entende por substancia. Para Spinoza substancia não é só aquilo que existe em si e por si é concebido e sim aquilo que também é causa de si, que se produz a si mesmo. Então não é uma coisa ensimesmada, parada que se auto contenta, é uma coisa que se auto engendra, que se auto fabrica. Para Spinoza a substancia é uma fabrica. É completamente diferente daquela substancia em si. Ela só em si porque é uma fabrica, é causa de si e ser causa de si é produzir a si. Não parar jamais de produzir a si. É uma potencia absolutamente infinita de produzir e variar a si mesma. Cada modificação dela Spinoza chama de modo. Spinoza diz que não há potencia que não seja em ato. Se essa substancia é uma potencia absolutamente infinita de acontecer, esse acontecer da substancia já é o ato da substancia. Se essa substancia é uma potencia, o ato dela é o acontecer. Então ela também é uma potencia em ato. Não há nada que não seja em ato. Uma modificação dela é parte dessa potencia que tem também parte do ato. Mesmo a parte da potencia que é uma modificação ou um modo tem necessariamente um ato. Toda potencia, é potencia em ato. A modificação da substancia, que é uma potencia absolutamente infinita de acontecer traz em cada acontecimento dela mesma, em cada modificação dela mesma a passagem do ato. Ela carrega o ato consigo. A modificação traz o ato consigo. Ao mesmo que é um grau da potencia da substancia, é uma parte da potencia da substancia ela também é em ato. O que significa isso? Quer dizer que a potencia não é sem relação. Ela é sempre em relação. O ato é o próprio relacional da potencia. Ela não uma substancia em si, isolada. A essência dela é ser relação. Em Nietzsche é a mesma coisa. Ele diz: se eu defino força, é impossível separar a força do que ela pode. A força já é força pelo relacional dela mesma. Se eu tirar a relação ela deixa de ser força. Aí seria outra coisa. Se eu falar de força eu tenho que incluir na definição o relacional. Mesma coisa em Spinoza. Não há potencia que não seja em ato. Não modo que não seja uma potencia de relação, de afetar e ser afetado, de modificar e ser modificado. Porque onde você experimenta, onde você modifica ou é modificado? É na relação, é no ato. O ato, a relação é exatamente o que processa a variação dessa potencia. A potencia na relação, varia. Ela se modifica a ela mesma e modifica as coisas a partir dela. Ela é afetada e afeta. Tudo em Spinoza é assim. Se a substancia é a natureza naturante, tudo o mais é natureza naturada. Natureza naturada é o produto necessário dessa natureza naturante. Só que esse produto não se reduz a produto, ele também recebe o naturante nele, que é essa potencia em ato que opera essa modificação que cabe somente a esse modo. O modo é sempre singular, é sempre único, tem o modo próprio de modificar e ser modificado. Ele faz parte da própria natureza naturante que produz eternidade. Spinoza diz que modo não é substancia. Modo é o que existe na substancia, depende da substancia, mas a substancia não depende do modo. Mas ao mesmo tempo Spinoza diz, o modo é um produto necessário da substancia. Então desse ponto de vista você pode dizer que não há substancia sem produção de modo, que substancia não é um campo de possibilidade, ela é um campo de produção necessária do real, que se dá por modificações. Não tem substancia sem modo, impotente, que ela sempre produz um modo. É uma potencia dela produzir modo. O modo é uma parte, um grau de potencia da própria natureza naturante, ou da substancia. Mas esse modo, se é uma potencia em ato, posso dizer também que ele é uma potencia a qual corresponde uma capacidade ou um poder de afetar e ser afetado. Aqui o poder enquanto capacidade. A toda potencia corresponde uma capacidade de afetar e de ser afetado. A toda potencia corresponde uma capacidade de afetar e ser afetado, de modificar e ser modificado. Essa capacidade ou esse poder eu estou chamando de ato. É isso que varia na existência, um modo que é uma potencia em ato. Esse ato que faz com que minha capacidade de existir varie, a qualidade desse ato. Então não é qualquer ato, esse ato não é uma coisa homogênea, fixa, uma verdade fechada. Esse ato implica uma maneira de existir. Ele confunde com modo de vida. Isso que é essencial, porque é aí que a gente se torna cúmplice. Esse ato pode ser extrínseco ou intrínseco a potencia. Ele pode ser transcendente ou imanente. Na verdade, não existe transcendência. Mesmo nessa sua transcendência é uma transcendência relativa. É porque eu não apreendo a imanência dele. No fundo ele é sempre imanente, mas eu sou separado dessa imanência. A primeira distinção do ato que atualiza a potencia e que corresponde a essa capacidade de existir, que aumenta ou diminui, é aquilo que me determina de fora ou que me determina de dentro. Ou de modo extrínseco ou de modo intrínseco, ou de modo transcendente ou de modo imanente. O que me determina de modo extrínseco ou de fora produz em mim um afeto que é paixão. O que me determina de dentro, ou de modo imanente produz em mim um afeto que é ação. Aqui vamos fazer a primeira distinção desse ato. O ato que é ação e o ato que é paixão. O ato que é paixão é quando uma potencia ao se encontrar com outra potencia, um modo ao se encontrar com outro modo é determinado a agir, a reagir, a pensar, a sentir, a imaginar, a acreditar, o que quiser considerar, ele é determinado a fazer alguma coisa. Mas é determinado por essa exterioridade, no acaso, na contingência, é determinado de fora, está sujeito a algo que vem de fora. Isso que vem de fora coloca um problema para essa potencia e ela para se manter na existência tem que dar uma resposta. Essa resposta que ela dá já é uma paixão, porque ela não tem a