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Fuganti – Desejo e Pensamento

por Luiz Fuganti

Imanência e univocidade do ser como as mais altas potências de afirmação da vida.

"Talvez um dia o século será deleuziano", assim falou Michel Foucault numa ocasião, depois do extraordinário impacto que lhe provocou a leitura de duas obras que marcaram para sempre, não só o século 20, mas toda a história do pensamento humano: Lógica do Sentido e Diferença e Repetição, de Gilles Deleuze. Essas obras por si só mostra toda singularidade e diferença de uma pura potência do pensamento.

Rompendo com a representação, Deleuze reencontra a imanência do ser contra a transcendência, a univocidade do ser contra um ser apenas análogo, nas próprias manifestações da vida, do desejo e do pensamento inventivos, apreendidos como potências de autoprodução do real e coexistindo num plano comum de natureza de pura composição. Nesse plano, as intensidades comandam os devires. Os valores são destituídos de sua transcendência e remetidos àquilo que é criado e que se cria nos devires do tempo, puros resultados de modo de ser, de maneiras de viver. É assim que o próprio tempo é cavalgado e atravessa nossas vidas como o único gerador de eternidade.

Deleuze é não apenas um dos maiores, ou talvez o mais marcante filósofo do nosso tempo, como também é, sem dúvida, aquele que levou mais longe toda a potência de um pensamento afirmativo da vida e do desejo (sem falta e produtor de real). Atravessando obras e filosofias, como a dos estóicos, Epicuro, Lucrécio, Spinoza, Hume, Bergson, Nietzsche, Foucault, Kafka, Proust e tantos quantos visitou em suas leituras, ele fez, como ninguém, ver nas entrelinhas dos textos desses pensadores o que o leitor comum ou simples comentador jamais suspeitaria.
Com Félix Guattari, gera obras como O Anti-Édipo ou Mil Platôs. Servindo-se das mais nobres conquistas do pensamento humano, leva-as ao ponto em que mostram toda sua força, num devir extremo, como uma transmutação suspensa que ainda não tinha ousado exprimir sua forma mais bela.

Uma surpreendente viagem em labirintos de uma outra espécie: labirintos de tempo puro. Para além da representação, o pensamento conquista em Deleuze a mais pura e imediata expressão das singularidades libertas do sujeito e do objeto. Pensamento sem sujeito, emancipa as diferenças puras dos conceitos gerais e explode os significantes semiológicos que esmagam tais singularidades na impotência das formas médias ou dos modelos universais. Pensamento sem imagem, desata o corpo das amarras asfixiantes do organismo, fazendo fulgurar os fluxos de um corpo pleno e glorioso, anterior e mais essencial que o corpo orgânico que geralmente atrela a vida aos seus órgãos e funções utilitárias.

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