capacidade, ou está separada da capacidade nesse momento de criar resposta a partir daquele ato que singulariza a ela mesma. Que é necessário a ela mesma para que ela seja afirmada inteiramente na relação, para que a partir dela crie-se uma modificação, uma resposta. Ela está separada disso. Então a potencia é coagida de fora a fazer alguma coisa. Isso vai ter duas conseqüências. Do ponto de vista da paixão, um aumento ou uma diminuição da capacidade de existir, mas sempre a partir de fora. Se há um aumento, tudo bem, é uma paixão alegre. Se há uma diminuição é um mal, posso dizer que é uma paixão triste. Mas mesmo no caso de uma paixão alegre não deixa de ser uma paixão e se é paixão eu sigo separado do que posso. Não basta só ter paixão alegre, essa alegria, esse aumento de potencia depende de algo que eu não tenho domínio, que não está sob a minha esfera criativa, sob o meu comando, sob a minha capacidade de auto determinação. Escapa. Estou sujeito a essa exterioridade, estou sendo determinado de fora. Algo que me determina de fora, que também é uma potencia em ato. O ato que atualiza essa potencia que se encontra com a minha potencia em ato já é uma relação própria dessa potencia que se encontra comigo que também tem a relação própria. O que se encontra então são modos de relação que se compõe ou se decompõe. Então existe maneiras de se compor ou se decompor relações. O que compõe relações faz com que se crie uma outra potencia maior do que o modo anterior. Nessa medida a potencia cresce e aí eu tenho a alegria. A alegria nada mais é do que o aumento da capacidade de existir num encontro porque há composição. No momento que há composição há aumento de realidade e eu participo desse aumento de realidade. A minha capacidade de existir aumenta, e é isso que é alegria. Alegria nada mais é que esse aumento dessa capacidade de existir. O que é a capacidade de existir? Aliás o que é existir? Podemos resumir em três sentidos: agir, sentir e pensar. Todo o campo da existência está entre a ação, o sentir e o pensamento. Se aumenta a capacidade de existir aumenta a capacidade de agir, de sentir e de pensar. A alegria nada mais é que a expressão disso, é a passagem de uma realidade menor para uma realidade maior. Uma capacidade menor para uma capacidade maior. A alegria é uma passagem, não é uma imagem, uma ideia fixa, é o próprio fluxo. Mas ela é produzida em mim na medida em que eu encontro com outro corpo que se compõe com a minha relação singular. É na composição de relações que tem um aumento de potencia. Há um aumento daquilo que corresponde a potencia que é a capacidade de existir. No caso contrario: um corpo que se encontra com o meu corpo e que ao invés de se compor com a minha relação singular, decompõe a minha relação singular, diminuindo a minha capacidade de existir. Ao mesmo tempo que acontece um afeto, ou uma paixão triste. A tristeza nada mais é que a passagem de uma capacidade maior de existir para uma redução, um constrangimento da existência. A existência se encolhe. Essa capacidade de agir, de sentir e de pensar diminui. Eu fico com menos potencia de agir, de sentir e de pensar. Minha realidade encolhe. A própria passagem disso é o afeto de tristeza. Mas enquanto eu estou na paixão, seja alegre ou seja triste, eu ainda estou separado da minha capacidade de atualizar a minha potencia de dentro, de modo imanente e nessa medida estou reduzido ao efeito do que me acontece. O que me acontece é essa diminuição e eu me reduzo a esse efeito e esse efeito me impede que eu apreenda toda a potencia que me constitui. É como se eu ficasse e me confundisse com o ultimo resultado de mim mesmo, do que me acontece. E isso é uma imagem, é apenas a resultante da variação da potencia. Então eu me torno, me reduzo a essa imagem que, ao mesmo tempo eu posso dizer que é uma consciência. Uma imagem é uma consciência, mas essa imagem é imagem de passagem, de fluxo, de sentimento. É uma imagem do movimento. O que um sentimento? É uma passagem. Eu sinto algo, esse sentimento é uma passagem, estou num estado de passagem, mas eu estou na imagem daquilo que de fato varia que é o puro afeto. O que varia é a minha potencia que corresponde a capacidade de existir. Essa realidade na existência, esse poder de afetar e ser afetado na existência que diminui ou aumenta. A imagem dessa passagem que é o sentimento ou a consciência passional. Eu tenho consciência da tristeza, da alegria, da inveja, do ciúme, do medo, da esperança, de todas as paixões. O sentimento é uma imagem do afeto. É por isso que é necessário a gente extrair o sentimento ao afeto. Chegar no afeto, que aí é chegar no imediato do movimento, do corpo. Ir à causa e não ficar reduzido ao efeito. Onde nós somos grampeados por essa maquina de segmentarização do movimento? É no sentimento. É porque a gente fica na imagem. Há uma cadeia de imagens internas, essa cadeia de paixões ou sentimentos. É todo o campo passional reivindicativo de nós mesmos que é constituído como uma natureza. A gente acredita que isso é a natureza em nós, mas é uma produção de época. Você sente de uma determinada maneira, tem alegria, tristeza, ódio, dor, segundo o modelo dessa época. Você deseja, ama, odeia, segundo uma formatação de época. Nosso modo de desejar, de perceber, de amar, de odiar não é o mesmo dos gregos, da espoca da cidade clássica, ou da idade media grega, ou da queda do império micenico, ou do modo romano, ou do interior da Amazônia onde tem uma tribo. São maneiras diferentes de desejar, de ver, de perceber, depende desse diagrama, desse conjunto de forças. Nessa cadeia que se faz simultaneamente na zona de luz, nessa zona perceptiva, que necessariamente implica uma zona sombreada e que nos afeta criando uma cadeia de afecções e também de afetos paixões, ou dessa cadeia de sentimentos, opera-se uma zona de realidade. Há uma limitação do real a essa zona. E se essa zona nos impede de acessar o imediato de nós mesmos, nós vivemos a realidade como um delírio. Só que o nosso delírio é muito bem organizado, ele é uma coisa normal. Você pode dizer que um louco, uma Estamira, por exemplo, que ela é louca, mas o filho dela que é um evangélico não é louco, é evangélico. Só que ele delira em massa e ela delira sozinha. Então ela seria louca e ele não. Na verdade a sociedade é muito mais louca que imagina. Só que é um delírio organizado. Aquilo que de alguma maneira Spinoza remete a Aristóteles, dizendo que ele é um imaginador organizado, é a imaginação estudiosa. Não se chega no pensamento, na causa das coisas. Você acha que ligar uma imagem a outra imagem, um signo a outro signo, que isso seria pensar, ou raciocinar, mas é uma relação de temas que são imagens ou signos, não é a realidade mesma que se relaciona sem a mediação da representação humana. A coisa já não é a coisa, é uma imagem ou um signo da coisa, se relaciona com outra coisa, que é outra imagem, outro signo. Eu não apreendo a relação real entre elas, eu sobreponho uma relação artificial que seria a relação da razão e imagino que penso e que raciocino. Pois imagino que raciocinar é ligar um tema a outro tema. Mas esses sistemas são feitos de imagens e de signos. Questão: Isso tem a ver com a memória, pois v. relaciona aquilo com uma coisa que se tem na memória, que fixou do passado? Tem, mas essa memória vai ter a ver com uma condição de existência necessaria de alguém que já está separado do que pode. Algo que deu certo é trazido à memória e idealizado para o futuro. Esse algo que deu certo você melhora e projeta no futuro. É essa perspectiva moral. É a moral sob o conhecimento. É o que diz Nietzsche, todo sujeito do conhecimento pressupõe um conhecimento moral. Essa memória já tem um uso moral. Eu recorto uma memória de marcas, de um estado de coisas, ou de um estado de corpos, ou de almas, que faz com que a sociedade melhore as suas relações, seleciona o que faz menos mal. É uma memória reativa. Essa razão estaria alimentada por essa memória de marcas e controlaria o futuro segundo essa memória idealizada ou purificada. É a vida entre a memória e o projeto. Do que foi e o que será. E sempre se perde o que acontece, o que é, que é o próprio devir, se perde o presente. Se estou separado do que posso, na paixão alegre ou triste, não importa, eu me reduzo ao que me acontece que é uma afecção e um afeto. Afecção é o momento do encontro que produz em mim uma modificação que se torna um acontecimento para mim, uma passagem, põe a minha potencia em variação. Dessa afecção emerge um afeto. É afecção e afeto que se encadeia em mim. Afecção é essa imagem que surge em mim no encontro, que é feita do outro corpo e do meu corpo, é um misto. Na medida em que ela é feita dos dois elementos, ela tem uma dupla face. Uma face que remete ao outro e outra face que remete a mim. Essa afecção tem essa dupla face. A face que remete ao outro, que vem do outro é identificada com a causa da minha alegria ou a minha tristeza. Nessa medida, o que me acontece eu posso atribuir ao outro. O outro causou aquela alegria ou tristeza em mim. Se o outro me causou alegria, se tive um bom encontro, uma vez que aumentou a minha potencia, eu ligo essa minha alegria a ideia do outro como causa. Isso é o amor. Passivo, passional, dependente e não o amor ativo. Talvez os homens não conheçam outro tipo de amor, que não esse passivo. Nietzsche diz: amor ou vontade de apropriação? Porque você quer manter aquilo que aumenta sua potencia sob seu domínio. Esse é o amor do impotente que quer se apropriar. Na seqüência, encadeio um afeto de alegria a um afeto de amor. Paixão alegre e paixão amorosa. Já há uma cadeia aqui. Imagine isso com tudo. No ódio também, daí vai ter a inveja, o ciúme, o medo, o orgulho, a humildade, é toda uma cadeia subjetiva que vai se criando, para o bem e para o mal. No amor vai ter uma outra cadeia também e isso tudo se mistura. Na tristeza, que é um mau encontro que diminuiu a minha capacidade de existir e que eu acabo por atribuir ao outro, pois essa afecção, essa imagem em mim, que é resultado do encontro tem a face voltada para o outro. Na medida em que eu me entristeci aponto o outro como causa porque antes do encontro com o outro eu estava em outra condição e agora eu me entristeci, depois do encontro com o outro então o outro foi a causa do meu entristecimento, dessa diminuição ou dessa tristeza em mim. A ideia de tristeza ligada a sua causa é o afeto de ódio. O que é o ódio? Eu sou determinado, uma vez que me entristeci, a afastar ou destruir o objeto que imagino que causou a minha diminuição. E o afeto de amor é o afeto de me aproximar e manter. O ódio é afastar e destruir. Um é de aproximar e conservar o outro de afastar e destruir. O que se passa, se estou separado do que posso na paixão então estou separado da capacidade de pensar pois estou reduzido a imagem, a imaginação, essa afecção em mim. E se essa afecção precisa organizar os meus encontros, uma vez que estou sujeito a essa flutuação do acaso, vou afastar o que eu tenho medo, ou que eu temo que me destrua, ou que diminui a minha potencia e vou aproximar o que melhora minha vida e aumenta a minha potencia. Eu tendo a selecionar os encontros a partir disso, minha imaginação começa a operar, mas não tem pensamento ainda. Só tem pensamento quando se apreende a causa real. O meu desejo e a minha potencia se esforça por imaginar, já que não pensa, tudo aquilo que afasta essa causa que também é imaginaria da minha tristeza e manter ou aproximar e conservar a causa daquilo que me alegra ou me conserva. Nessa medida que vou imaginar a causa e selecionar, fazer uma escolha, no caso, uma escolha moral, de um livre arbítrio, entre uma coisa e outra. Ou ficar com aquilo que me ajuda e me conserva e eliminar o que me destrói, mas isso tudo do ponto de vista da imaginação, pois a causa real, do aumento ou diminuição de potencia não está no outro e sim no modo de relação. Mas aí, só o entendimento que chega. A imagem não chega. A própria natureza da afecção é sem profundidade, é só um resultado. Se eu me reduzo a esse resultado como posso apreender aquilo que gerou essa afecção e a maneira que ela foi produzida? É impossível pensar a causa real, então eu imagino, não penso a causa real, não entendo a causa real. Se eu imagino a causa real então estou na causa imaginária, não chego ao real. Se com isso, naquilo que estava chamando de regime de luz, imagina como o poder manipula isso. Por exemplo, as vitimas. A vitimização. O poder se sustenta na vitimização. Ele cria rede de vitimas, assim como Nietzsche diz dos rebanhos reativos e gregários. Como você detecta a causa do seu mal? O poder sinaliza, assim como o sacerdote judaico, segundo Nietzsche, cria uma maneira de identificar a causa do seu mal, operar uma ficção do que faz triunfar o ressentimento, na medida que é um operador que identifica a causa da impotência e é, evidentemente uma causa imaginária da impotência do fraco e do reativo. O poder, Foucault viu bem , é pastoral, sacerdotal, ele inventa uma maquina, um estrato de julgamento ou de avaliação, uma espécie de espelho, onde vai iluminar a zona do mal, que é a causa do mal, e a zona do bem que é a causa do bem. A zona de uma verdade e a zona de um engano. A zona de uma justiça e a zona de uma injustiça. Cria toda essa cadeia de sinos e de imagens que faz com que eu, já separado do que posso, ao identificar a causa imaginaria do meu mal ou do meu bem, opere exatamente nesse regime que ele está encadeando, iluminando e sombreando, sob essas limitações. É por isso que o poder manobra. Os corpos e as almas são marionetes operadas por essas linhas de luz e de sombras e por essas cadeias de signos, por essas segmentações de movimentos e cadeias de signos. Isso foi para a gente aplicar um pouco nisso que estamos desconstruindo, mas vamos retornar a Spinoza. Se estou separado do que eu posso e me reduzo a essa afecção, a face voltada sobre o outro é a da causa imaginaria do meu bem ou do meu mal, da minha alegria ou da minha tristeza que se desencadeia em ódio, ou amor e por aí vai, esperança e medo… E a face voltada sobre mim é face do sentimento. É como se a minha consciência fosse feita de uma dupla face. A face voltada para as coisas e a face voltada para os meus sentimentos. O sentimento é a imagem que eu faço da variação da minha capacidade de existir. Esse é o campo dos sentimentos. Ele é imagético, é ainda imaginação. Há um delírio e uma alucinação. Projetar uma causa imaginária no outro é uma alucinação. Enquanto estamos separados do que podemos a gente não rompe a natureza do devir e da alucinação. Somos alucinados e delirantes por mais bem, comportados que sejamos. Alias quanto mais bem comportados mais alucinados e delirantes somos. É justamente o contrario da imagem que se faz do louco. E aí mais contidos, mais cheios de ódios, de ressentimento, de impotência, de tristeza, de miséria. Quanto mais civilizado, mais domesticado!! Esses poços de bondade, de paciência, de calma, esses bibelôs bem lustros, com belas aparências, essas almas caiadas, como diz Nietzsche. Vocês vem que há aqui uma espécie de encadeamento tanto no campo das imagens materiais percebidas, quanto no campo ou no nível das afecções como nível dos afetos. A grosso modo tem aqui três camadas. A camada da percepção, a da afecção e a do afeto. Isso já faz parte da matéria sobre a qual o poder opera. Essa maquina abstrata de segmentarização do movimento. Vai haver um uso da percepção, da afecção e do sentimento. Não se trata de dizer que a percepção, a afecção ou sentimento seja maus ou bons. Trata-se simplesmente de apreender a sua natureza e ver o uso ilegítimo ou legitimo, usando esse termo de Hume, que se faz da vida. O que é de fato uma imagem, uma afecção, um afeto, na sua natureza mesma e o que é o uso que se faz disso do ponto de vista de uma captura do poder das paixões tristes. O poder se serve das paixões tristes, é a sua matéria principal. O poder precisa operar a separação, é a grande usina das paixões tristes. Não há poder sem a base das paixões tristes. Ele faz isso de várias maneiras. Nietzsche detecta aí o uso ativo e alegre da dor. Pois a dor é uma força reativa assim como o prazer. Dor e prazer são forças reativas apenas, mas há um uso reativo e um uso ativo da dor. Quando eu encontro o sentido alegre da dor eu estou no uso ativo da dor. Mas quando associo a dor a um sentido interno e triste eu estou no uso reativo e faço da dor um sinônimo de imperfeição, de mal e a dor é aquilo que deve ser eliminado e esconjurado. O poder opera essa zona. O poder não é apenas uma instancia, ele exerce em nós e através de nós e nós mesmos o exercemos, mesmo na submissão. Somos cúmplices. Quando falo do poder não quero dizer uma instancia isolada, abstrata, separada. Estou falando desse modo de se relacionar. O uso que se faz da dor e do prazer, o uso passional das nossas paixões e da nossa percepção é que nos torna cúmplices ou nos libera em direção a reconquista da capacidade de acontecer no imediato do pensamento e do movimento. É isso que precisamos apreender. O que se passa, do ponto de vista de Spinoza, nessa diferença do ato que atualiza a potencia? Nesse pólo que diz respeito a capacidade de existir que aumenta ou diminui? Ele chama de paixão tudo que é produzido na minha potencia, a variação da minha potencia, na medida que ela não é causa da variação, mas que a causa é apreendida de fora. Eu imagino que é uma determinação extrínseca a mim mesmo. Nessa medida eu sofro a paixão. Estou na ação quando a causa é apreendida de dentro, de modo imanente. De dentro não significa dizer de dentro de um eu, ou de uma consciência, ou de um espírito – a não ser chame de espírito o relacional- mas sim de dentro da relação. A relação é o que me põe em contato direto com o fora, a fronteira de mim mesmo, o relacional. Há um relacional de cada relação. O ato imanente, e não transcendente, o ato intrínseco, e não o extrínseco é esse relacional da relação. Apreender o relacional da relação já é não só apreender a dimensão dada do que é comum – sem uma comunidade de ser nem haveria relação – mas também criar singularmente esse relacional, sem o qual a minha potencia não seria produtora de uma nova realidade ou causadora dessa modificação que a modifica ou desse afeto que a põe em variação. Ela se torna causa da própria modificação na medida em que ela não só encontra a zona comum mas produz o modo necessário da passagem sem o qual ela não toma parte daquilo que ela já é e da própria natureza. Esse tomar parte que eu, de alguma maneira já sinalizei nos conceitos de primeira idade e primeiridade. Primeira idade é ser parte, encontrar-se como parte e o primeiridade é tomar parte, é conquistar. Sem essa conquista desse ato imanente não há ação. A ação é necessariamente aquilo que põe a minha potencia em variação a partir da própria potencia, daquilo que só a potencia tem. Sem essa potencia inteiramente implicada e afirmada essa modificação não aconteceria. Essa modificação que resultaria unicamente da potencia que me constitui na relação. Na relação, algo que decorre apenas da minha potencia é capaz de aumentar minha capacidade de existir. Porque isso sempre aumenta. Para Spinoza não existe ação triste. A ação é necessariamente alegre. O que ele define como ação é sempre uma realidade compositora e na medida em que há composição há aumento de potencia necessariamente. Isso que Spinoza chama de ação. Nós chamamos de ação um monte de coisa, a ação de ir até a garrafa e encher a xícara de café, mas isso poder ser simplesmente uma paixão se sou determinado de fora. De repente eu tenho lá uma gula, ou um vicio, ou uma coisa que me impele de beber ou de comer. Alguém que olha pensa que você é ativo, mas isso não é ação. Só é ação quando você é causa da própria modificação. Esse você não é uma consciência, um sujeito. Esse você é a potencia em variação, é a potencia na relação Questão: lendo sobre a inteligência coletiva eles falavam muito disso da ação. Fuganti: Às vezes eu tenho a impressão que essa inteligência coletiva entraria numa espécie de senso comum da inteligência. É como se houvesse um modo inteligente de ser na coletividade, uma forma de inteligência e aí é complicado. Questão: E aí não seria entrar no imediato do pensamento? Como algo que atravessa um coletivo? Fuganti: Bom, aí eu não sei. Eu não vou dizer se é ou não é. É aquela coisa da arvore do conhecimento? Maturana ok, mas Pierre Levy não. Pierre Levy para mim é complicado. E fala usando Delleuse, Maturana, Michel Celi, mas tem muita mistificação na obra de Pierre Levy, mas também não quero ficar julgando. Mas se é esse conceito de inteligência coletiva do Pierre Levy, isso é uma espécie de imaginação coletiva, e não um pensamento na imanência. Isso é até secundário, pois se a gente apreende mesmo o que é agente vai saber avaliar se é ou não é. Deve ter coisas interessantes também. Eu faço uso de vários inimigos meus, como o filosofo francês Baudrillard que escreveu um texto sobre simulacro muito interessante e no entanto eu não gosto dele. Por isso não vou destituir em bloco, assim está Pierre Levy. Por isso que é importante apreender o geral na realidade de ir alem das palavras que a gente usa para avaliar de fato os encontros que fazemos. Então, estou nessa distinção entre ato imanente e ato transcendente, entre ato intrínseco e ato extrínseco ou determinação interna e externa ou autonomia e heteronomia, pode usar essas maneiras de diferenciar. O ato imanente é aquele que ao invés de apreender a causa no outro ou em mim, ele apreende a causa no relacional, no modo de relação que é feito de um duplo aspecto, de uma zona comum, de um ser comum, que Spinoza chama de noção comum – sem o ser comum não haveria relação, mas ao mesmo tempo esse ser comum, que é uma dimensão afirmativa da natureza, uma afirmação desejante da natureza, uma dimensão do acontecimento que deseja, que acontece antes de acontecer, na relação com uma potencia ele se atribui imediatamente enquanto o começo da singularização. A singularização começa no comum, no horizonte mais amplo, absoluto, de mim mesmo. Esse processo de singularização não se opõe ao ser comum, ao contrario de todo nosso imaginário social, de toda racionalidade ocidental que vai dizer que o comum é o universal e que o singular é um particular e que o particular se opõe ao universal até que o particular se submeta ao universal. Aí ele não se oporia mais e sim se conciliaria. Na verdade o singular não é o particular e o comum não é o universal. Então é preciso encontrar o comum, que Spinoza chama de noção comum, e que eu estou chamando de relacional da relação sem o que não haveria afirmação imediata dessa potencia ou, em outra palavras, não se produziria o ato imanente que atualiza essa potencia. O ato imanente e a afirmação imediata é a mesma coisa. A afirmação imediata da potencia em variação ou da diferença que se diferencia. Questão: O comum é o próprio? Fuganti: O comum é o sustentáculo do próprio e dá pra dizer que é um paradoxo. Próprio é uma propriedade, individual, particular e o comum seria o publico! No campo político: o publico e o privado é uma falsa oposição porque o publico é o tempo todo apropriado pelo privado e o privado, no sentido mesmo da “singularidade” ele é totalmente submetido a uma norma social a uma universalização. É ridículo, uma falsa dicotomia. Publico não é melhor que o privado e vice versa. Essa dicotomia, esse socialismo superficial, essa oposição rasteira entre esquerda e direita, a coisa é mais em baixo. Encontrar o comum, aquilo a partir do que a singularidade se afirma. A singularização não acontece sem o plano comum de encontros ou sem o relacional da relação ou sem o necessário do acaso. Nesse acaso dos encontros há um necessário. Exemplo, se uma coisa me faz bem, ela só me faz bem porque tem algo de comum comigo. Se ela não tivesse algo de comum comigo ele nem chegaria a me fazer bem. E posso dizer a mesma coisa de uma coisa que me faz mal. Uma coisa que me faz mal só me faz mal também porque ela tem algo de comum comigo, pois senão nem me atingiria. Se não tiver nenhuma zona comum. Como me atingiria? Então há uma comunidade na relação mesmo na pior relação, mesmo numa doença, num mal, etc. É isso que estou chamando de necessário do acaso. É necessário para que tenha relação tenha um ser comum. Agora, esse necessário do acaso pode ser também uma essência do acidente, ou digamos assim, uma singularidade dessa zona comum. É a partir desse necessário que eu apreendo o ser sem o qual não haveria nem modificação em mim nem do outro, mas ao mesmo tempo eu apreendo a maneira onde toda a minha potencia é contemplada nessa relação, e não só parte dela. Na medida em que eu incluo toda a minha potencia, em que ela inteira é afirmada, não só ela, mas todo o conjunto, a medida em que acontece algo a minha potencia eu estou nesse comum que desemboca na singularização. Singularização porque a minha potencia aparece inteira, toma parte inteira daquilo que acontece. Ela não somente se sente implicada como sente a produtora a causa disso que é modificado porque ela está inteira implicada aí. Se ela não estivesse inteira aquilo não aconteceria. É por isso que ela se sente causa. Questão: Então não haveria uma situação na qual o aumento de potencia de um lado provocaria a diminuição de potencia do outro? Fuganti: Isso seria a imagem que o homem separado do que pode faz do que é a potencia. Faz a imagem da potencia como sendo um poder e o poder só cresce em cima do outro, explorando o outro, ferrando com o outro, trapaceando. É por isso que nesses valores dos direitos humanos, da democracia, da igualdade… Ontem mesmo eu ia ver o Barravento do Glauber Rocha e eu achei que era uma homenagem ao Glauber e na verdade era uma homenagem a toda essa esquerda vítima da ditadura militar e foi uma palhaçada só, pois foi promovida pela secretaria especial dos direitos humanos da presidência da republica e estava toda essa gente que acredita na forma, na lei, que existe uma espécie de substrato na natureza e no homem que se não for contido pela forma democrática, pela forma da igualdade, pelos valores universais do homem, vai gerar a ditadura, terrorismo, fascismo. Enquanto que a própria ditadura, o fascismo, o terrorismo começam na forma. A forma, se ela é lei, ela não é diferente da barbárie. É a própria barbárie que inventa a lei. Alias é isso que Deleuze e Guatari não se cansam de falar no Anti Édipo e no Mil Platôs quando eles citam George Dimezille que é aquele que distingue os vários mitos no mundo hindo europeu e que vai ver nas sociedades de estados mitos de soberania que tem dupla cabeça. O mito tem sempre um mito violento de fundação, que é a barbárie e o mito pacifico de regulação que é a lei, a civilização. A lei e a civilização se fundam no seio da própria barbárie. A lei é simplesmente no momento que a força se impôs ela também impõe o dever ser implicado nessa força e é nessa balela que os humanistas acreditam, que os democratas acreditam, que essa gente de esquerda ligada a esse tipo de forma de socialismo banal acreditam. E aí sempre se imagina que a potencia é um poder que tende a romper esse estado democrático de harmonia entre os homens. Quando na verdade precisamos apreender a potencia do ponto de vista do entendimento e não do ponto de vista da imaginação. Quando apreendemos a potencia do ponto de vista do entendimento apreendemos que jamais a potencia efetuada de modo imanente vai fazer mal a vida, vai querer se apropriar ou capturar ou viver das paixões tristes. É justamente o contrario, na medida em que a potencia se efetua de modo imanente, que ela é ativa, e se ela é ativa ela compõe e se compõe ela produz realidade e se produz realidade ela distribui essa realidade. Essa produção é generosa e distributiva e não apropriativa ou opressiva. É justo ao contrario. Essa hipocrisia que é preciso acabar e não ter medo de falar, de desconstruir, mesmo que sejamos taxados daquilo que eles é que são, micro fascistas ou autoritários. A autoridade se funda na lei. Não existe autoridade sem lei ou sem a forma. A forma da autoridade. Tem inclusive a autoridade intelectual. O que é um cientista? Ele tem uma autoridade numa forma de efetuar a verdade, ele precisa dessa forma. A hipocrisia que não se diz, que é inconfessável, é que essa forma é sustentada por um campo de forças. É preciso chegar no campo de forças e qualificá-lo. É um campo de forças reativo? É um diagrama de poder? Ou é um diagrama de potencia ativo e afirmativo? Se a gente não chega aí jamais faremos algo que interessa do ponto de vista do futuro da humanidade. Alias a humanidade não terá futuro se não reconquistar essa capacidade afirmativa, esse devir ativoo. Claro, a gente não sabe até onde isso vai chegar, ainda não chegamos ao fundo do poço. A hora que chegar vai ser aquele niilismo, aquele deserto aonde tudo vai se empobrecer ao maximo e aí a vida ou vira leão, como diz Nietzsche, entra aquele niilismo ativo onde se destrói aquilo que desertifica e empobrece a vida ou a vida desaparece numa espécie de morte passiva, numa espécie de depressão. A própria humanidade entra em depressão e é engolida pelo seu próprio buraco negro e a natureza, claro, não vai perder nada com isso. Ela só viu que esse modo humano deu até aí. Ela vai inventar outro modo, ela já inventa outros modos. A educação para a potencia vai no sentido de acessar o entendimento. Se você acessa o entendimento ou você entende e fica na imaginação e a imaginação é uma bosta. Mesmo nesses níveis de imaginação, imaginação estudiosa, organizada, levar isso a passagem ao entendimento e não manter como um estado necessário onde o homem nunca vai pensar, onde precisa de um estado de lei, de algo extrínseco que o determina. Ou se só precisa de algo extrínseco que o determina na medida em que você alimenta essa desconfiança que ele é incapaz de pensar ou que vai se manter separado do que pode. Quando eu chamo para essa radicalidade eu quero dizer que o essencial é isso, não é excluir a outra parte, mas é dizer que ela é só um apagar a fogueira imediato e chamar a atenção pra chegar no entendimento. Por exemplo, você pega Moises na fuga do Egito. Como ele conduz aquele povo de impotentes, grosseiros, onde as piores paixões dominam, a cobiça, a inveja? Tábuas de valores, leis para conter aquela massa furiosa ou irascível. Tudo bem a lei é só um apagar a fogueira é preciso encontrar o entendimento. A própria inteligência da lei, o espírito da lei – falando a lá Montesquieu- não é a natureza em si da lei mas aquele modo que faz da lei uma função da vida ativa. Se tem uma lei ela deve ser sustentada por essa função ativa que a torna uma regra de passagem e não uma substancia ou um valor em si. Mudar a ótica, se não ser contra a lei é que nem ser contra deus. Tem uns crentes que acreditam em deus e eu sou ateu, mas esse ateísmo é apenas uma outra crença, é o inverso daquela crença. Seria ridículo entrar nesse campo. Pode dar a impressão de eu estar instigando esse lado, mas na medida em que eu chamo para esse ponto de vista do entendimento eu digo que é preciso entender o relacional da relação e nesse lugar se dá uma maneira de acontecer que pode oprimir ou pode liberar a vida. Na liberação eu entendo que há uma necessidade da própria relação e se há um necessidade há uma regra de passagem também. Mas a regra é de passagem e não um valor em si. Ela é enquanto a função afirmativa e ativa, enquanto ela é uma afirmadora, uma facilitadora, uma espécie de protocolo da experiência criativa, aí sim. Essa é desmistificação que se deve fazer da forma da lei e não dizer acabe com todas as formas. A forma é sempre resultante e deve ser função de algo que é primeiro. A forma é sempre reativa. E se ela quiser tomar o lugar natureza ativa e afirmativa ela então é fascista. É o que acontece na nossa sociedade, por isso eu ataco o tempo inteiro a forma porque há uma mistificação dela. Que ela seria protetora e guardiã de uma liberdade, de uma paz, de um não esmagamento da vida. Mas ela é a primeira que esmaga. Desse ponto de vista eu posso dizer que a justiça é a primeira instituição da violência em sociedade. Ela é primeira, não é que ela está aí para conter a violência em nome de um estado que detem a violência, até com a violência policial para proteger a sociedade. Ela não é secundaria, não age secundariamente a violência com a ação da policia. Ela é a primeira instituição da violência e isso com a sua forma aparentemente neutra. Claro é preciso ter essa prudência, mas é preciso não ceder um milímetro porque não precisa. Isso não tem nada a ver com ser inflexível, pelo contrario. O que não podemos é ser conformista tipo Freud, há um mal estar necessário da civilização. Ou os homens entram na lei civilizatoria ou eles são bárbaros e se destroem a si mesmos. Isso é um conformismo. Isso é acreditar que a existência não tem autonomia própria, que ela precisa de uma entidade fora dela. Isso é um niilismo. É fazer da própria dor um signo da imperfeição. É preciso encontrar aquela ótica sob a qual toda a existência e a natureza é perfeita. Aquilo que leva Spinoza a dizer: “Por realidade e perfeição entendo a mesma coisa”. Encontrar o necessário de cada caso, o ser de cada devir, a unidade de cada multiplicidade, a essência de cada acidente. O relacional da relação é encontrar esse ponto sob o qual a natureza é perfeita. O entendimento apreende a ordem necessária e não a ordem imaginaria da lei que homem precisa para conter a violência. Se ele esta na ordem necessária ele não se contradiz. Se a lei for de fato isso que ela diz que é, que sempre é uma mentira, uma balela, se ela for mesmo, ela não entraria em contradição com o entendimento. Então se trata de ela encontrar o entendimento e não o entendimento se curvar à necessidade da lei. É o contrario. E aí eu entendo que não há proibição na natureza, não há necessidade da proibição. A proibição só atua no campo da ignorância. Eu crio uma lei porque o outro é ignorante e ele não entende uma maneira de se relacionar que afirmaria a potencia e exerce o poder porque ele é impotente e ele vai massacrar a vida e é preciso ser contido. Aí sim eu tenho que dispor da lei. A lei é feita para quem precisa de lei, é feita para ignorante, assim como a policia. A mediação é feita para um impotente que não se relaciona imediatamente com as coisas. O impotente é que precisa de… de tudo, sei lá. Claro que os meios podem ser até meios de passagem, mas usar a mediação com uma instancia necessária para o humano, é coroar a impotência e se conformar a uma crença que à vida e à natureza falta uma realidade imanente, uma capacidade de se auto gerir. Eu quero voltar à questão do Spinoza para finalizar. Semana que vem entramos em Nietzsche e Bérgson. Estamos circunscrevendo a zona da experiência do corpo que se dá entre a percepção e a ação – percepção, afecção, afeto, sentimento, ação, todo esse campo que a gente chamou de matéria sobre a qual o poder exerce- Todo o capo da ação e da paixão, todo o campo do movimento onde se instala um regime de luz, uma maquina que opera iluminação ou enquadramentos de certos pontos da matéria e sombreamentos. É uma circunscrição de um campo de possibilidades que leva o corpo a agir e a reagir, a se modificar e ser produzido nesse campo de possibilidades. O corpo é produzido aí. Portanto a segmentação do movimento se dá nesse regime de luz e para isso a gente começou s a usar esse modo spinozista de entender a natureza, inclusive a natureza humana, na medida em que Spinoza vai definir no campo da experiência, no campo da existência dois tipo de atos: o ato que é ação e o ato que é paixão. O poder só se instala na medida em que nós nos relacionamos com o ato que é paixão. O poder não suporta o ato que ação. Se a gente é ativo o poder não cola. É ele que foge de nós. O poder foge de quem é ativo e afirmativo. Quem é ativo e afirmativo não pede licença e não teme nada, ele se põe, é incapturável porque ele habita uma passagem, ele habita e cria o ato imanente. É só na zona da determinação extrínseca. E por isso que iniciei enfatizando essa parte da paixão em Spinoza, disso que nos determina de fora que tem dois sentidos. O sentido do que diminui nossa capacidade de existir e que produz em nós a paixão triste e o que aumenta nossa capacidade de agir, sentir e pensar ou de existir, ou que produz em nós uma paixão alegre. Spinoza faz uma distinção entre esses dois modos de ser preenchido de fora. Uma coisa é a paixão triste e outra é a paixão alegre. Não só e necessário distinguir ação e paixão como é necessário distinguir a paixão triste da paixão alegre. Porque é pela paixão alegre que eu posso conquistar a ação. Na paixão alegre, ainda estou separado do que posso. Na paixão triste certamente estou separado do que posso porque a minha vida encolhe. Eu fico menos potente para agir, sentir e pensar. Fico separado da minha potencia para entender, sentir e agir. Mas a paixão alegre é o contrario, ela aumenta a minha capacidade de agir, de sentir e de pensar. Com esse plus de pensamento, de pensar, de potencia, eu me sirvo dela para entender a causa real do que aumentou a minha potencia. Esse plus, é como se ele desse profundidade a aquela imagem chapada que eu acho que é o outro ou uma subjetividade em mim que aumentou a potencia. Mas esse plus de potencia da natureza da coisa expressa na relação, aponta para uma profundidade da potencia e nessa medida eu entendo que causa é o modo da potencia acontecer. A paixão alegre é uma ponte para o entendimento para ideia de …, ela é uma condição, não a causa, não o principio, é a condição sem a qual eu não entendo. Ela é uma preparação material para que eu possa exercer a potencia do pensamento. Então, a potencia do pensamento se dá a partir desse plus de potencia gerado na paixão alegre. Nessa medida, eu me preencho não mais por paixões tristes ou alegres, mas por ações. A questão não é excluir as paixões, mas transmutá-las em ações. Aí sim eu afirmo a capacidade de ser afetado. Aí ser afetado não vai ser uma passividade, mas uma capacidade. Quanto mais eu posso ser modificado de fora, mais potente eu me torno. Eu afirmo a potencia receptiva, não como uma passividade, mas como uma fonte de energia, como um alimento. Vou começar a tomar gosto pela abertura e desinvestir o fechamento. Seria uma outra atitude. Desse ponto de vista o poder não escreve mais uma superfície exterior, aquilo que Marx chamou de movimento objetivo aparente, gerador de fetiche. Não mais sou determinado por esse movimento objetivo aparente ou pela velocidade das imagens, ou dos signos, ou da mídia, dos deslocamentos dos corpos, mas apreendo uma velocidade imanente, intensiva do movimento. Servimos-nos de Spinoza, pois ele é uma ferramenta para desconstruir isso que nos determina de fora ou que nos põe refém de um regime de luz e que faz do nosso corpo intensivo, um corpo organizado, ou submetido a um organismo. A gente pendura nosso corpo intensivo num organismo social, numa cadeia e num regime de gestos e ações e de paixões. É despendurar, é liberar nossas ações e nossas paixões desse plano de referencia do corpo. O poder cria planos de referencia não só para o pensamento, mas também para o corpo. É esse plano de referência para o corpo, esse espelho do corpo que tem que ser desconstruido para podermos reconquistar o plano de imanência do corpo, do movimento, o próprio ser do movimento, o imediato do movimento. É religar o movimento a sua dimensão virtual. O movimento também tem a sua dimensão virtual assim como o pensamento e o tempo. É sempre religar a existência, o real existente ao real virtual. Essa é a nossa questão. Pensar numa pratica abstrata, inocular vazios no corpo, criar hiatos para o corpo, inventar, buracos, tomar gosto pela idiotia, pela catatonia, pela suspensão, desconstruir o corpo eficaz.

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